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30 novembro, 2004

Diário póstumo de um cinéfilo (3)
Por Fran Pacheco

Apatia. Eis a palavra de ordem do festival. Tento vencê-la. Este é um festival de Aventura! Que soem as trombetas do tema de Indiana Jones! Não entendo por que ninguém topou pagar 50 reais por uma sessão noturna no Teatro. Sairia pela bagatela de cem reais o casal. Agora só vejo o Robério correndo de um lado pro outro. O Governador quer resultados, é um homem técnico, pragmático, quer retorno. Robério se afoba e libera geral a entrada. Aguardem: em breve estará recolhendo gente na rua para encher as sessões. A última esperança do secretário e expor o Giannecchinni às massas. Se ele vier.

Seguem minhas observações muy pessoais acerca do que vi:


Paloma de Papel (filme em competição)
Um filme literalmente do Peru. Belas imagens dos Andes me levaram a um sono gostoso durante a projeção. Eu estava pouco me lixando para o drama pessoal do protagonista, um marmanjo relembrando o tempo em que foi levado pelo Sendero Luminoso (a Al-Qaeda deles), quando ainda chico. A madrecita do menino morre. Pronto, contei. O que eu não me conformo é que o Peru - que fica logo ali, em Tabatinga - produz Cinema (Pantaleón y las Visitadoras, Bajo la Piel, No Se Lo Digas a Nadie) e nóis aqui, do outro lado da rua, fazendo vídeo caseiro de 1 minuto...

O Xangô de Baker Street (hors-concours)
Um dos mais caros filmes brasileiros em todos os tempos. A grana transparece em cada sequência deste blockbuster tupiniqum insosso, sem estilo e quase sem graça. Filme de época? Comédia? Noir? Aventura? A soma incipiente das partes incompletas de cada gênero, resultando num filme quadrado e pasteurizado (gostei desse chavão). A impressão é que, para garantir o retorno do investimento, foi contratada uma junta de diretores. Não há traço autoral. Jô Soares, que nem é tão bom ator assim, aparece numa gag. A prochaska da Isabel Guerón também, no justo momento em que eu acordava, o que, para mim, salvou o filme. Vale ser revista. Digo, revisto.

Buffalo Boy (filme em competição)
"Saigon. Shit." (Apocalypse Now). Mas vamos ao filme: Minh Nguyen-Vô é o nome do sorridente vietnamita que assina a película. Mais uma vez o curador francês, Messier Ditilhê, põe um drama de juventude na parada, desta vez deslocado para a Indochina dos anos 40, ocupada por quem? Pela turma do Asterix, é claro. Altos negócios nos trópicos úmidos é com eles (vide as ex-possessões na África e o Amazonas Film Festival). Não confundir com Buffalo Bill, embora essa fosse a intenção. O curumim em questão gerencia a manada de búfalos marajoaras, nas várzeas do delta do Mekong e cuida do pai gagá. Aprende muito com a ralação e se torna um Homem. Enquanto isso, meu sono se aprofundava e eu sonhava com meia hora de Norma Bengell pelada na praia naquela cena de Os Cafajestes (62). Mas Norma Bengell no atual estado. Acordei transido de suor.

 

29 novembro, 2004

Enquanto isso, no Festival...
Por Cartier, Free-Lancer


 

Diário póstumo de um cinéfilo (2)
Por Fran Pacheco

Conforme prometido, baixei em todas as sessões possíveis do Festival de Cinema (que ocorre por aqui em média a cada 35 anos). Ainda vou descolar umas dicas com o Barretão para arrancar dinheiro público para um "filme rebelde" que estou elaborando. A seguir, minhas impressões esparsas:

Filmes dos dias 27 e 28/11

Tainá II (exibido na sessão de abertura)
Só para lembrar: eu não fui ao histórico evento. E filme infanto-juvenil não é a minha praia desde Fantômas (1913). Esta crônica está a cargo de Irmão Paulo e suas doces palavras.

No Paiz das Amazonas (exibido na Roberiolândia, antes do Carrosel da Saudade)
Não me canso de rever esse documentário do meu amigo Silvino Santos, lançado em 1921. Silvino promoveu o filme na Capital Federal vestido de Indiana Jones avant la lettre. Figuraça, o portuga. Lembro que ele revelava os negativos no meio da selva, dentro de um tronco oco de árvore, convertido em laboratório. Fi-gu-ra-ça. Mesmo carcomido, o filme mantém o encanto da Manáos prazenteira e louçã de antigamente. O problema foi o pianista. O pianista ofuscou, com sua quixotesca figura, a projeção. O que é que o Pedrinho Sampaio estava fazendo ali, com aquele... cocar? Pra que aquele cocar, fariseu?

Tae Guk Gi (1º filme da mostra competitiva)
Vocês perderam. Um filmaço de guerra vindo da terra do músico Chick Korea. Dispensei as legendas e saboreei a fala monossilábica dos tigres asiáticos. O fato de não ter entendido, por conseguinte, porra nenhuma, não diminuiu o impacto postivo em mim causado por esse drama. Bem, suponho ser um drama. Infelizmente, não consegui diferençar nenhum ator, mas são todos dignos. Dormi na metade e perdi algumas mutilações. Até agora, por ser o primeiro filme em competição que vi, é o meu franco favorito para ganhar o troféu do festival (uma cabeça moai de madeira com 75 cm de comprimento).

A Selva (hors-concours)
Vocês perderam, também. Finalmente pude conferir o resultado das filmagens na Rua Bernardo Ramos, que o ex-prefeito Buchada tentou "revitalizar" e na praça da Manaós Tramways, que o Decarlão ganhou de presente do Amazonino e depois destruiu. Este filme lusitano foi rodado em Panavision. Isso significa: grana, muita grana, ó pá. Em termos de produção, chuchu beleza. Mas o resultado artístico geral foi irregular (gostei desse chavão).Não gostei do Cláudio Marzo (o eterno senhor de engenho e congêneres) dizendo com toda pompa: "isso aqui é a Selva!". Por sua vez, o gajo protagonista não tinha carisma algum. Pudera, o cara se chama Diogo Morgado. Dormi mais ou menos aos oitenta minutos, perdendo uma cena de sexo com animais. Gostei mesmo da Dona Yayá da Maitê Proença. Mas isso já é praxe.Vocês não fazem idéia do tamanho do Q.I. da Maitê (atenção: não estou sendo irônico).

 

28 novembro, 2004

Frase da Semana
Por Fran Pacheco

"Vou procurar um emprego."
Do ex-deputado Cordeirinho.

Este self-made-man teve o mandato cassado, mas não por ter ajudado a desviar 500 milhões de reais em licitações fraudulentas, e sim por ter falado mal de seus colegas, nas conversas grampeadas. Nada demais nisso: pegaram Al Capone por um erro na declaração do Imposto de Renda. Mesmo de licença médica, Cordeiro apareceu na Assembléia, depois de 3 meses de ausência, aparentando excelente saúde. Só por essa mentira já devia ter sido defenestrado.

Graças à votação secreta, o nobre vigarista obteve 6 nefastos votos contra a cassação (quem foi? quem foi?). Precisava só de mais um para escapar. Foi por pouco. Muito pouco. Quero saber quem foram os seis Bons Companheiros interessados em salvar o Cordeiro. Se eu fosse o ACM, vulgo Toninho Malvadeza, já estaria com a lista da votação em mãos. Como não sou, deixo a pergunta no ar, para especularmos.

 

Diário póstumo de um cinéfilo (1)
Por Fran Pacheco

Não conta pro Robério não, mas está todo mundo no Festival de Brasília. Como não conheço nenhum médium por lá, fico por cá, a ver o nosso (dele) Festival. O eterno secretário da Cultura Roberiana, astuto como só ele em matéria de números, emplacou na imprensa nacional que será um festival com 148 filmes. Repetindo: 148 filmes! Leon Kakof e sua Mostra de São Paulo que se cuidem.Nem vou estragar a festa do secretário dizendo que deste montante, 92 são os tais vídeos de 1 minuto. Vão passar nos terminais de ônibus, local ideal para o povão se divertir (ou não) durante uma hora e meia de projeção enquanto o busão não chega.

Às voltas com pendências no meu espólio e com tentativas de exorcismo contra o médium responsável por este blogue, não pude baixar na grande cerimônia de abertura. Irmão Paulo, com seu bem conservado crachá do Estado de São Paulo, entrou lá e viu tudo. Vem chumbo grosso por aí.

Vou me esforçar, doravante, para assistir a todos os filmes com mais de quinze minutos. Pagar, eu não pago entrada mesmo. Quando em vida já era assim, eu nunca pagava. Eu vinha com aquela cartola e um ar imponente de Kaiser, que esmigalhava com o olhar o moleque da bilheteria, e ai dele se me pedisse o ingresso. Ai dele! Hoje, em estado etéreo, as coisas estão mais fáceis. Ai de quem benzer a entrada do cinema e tentar deter minh'alma.

 

Bandido de alma tímida ou vice versa
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Stella Maris e Hedôzinha não me merecem. Cheguei a essa conclusão depois de uma festinha particular no quarto escuro da A2, semana passada, onde fui cavaleiro macho e cavalo baio ao mesmo tempo (pras detalhistas: eu estava de cueca Box que acabou virando Slip de tanto que a Hedôzinha enrolou no pulso e puxou pra cima, numa tara absolutamente inexplicável. Fio dental usa a puta que pariu!). E, o mais trágico de tudo, mal encostei a espora envernizada em KY-gel, as potrancas chamaram o garçom e acabaram com a muvuca. Puto e desorientado, só consegui, graças a Deus, dar um safanão na Stella que, de peruca loura e salto agulha, me barbarizou de chicotadas por crimes que jamais supus ter cometido. Votar no abelha, por exemplo. Quando desencarnei, aquele mané sequer era nascido, Stella! Eu devia ter ido pra laje da dona Maria, caceta! Um simples burrão transforma um macho em outro...

Caso ardido e trágico em nossa literatura, só me lembro de Lima Barreto, que escreveu em Marginália: "A minha alma é de bandido tímido." É, eu sou um Lima Barreto caboquinho. Talvez não. Eu devia mesmo era ter enchido as duas vacas de porrada e feito barba, cabelo e bigode enquanto elas estivessem grogues. Mas não. O mané aqui preferiu discutir com o garçom pela intromissão desnecessária enquanto as duas sádicas morriam de rir. Como estou com a coluna em petição de miséria e a miséria da alma no meio da canela, só me resta recordar daquele crioulo que esnobei várias vezes na parada de ônibus. Ainda não o vi por aqui, o que me leva a supor que mulatos inzoneiros vão pro inferno. Talvez não. Vou perguntar do Fran Pacheco, que conhece bem essas paradas.

Paradoxo dos paradoxos naquele mulato dos mulatos: sua alma era de bandido tímido, mas seus arroubos comovem e convencem até hoje. E, se ele, em momentos, era quase um carbonário, seu personagem Manoel Joaquim Gonzaga de Sá recomendava a doçura como a maior força do mundo. Também dizia: "A mais estúpida mania dos brasileiros, a mais estulta e lorpa, é a da aristocracia. Abre aí um jornaleco, desses de bonecos, e logo dás com os clichês muitos negros... Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!..."

Lima Barreto pertence a uma família universal de escritores cuja marca é o humanismo que se agita por um permanente espírito de luta: Cervantes, Gogol, Dickens, Gorki... Porque esse mulato nascido em Laranjeiras no finalzinho do Império foi o menos dissimulado dos escritores de seu tempo.

Era bom e de tope e para azucrinar Copacabana chamava a sua casa modesta, em Todos os Santos, de Vila Quilombo. Tinha a chave e não escondia o segredo, atirava franco, limpo e em grande escala universal.

E era simples a chave - entendia, sentia e amava o seu segredo. Nas criaturas mais insignificantes e comuns, nos esquecidos, nos lesados e nos evitados pelo estabelecimento estavam as pessoas mais importantes do seu país, mexendo-se no mutirão de pingentes urbanos, sobreviventes escorraçados lá no "refúgio dos infelizes", o subúrbio - gentes que não deram certo em canto nenhum do Rio de Janeiro. Mas eram o povo carioca.

Em tudo de seu, há o dedo do libertário e do revolucionário e, claro, do universalista: "Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda disciplina exterior dos gêneros e aproveitar o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação de almas individuais e do que elas têm de comum e dependente entre si."

Há escritores em que o leitor vê atrás deles uma biblioteca, uma sapientia, uma sofisticação intelectual, uma aflição estética, antes de ver os seus personagens. E há escritores atrás dos quais, e mesmo ao lado deles, logo se vê, de pronto, um povo - com suas caras, roupas, cheiros, as maneiras todas de ser. Assim era e é Lima Barreto.

Foram seus sofrimentos 41 anos de solidão preenchidos pela produção, em vertigem, de 17 livros e mais atribulação, calvário e porres?

Sim e não. Sim-não. Que foi grande, jogou alto e largo, enquanto outros jogaram as regras apenas vigentes e Lima tinha consciência disso.

Era um homem a serviço de seu sonho como o próprio Isaías Caminha ou o Major Policarpo Quaresma. E nessa coisa mesquinharia não podia entrar. Era especial, insisto: não admitia "o silêncio é ouro". Era raro e bem topado, o mulato. Tinha amor ou ódio pelos seus personagens e, para ele, obra superior exigia uma condição: "a mais cega e absoluta sinceridade". Era, assim, homem de gostar ou não.

Apesar de algumas tentativas sérias de redescobrimento de Lima Barreto, principalmente após a publicação de sua única biografia famosa, a de Francisco de Assis Barbosa - a primeira edição é de agosto de 1952 -, há alguns pontos a ressaltar na importância do mulato de Todos os Santos, pois vão sendo esquecidos no momento, logo após esses "redescobrimentos".

Conveniente ressaltar, e mais de uma vez, que a vergonha, o pudor e a memória são curtas neste país de nome com seis letras inteiramente diferentes.

Alguns desses pontos, pois:

a) A sua figura é axial dentro da literatura brasileira; é obra que funciona como um eixo dentro da raquítica produção da literatura da época. É a própria entrada da população urbana no cenário das letras brasileiras. Assim como a população do interior entrou pelas mãos de Euclides da Cunha e de Monteiro Lobato na literatura, a gente das cidades penetra pela primeira vez na cena brasileira pelos livros de Lima Barreto;

b) O seu volume de produção foi um dos mais prolíferos e intensos de que se tem notícia no Brasil. Se considerarmos que após 1918 ele esteve eclipsado pelo alcoolismo e pelas internações em sanatório e que, aos 37 anos, foi considerado inválido para o serviço público por "epilepsia tóxica", é surpreendente - produziu textos para 17 volumes em livro. Não é escusado se lembrar que conviveu, desde cedo, com o pai louco dentro de casa e já se provou, cientificamente, que ninguém bebe a bebida, mas as motivações;

c) Há quem veja o forte de Lima Barreto no traço e na trama caricatural de alguns personagens marcantes da nossa Primeira República; prefiro dizer que Lima fotografou uma caricatura, a própria Primeira República. É exemplo grande disso o Marechal Floriano Peixoto, que Lima Barreto colocou em cena e de quem fez o perfil, em Policarpo Quaresma;

d) Foi o primeiro questionador, entre nós, de todo o chamado quarto poder, a imprensa, principalmente em Recordações do Escrivão Isaías Caminha - leitura que deveria ser obrigatória a todos os que estudam comunicação neste país -, e também aí foi pioneiro;

e) Aos que o atacam argumentando ausência de originalidade, incorreção gramatical ou péssimo acabamento da fatura literária, recomendo a leitura do conto O Moleque e do próprio romance Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá. São exemplos de estruturações inteiramente novas na época e modernas até hoje em nossa literatura; são estruturas instigantes e intrigantes;

f) Lima Barreto continua sendo um dos casos de perseguição e brutalidade da censura e da arbitrariedade na literatura brasileira: teve o seu nome interditado e colocado no índex de nossos principais jornais e no ex-Correio da Manhã, em principal - seu nome foi proibido de ser escrito durante mais de 50 anos após a sua morte. O motivo foi a publicação de Isaías Caminha;

g) Constituiu personagens proféticos da falência da nossa chamada República; os políticos com os de Numa e Ninfa ou o Ministro Financeiro Felixhimino ben Karpatoso, de Bruzundangas, estão aí, vivos e vivaços, mandando e desmandando no Brasil de hoje, patrioteiros, parlapatões e sem se dar conta de que a linguagem - e não só estilo... - pode ser o homem;

h) A simplicidade levada ao extremo por Lima Barreto (e que era tida como uma heresia e um desmazelo inconvenientes na época em que escreveu) será capaz de dar dimensões de obra-prima, em qualquer literatura, a uma conversa de confeitaria com que ele construiu o admirável O Homem que Sabia Javanês; isso, em 20 de abril de 1911 na Gazeta da Tarde, profetizando a enxurrada de impostores e picaretas que infestariam o País;

i) Foi o primeiro a denunciar com argumentação concreta e vívida a necessidade de uma reforma agrária no Brasil, e isso em 1911, quando começou a publicar, em folhetins, o seu segundo romance, e um dos primeiros de toda a história da literatura brasileira, Triste Fim de Policarpo Quaresma, no Jornal do Commercio.

j) Terá sido, no Brasil, um dos primeiros escritores brasileiros a escrever mais com idéias do que com palavras; no seu caso, desde sempre, jornalista e escritor se confundiam num todo de cumplicidade e garra - comunicativo, direto, "vergastava os costumes numa linguagem despojada e inconformista".

Lima Barreto lavrou: "O que estraga o Brasil não é a cachaça, não. É a burrice, meu caro."

As manifestações de sua rebeldia intelectual, permanente, atestam um escritor que sabia o que estava fazendo. E, aí, é desconcertante o seu papel em sua época, beletrística, palavrosa. E acrítica.

Seu "desmazelo" é, mais que tudo, um ataque aos puristas. Resolveu não seguir a moda, colocou em ridículo o diletantismo literário, revoltou-se contra os formalismos, mandou ao diabo todo tipo de retórica balofa e, enquanto os seus contemporâneos, senhores literatos, falavam do Olimpo e de plagas gregas que nem conheciam, ele inaugurou no papel o subúrbio carioca.

Recomendava aos iniciantes na difícil arte de escrever: "Menino, aterra esse mar e mata essas gaivotas. O resto demonstra alguma coisa apreciável. Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central, de segunda classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas

Esse homem discernido e assumido, determinado, orgulhoso de sua condição de negro e pobre ("Nasci sem dinheiro, mulato e livre. A minha esperança está no milhar 47.875. Se ele não der, não sei como salvar esta bodega."), tinha a virtude da modéstia e, sendo um anarquista convicto, várias vezes condenou a violência. Como num dos grandes diálogos de Vida e Morte de M. J. de Sá:

- "Não, a maior força do mundo é a doçura. Deixemo-nos de barulhos..."

Não apenas um escritor. Há de ser difícil e injusto se construir uma história do pensamento no Brasil sem se demorar em Afonso Henriques de Lima Barreto.

Quem hoje conhece literatura brasileira sabe que não se pode falar nela sem ler a obra de Lima e que ele foi o romancista por excelência da Primeira República, provavelmente o maior no gênero, embora não tenha podido entrar na Academia Brasileira de Letras. E Lima se candidatou duas vezes.

No entanto, Agripino Griecco, jovial sempre e diabólico, implacável com os medíocres e fingidos, disparou-lhes simplesmente um "o maior e mais brasileiro dos nossos romancistas". E, apesar do esquecimento em que foi mantida a sua produção, descobriu-se que Clara dos Anjos é talvez o nosso primeiro romance escrito sobre o povo e para o povo ler, e que Gonzaga de Sá deveria fazer parte de qualquer guia decente da cidade do Rio de Janeiro.

Pode e não ser uma questão de ponto de vista. Os modernistas, sobremodo a partir da crítica de Sérgio Milliet, acabaram compreendendo que o homem era um pioneiro de peso e piso, ousado e renovador, rompendo com todos os padrões dos senhores da literatura da época e reformando o conceito do romance moderno.

"Lima Barreto, que nascera com o Realismo/Naturalismo brasileiro, vive também o Simbolismo, morrendo nove meses depois da realização da Semana de Arte Moderna. Não foi realista, nem naturalista, menos ainda simbolista. Foi, sim, um precursor do Modernismo, fazendo uma autêntica literatura brasileira, isto é, voltada para os problemas existenciais do indivíduo em face da sociedade."

Hoje, o Major Policarpo Quaresma é apontado como o nosso Dom Quixote e, bem ou mal, já freqüentou o nosso teatro e foi traduzido em Londres, enquanto páginas como O Homem que Sabia Javanês ou A Nova Califórnia podem pertencer ao acervo da literatura universal.

Remando contra a maré vigente, a vida pessoal de Lima Barreto é um vaivém de reviravoltas: "a doença, a miséria, os delírios do pai pouco a pouco se encarregaram de esgotar as forças do escritor". O seu sucesso literário é sempre acompanhado de desgraças na vida.

Em 1918 publica com grande sucesso Os Bruzundangas, perfil do grotesco e trágico panorama brasileiro, onde as mazelas nacionais são expostas descarnadamente. Mas nesse ano é aposentado de seu cargo na Secretaria da Guerra, é considerado "inválido para o serviço público". E, portando epilepsia tóxica, é internado para tratamento de saúde.

Há quem veja em Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá sua melhor obra. Data de 1919, quando Lima Barreto é novamente recolhido ao hospício e de lá só sai no ano seguinte, em feverero de 1920. Uma experiência terrível que ele humanizaria nas páginas de Cemitério dos Vivos.

A Academia Brasileira de Letras o rejeita duas vezes: quando se candidatou para a vaga de Emílio de Menezes e, depois, para a de João do Rio.

Por ironia, no mês de maio de 1981, a própria ABL, nas comemorações do centenário de nascimento de Lima, abriu as portas para uma conferência de Francisco de Assis Barbosa, seu biógrafo. A mesma casa que o rejeitou duas vezes e, na última, até o enxotou por bebedeira...

Tudo isso é bem pouco na medida em que Lima é pouco conhecido fora do pequeno círculo de iniciados, essa ridícula espécie de gueto cultural em que vivemos. Cinema, televisão, universidade, teatro, já se abriram para Lima Barreto, mas a sua presença incômoda, ardida, parece estar sujeita a um ir e vir permanente. A glória e o reconhecimento se abrem para Lima. Logo depois, se fecham. Sua obra é forte e volta.

Explica-se, para alguns. Teve seu nome interditado na grande imprensa por longo tempo, produziu uma literatura do contra em alguns sentidos, e escreveu sobre a ralé, essa eterna indesejada das gentes que mandam. O argumento derradeiro é de uma atualidade desconcertante. E, afinal, continuamos a viver numa dita República em que a simples firmeza de um caráter ético já é vista e sentida como soberba. Lima está vivo, assim.

Volta e meia, relança-se um projeto neste país de planos infinitos, da reedição das obras completas de Lima Barreto. E ele prossegue com muitos livros esgotados e fora das livrarias... essas ocasiões, alguém informa que o projeto encalacrou por falta de verba. Tal qual nas Bruzundangas.

Depois dos 37 anos, seu calvário e porres aumentaram e foi consumido pelo álcool, não conseguindo terminar O Cemitério dos Vivos. Morreu a 1º de novembro de 1922, em Todos os Santos, de gripe torácica e colapso cardíaco. Dois dias depois, morria seu pai e foram ambos sepultados na mesma campa.

Lima Barreto tinha só 41 anos. Estava esquecido pelos contemporâneos e sem dinheiro para o enterro, que foi pago no Cemitério São João Batista, em Botafogo, por um amigo, José Mariano Filho.

E eu aqui imaginado uma maneira de entrar (agora eu sei que vale a pena!) naquele metrô incendiário guardado a sete chaves pela Hedôzinha... Mas sem a Stella Maris por perto, claro! Aquele burrão tá com as horas (haras?) contadas, Lima Barreto. Ora pro nobis!


 

27 novembro, 2004

Na corda bamba
Por Torquato Piauí

É como se fosse uma história. Começa quando? Ontem: o anjo do bem & do mal, caído estirado escutando pragas. Ele me contou: sabe que está caído e sabe de todo o resto, sabe que morre sozinho conforme plantou, planejou e tenta. Sabe porque.

Ontem à noite, morreu de novo nos braços da mesma dona. O mega-evento-filmíco do Roberinho Brega sequer havia começado.

Descia no caminho de casa e um carro espatifou-se na sua frente, um fusca branco, melado de sangue, arrebentado, depois que tiraram o corpo do sujeito que guiava e já estava morto rasgado no meio do ferro retorcido, negra visão. Ficou olhando muito tempo e se arrancou sem pensar em nada.

Mas queria. Que diabo de fúria é essa, meu Deus? Ela quer que eu morra e eu não posso parar com isso novamente. A moça replicou: superoito, dezesseis, trinta e cinco, supervê, miniagádê, filme iraniano, curta, um minuto, aventuras. Não quero saber de nada disso, não cola.

E o cara não disse mais nada. Caiu de costa na banheira começou a sangrar pela cabeça. O sangue escorria. Meteu a cabeça na água fria e deixou escorrer. Mais tarde levantou-se comeu um negócio que encontrou sobrando no apartamento.

– Vai morrer sozinho.

Ele me disse: eu sei disso.

Repetiu: estou cansado de saber que este cansaço é que me mata, estou sabendo, vou vivendo assim por aí tudo e se você quiser, repare, se não quiser esconda o rosto e não olhe mais, feche a porta e tenha coragem de não me deixar entrar nunca mais.

Depois balançou a cabeça e engoliu (engoliu) um copo de cachaça. Bateu no meu ombro e perguntou se eu queria mais, se eu queria saber de mais detalhes. Eu disse que estava escutando. Contou.

– Eu sei que vou morrer sozinho. Morrer sozinho é morrer na pior, bem odiado. Pode jogar praga que não pega mais. É bobagem. Quem quiser que se livre logo, não interessa. Por enquanto ainda estou vivo. Peço, tomo, pego, boto. Por enquanto está tudo legal. Tenho visto.

Foi ontem. E, como se diz, me despedi do bicho e vim pro rumo do centro da cidade. Pensei muito no cara. Depois, na Praça São Sebastião, encontrei uma amiga assistindo “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos. O pianista, tal de Pedrinho Sampaio, era uma mala sem alça. Conversamos um pouco, eu e a amiga.

Aí, lá pelas tantas, ficamos observado os 500 bacanas convidados do Roberinho se acotovelarem em táxis e ônibus fretados e irem continuar a boca livre no Tropical Hotel. Nós dois continuamos ali, vendo os babacas irem encher a cara no bar do Armando.

Depois, muito depois de uns dois ou três finórios, saímos batendo pé pela Getúlio Vargas e acabamos dormindo num hotel da Joaquim Nabuco.

É isso aí. Se depender de mim, o Amazonas Film Festival só vai ter 402.999 espectadores. (Gostaria de saber como foi que eles "chutaram" que 403 mil pessoas vão participar da transa. Foi o Vox Populli que consultou o povo e chegou a essa conclusão?...)

 

Onde ando
Por Fran Pacheco

Eu não morri. Pelo menos, não como blogueiro. Volto hoje ou amanhã, com uma nova infâmia. Por enquanto vou "respirar cinema" na "capital mundial da sétima arte". Cannes? Veneza? L.A.? Gramado? Não: Manáos.

(As aspas são justiça aos clichês utilizados por um jornal local e por press-releases da Agência de Comunicação do Amazonas.)

 

24 novembro, 2004

Segura, peão!
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista


Stella Maris e Hedôzinha ensinando a Cavalgada das Valquírias para Cecezinho no "quarto do pânico" da boate A2. Deve ser por isso que ele ainda não entregou a coluna da semana.

Oi linditos do meu heart!... Eu não agüento mais!... Você diz que foi dançar em um lugar e vem logo uma bibete fazendo a pergunta que não quer calar: "Aaaah... mas lá tem gente bonita?" Fofito, deixa em casa a "Diana Caçadora" que mora em seu corpitcho e vá se divertir na boate! Dançar... Ver os amigos... Dar pinta... Aaaah... Quer ver gente bonita?... Fica em casa folheando a Vogue!... Bom, mas enquanto nada de novo acontece na Wonderful City (calma, tá... O festival do Berinho começa na sexta, nervositas!), euzita fui linda-bronzeada-turbinada-pop-dance-techno-hype-e-eletro no Studio 5 ver o show (e a “Vaidade” of course) do Djavan! Tá... Tá... Aquilo foi só o pré-aquecimento... After-show, Cecezinho resolveu nos levar (eu e a Stella Maris) para um baticum na Vivenda do Portal... Éééé fofitos... O bafão “Manaus Babilônia” rolou na mansão hollywoodiana de um desses poderosos que ainda não foi algemado pela PF... E fiquem sabendo que foi tuuuuuuuuudo de bom!... Louras em saltinho fino jogaram suas bolsas Prada num pufe e foram para a pista tilintar seus Rolex ao som da música comandada pelo DJ Marlboro... Isso mesmo... O bofito veio do Rio só pra animar a festa... Tão pensando que é só o Murilo Rayol que tá podendo?... Ainda não viram nada... Música, animação, people, barbies, fofoletes, playmobils... Everybody na maior harmonia e diversão!... Celebridades, penetras, uma delegada, uma promotora e até uma badalada jornalista cantavam em uníssono e tentavam balançar e fazer trenzinho, como as 'cachorras' e 'preparadas' dos bailes funk cariocas... A jornalista, que já estava indo embora, deu meia volta e voou para a pista quando chegou o DJ... De minissaia preta e blusa de frente única vermelha, era uma das mais empolgadas e chegava a mostrar a calcinha para enriquecer a coreografia... Sem largar a garrafinha de baby Chandon, cantava junto com Marlboro: "Amor, queria que você/ tivesse o cabelo bom para não passar henê"... A fofita bateu bundinha como qualquer funkeira e também gostou muito da musica... Éééé... E a música mais pedida da party foi aquela da Tati Quebra-Barraco que diz “eu vou dar minha xoxota bem devagarinho/ mas o que eu quero mesmo é piroca no cuzinho"... Abafa... De lá, nós três fomos ao Café Tequila... Eu acho uó ficar comentando a colocation dos outros... Entregando, etc... Éééé... O fofito quer se colocar? Quer pagar mico? Deixa ele queimar o movie dele... But... repetir a mesma performance-colocation-mico do last weekend? Aaaaah... Não dá!... Pois teve um fofito que, semana retrasada, estava engatinhando pelo chão (argh) do Café Tequila... Siiiim... Uma coisita cover de Halle Berry em Catwoman... Me disseram que a bibete tava até miando... Não ouvi... Estava muuuuito mais interessada em minha Ishtar-dance ao som de "Just a Little More Love"... Well, pois a mesma bibete-felina não estava engatinhando e ronronando again pelo chão do Café Tequila nesse sábado?... Fofito... Cheirou erva do gato? Miau pra você! Que meeeeedo! E muda de heroína... Que tal rodopiar, tipo Wonder Woman, até cair?... O Cecezinho ficou passado e então nós fomos para o after-hours da A2... Odieeeeiiii!... Uma morena popozuda não pode mais dançar em paz nem numa boate gay! Tudo beeeem... que eu fico happy em saber que o meu porta-fiofó tá em dia but... Vou ter que usar o meu Krav Magá da próxima vez que um engraçadinho vier me passar a mão! Que é isso, fofitos? Em Hedôzinha só passa a mão quem ela deeeeeixa! Não venham de tamanco que o meu barraco é encerado!!!... Só porque eu estava linda-bronzeada-e-beyoncezada fazendo a Ishtar-dance ao som de Naughty Girl?... Aaaaah... E pleeeeease... Detesto aquelas cantadas de quinta, tipo: "E aí?" ou " Qual é a boa?" Creeeedo! Parece que eu tô no Remulo’s!!!... Gostei de um lindito que chegou pra mim e disse: "Nossa... Que sorriso mais lindo que você tem!"... Éééé... Se não pode ser criativo, seja pelo menos fofo!... Cecezinho nos levou para o “panic room” do clube e fizemos um ménage linha sadô-masô... Ele quase morreu nas nossas mãos (minhas e da Stella, obvious), quando a gente experimentou o “segura, peão!”... Foi tuuuuuuuuuuuuuuuuuuudo de bom! Detalhes?... Depois... Depois... Que agora, tenho que passar hipoglós na perseguida... Música do dia: "Kissing You", de Desirée... Pra uma lindita muuuuito especial chamada Ludmila... Êi, dona Maria, quando é que vou ser convidada pra grelhar na laje?... MelissaG, fofita, você não sai mais do Antares?... Apareça, guria... Fui!


 

21 novembro, 2004

Cinemamorto assombra festival do Robério
Por Stella Maris - especial para o Club


Filmadoras portáteis de última geração serão as vedetes do festival de cinema dos Terríveis.

Mal o Secretário de Envernizamento Cultural do Amazonas, Mr. Robberyous Braga, anunciou o seu "I Festival Megalomaníaco de Cinema do Amazonas", e já surgiu um forte concorrente às suas pretensões de realizar "o maior festival de cinema do Brasil". Em aparição coletiva capitaneada por Fran Pacheco, no Centro Cultural Chico Xavier, um grupo de espectros de agitadores culturais anunciou oficialmente o "I Festival Mediúnico de Cinema de Desventuras do Amazonas."

Com curadoria do defunto cineasta Glaubério Rocha, a mostra reunirá toda sorte de produções abortadas ou assassinadas antes ou durante a produção, pelos motivos mais variados: a maioria por ser ruim mesmo. Outras, por serem "ousadas demais para o seu tempo". Várias por terem torrado todo o dinheiro do financiamento público na compra das coberturas duplex de praia de seus cineastas.

Glaubério - sempre falando pelos cotovelos - disse ter priorizado produções "anárquicas! Pós-modernas! Distópicas! Anti-imperialistas! Qualquer coisa que rompa com essa linearidade quadrada do discurso! E sem foco! Sem foco! Que foco é coisa de burguês!" Será uma oportunidade única para se conferir esse material. Gláuberio se empolga com a exclusividade: "com 100% de certeza esses filmes jamais serão vistos em nenhum outro lugar! Nenhum!"

Fran Pacheco explica que a mostra será realizada em pontos alternativos e "descolados", como a capela da Santa Casa, o necrotério do IML e diversos varadouros e encruzilhadas da cidade. O público pagará uma "modesta quantia, para manutenção de nossos sarcófagos" e em troca receberá uma dose de Santo Daime. "Sem esse cocktail de ayahuasca será impossível aos viventes tomarem contato com delírios audiovisuais do além-túmulo."

Ao final da mostra, a obra malograda mais execrada receberá o prêmio "Guilherme Fontes", escultura na forma da cabeça chata do Chatô - o Rei do Brasil. Fontes avisou que só vem ao festival se o Governo "arranjar mais seis milhões de dólares. Só quero mais seis milhões para concluir o meu filme e o piso de mármore da minha cobertura."

Confira abaixo a programação da mostra competitiva e prepare sua mente e seu estômago para essa maratona de cinema-arte:


  • Tabatinga, Mon-Amour - Clássico da Nouvelle Vague Baré, um filme com começo, meio e fim, não nessa ordem. Trilha sonora inesquecível do mímico Marcel Marceau.
  • O Último Tango em Parintins - A famosa "cena da manteiga" levou o governador Jânio Quadros a um ataque de gota e à proibição eterna deste clássico do "cinema de sacanagenzinha soft-core".
  • Je Vous Salue, Maninha - Filme-escândalo de Jean-Luc-Clochard, misturando fundamentalistmo religioso e Kama-Sutra, sob o ponto de vista de uma desinibida cunhã-poranga praticante de Kundalini Yôga. Foi proibido de ser rodado em todos os países do mundo.
  • O Ano Passado em Marabá - Aclamado pela crítica como "o filme mais chato de todos os tempos". Nenhum ser humano jamais conseguiu ver na íntegra suas oito horas de longos e silenciosos planos em preto e branco representando a busca de um protagonista anônimo por algo que se supõe ser o sentido da vida ou a chave de seu apartamento.
  • Rimbaud Programado Para Matar - Veterano-traumatizado da guerra Franco-Prussiana, Arthur Rimbaud dedica-se a exterminar poetas concretistas e vanguardistas, num jorro de sangue simbolista em sonetos e elegias, uma verdadeira temporada do inferno.
  • A Merreca Furada (Vol. I) - Faroeste tosco de Hong-Kong, rodado na mata amazônica, com muita mulher pelada e palavrões dublados porcamente em italiano. Representante máximo do gênero Yakisoba-Western, o filme de cabeceira de mestres como Quentin Tarantino e Hermes & Renato.

Para o público infantil e de trintões saudosistas, será exibido o clássico absoluto da Sessão da Tarde Amazonense:

  • A Fantástica Fábrica de Cambalachos - com Nino Mazonka no papel do ex-governador-prefeito-senador que vive recluso em seu castelo, rodeado pelos prestativos anõezinhos barrigudos, os Lamby-Coos. Em cartaz durante vinte e dois anos, acaba de ser proscrito dos cinemas locais. Foi substituído pela comédia mambembe "É dos Carecas que Elas Gostam Mais".

Faremos a cobertura completa do evento. Divirta-se, mas com moderação. Cinema de arte em excesso, em particular o iraniano, faz mal à saúde.


 

20 novembro, 2004

Mais do mesmo (não é disco do Legião Urbana)
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Depois de muitas tentativas infrutíferas, Hedôzinha considerou a remota hipótese de me “conhecer biblicamente”. Só espero que, por trás (no bom sentido) dessa conversa mole (no mau sentido), a coleguinha não me obrigue a recitar versos do rei judeu Salomão, que acho um parnasiano menor, sem nenhuma técnica de metrificação poética. Em termos religiosos, admito sem sombras de pedantismo ou falsa cultura, ainda prefiro os poetas sufis que não estão no Corão: Omar Khayyam, Ibn Arabi, Attar, Saadi, Rumi e Hafiz. As damas da Ufam, as vendedoras de pastéis de queijo, a Gatona Spice, digo, a Ramona Spener, Aquela Que Diz Te Amo Cecezinho, MelissaG e dona Maria, que sabem das coisas, me dariam razão. Eu acho. Sempre fui otimista.

Mas antes de ser subitamente interrompido em meus devaneios metafísicos (sem trocadilho, degenerados!) pelo burrão da Ishtarzinha (Pai, afasta de mim esse “cale-se!”), eu – ou melhor, o Ricardo Rosas – dizia que em seu filão de precursores, Hakim Bey (ainda lembram dele, fariseus?) citará os piratas bucaneiros, que formaram uma república independente, estudará a utopia de Charles Fourier, com sua junção de arte e sexo na criação de um estado amoroso e chegará até mesmo à estranha república de Fiume, fundada pelo escritor italiano Gabrielle D´Annunzio, formada majoritariamente de anarquistas, segregados e párias sociais, putas, artistas e loucos em geral, uma piração do meio do século vinte, praticamente desconhecida em nossos manuais de história. Aí também poderão ser adicionadas as comunidades livres dos anos sessenta e setenta.

Pode parecer que não, mas a Zona Autônoma Temporária tem dado muito o que falar na internet. São numerosíssimos os sites em lingua inglesa com TAZ livre para download e eles vão de sites de estudos de tecnologia e sociedade, sites artísticos, de ativismo, de anarquistas, de contracultura e anos sessenta, de anti-copyright, neo-situacionistas ou de culture jammers. A influência de Hakim Bey é visível em toda uma nova geração de artistas e poetas, que já sentiam falta de alguém que levantasse a poeira como fizeram os beatniks nos anos cinqüenta e sessenta.

A ZAT reatualiza toda uma tradição de contestação nos Estados Unidos, que vem desde Henry D. Thoreau e sua Desobediência Civil, assim como do libertarianismo de Whitman. A nova geração de artistas, músicos e cineastas na linha anticopyright assim como os “congestionadores de mídia”, os provocativos culture jammers, com suas estratégias de guerrilha sabotando propagandas, interferindo em slogans e produtos massificados, alterando discursos dos meios de comunicação seguem nada menos que esse anseio utópico anti-capitalista. Além disso, a crescente popularidade das raves, o aspecto tecno-xamãnico dos DJs nessas reuniões gigantescas de uma coletividade que transcende barreiras com a dança, igualmente revela esse desejo de liberdade e elevação.

Mas há muito mais deste Marco Pólo do mundo underground. Uma infinidade de textos com sua rubrica e indefectível visão crítica estão espalhados pela rede. Alguns se inclinam mais para o ensaio, outros para a poesia. Coisas como CHAOS : the broadsheets of onthological anarchism (CAOS: os panfletos do anarquismo ontológico), pura poesia subversiva e inconformista.

Com idéias perturbadoras, imagens pouco aceitáveis, o libertarianismo de Hakim Bey é um vento fresco numa época de tanto conservadorismo como a nossa. Seu antídoto é poderoso frente ao marasmo pós-moderno e ao controle mental das maiorias silenciosas. Depois dele, muitos já surgiram. Outros surgirão. Como Grant Morrison, Hakim Bey é um desses caras que conseguiu ligar os dados certos, fazendo as conexões mais inesperadas mas nem por isso menos corretas. Sua intuição e capacidade visionária nos põe anos à frente em relação ao que pode acontecer neste planeta. Não só. Sua re-visão do passado igualmente ilumina em relação a coisas às quais ainda não havíamos atentado.

(Agora parem de pensar no burrão de Miss Hedô e procurem os textos de Hakim Bey para ler, seus degenerados! Eu, particularmente, já decidi: se não rolar nada com a Hedô depois do show do Djavan, logo mais à noite, vou “grelhar na laje” seja lá que diabo isso signifique. Dona Maria, minha nêga (sentiu a intimidade?) coloque os corotes no isopor que estou levando a conserva desfiada pra farofa de farinha seca - a farinha d’água, apesar de mais caroçuda, ainda me dá azia! Se der, levo um pouco de piracuí que afanei de um paraense. É, às vezes eles perdem... Os discos do Reginaldo Rossi já estão na malinha imitando couro de onça. Meu estoque de agulha Shure B-32 é que boiou, mas aí na beira a gente encontra, né não? Me aguarde!)

 

19 novembro, 2004

Estado de Direito o cacete!
Por irmão Paulo

Há um animal que escreve n'O Estado do Amazonas e que, em meio à defesa de certo nome para a pasta da segurança, desmerecendo gratuitamente os outros (de igual quilate) que estavam sendo especulados, argumenta que a Polícia Federal renasceu no governo Lula, com mais espaço para trabalhar, dentro das normas que disciplinam o Estado de Direito.

Em seguida, ainda reprovando os nomes não provincianos que eram especulados, relembra, em suas palavras, "a desastrada invasão da Comissão Geral de Licitação", onde o princípio federativo (sic) teria restado ofendido. E tome-lhe a defender o nome da província.

As duas afirmações acima transpostas - a PF age dentro do Estado de Direito e a invasão desatrada do órgão público com ofensa ao princípio federativo - são conflitantes e incompatíveis. Os Petelhos, meus queridos, não estão nem aí para Estado de Direito - talvez tirando alguns phd's que ainda resistem nas fileiras vermelhas, não sabam nem o que é isso. É bom lembrar, inclusive, que na idolatrada Cuba e na União Soviética, de saudosa memória, não há falar em Estado de Direito.

Dirceu é um homem violento. Lula, mesmo maquiado por Duda Mendonça, guarda a revolta de uma vida de exclusão. Há certo consenso de que se os comunas tivessem levado a parada, e instalado um regime autoritário semelhante ao dos camaradas soviétes, teríamos tido muito mais mortes do que as promovidas pelos jecas verde-oliva.

De minha parte, desprezo o nítido cunho político que Herr Bastos e Herr Dirceu, com o placê do Comandante Lula têm imprimido às ações da PF. De miha parte, desconheço que a PF atue dentro do Estado de Direito (invadindo casas, amedrontando famílias, invadindo órgãos à revelia do ente estatal sobre eles soberano etc.). De fato, desconheço que vivamos, no Brasil, pleno Estado de Direito, quando tantos direitos nos são negados por ilegítimas razões econômicas - até o direito de ir e vir, pra quem não tem dinheiro para pagar uma passagemd e ônibus!

Atrapalhada e cheirando à ilegalidade, a invasão do órgão e a ação da polícia, findou num resultado positivo. Aí o Jeca pergunta: Se foi positivo, qual a crítica? Onde o direcionamento político? E respondo que não é possível grelhar o Cordeiro, sem fisgar o boto ou seu esfumaçar a abelha mestra. Não faz sentido, nem pode ser séria, uma iniciativa que exclui da lista de investigados o supercorrupto Alfredo Nascimento, cuja Corrupmissão de Licitação onde tudo era, e deve continuar a ser com o Galo Velho, 100% combinado. Pergunte-se a qualquer comerciante ou empreiteiro. Quando do Reinado galináceo à frente da Secretaria Municipal das Finanças havia o que se convencionou chamar - Taxa Carijó, sob as barbas e, ao menos, omissão do Arigó Nascimento.

Assim, caríssimos, não dá pra levar a sério essa PF e nem o jornalista, que deve ter levado uma ponta (nem que tenha sido da faca do patrão) para defender uns e outros, mesmo dando em holocausto a já combalida credibilidade. E foda-se!

 

18 novembro, 2004

Direito ao foda-se
Por irmão Paulo

Transcrevo texto do Millôr Fernandes, humorista, teatrólogo e jornalista carioca, que expressa, com algum brilhantismo, o que penso acerca do tema:

"Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e, mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por ílaba...Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo.Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!".

Também seria tremendamente injusto, em que pesem ainda inexplicáveis e preconceituosas resistências à sua palavra-raiz, não registrar aqui outra expressão de grander poder de definição do PV (português vulgar): "Embucetou!". E sua derivação : "Embucetou de vez!". Trata-se outra definição exata, pungente e arrasadora para uma situação que tambem atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, como a anterior, que uma vez proferida, insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto defesa. Algo assim como o comentário de um vizinho para a sua esposa, ao sacar que no auge da violenta briga do casal da residência ao lado, chegam se súbito a amante, o filho espúrio e o cunhado bêbado com o resultado do exame de DNA: "Fecha a porta, que embucetou de vez!".

Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se."

 

Djavaneando
Por Fran Pacheco

Estou seriamente propenso a baixar no Show do Dijavã, neste sábado, desde que Hedozinha e Stellita topem fungar no meu cangote, em revezamento, enquanto me delicio com os meus versos metafísicos favoritos (sintam a profundidade):

Açaí, guardiã
Zum de besouro um ímã
Branca é a tez da manhã.

A todos os fãs e incautos que lotarem o evento, um conselho: fiquem alertas, e vejam se aquele no palco é o próprio "Homem que Fala Djavanês" ou seu fiel escudeiro, Jorge Versículo, camuflado de Whoopi Goldberg. O Dijavã verdadeiro é um bom sujeito. Fez muita coisa boa. Mas também fez esses lapidares versos românticos:

Tudo que Deus criou pensando em você
Fez a Via-Láctea, fez os dinossauros...

Experimenta cantar isso pra tua pequena, no Museu de História Natural, defronte à ossada de um pterodáctilo. Vai pintar um clima, com certeza, mesmo que seja de filme kung-fu.

Mas, a bem da verdade, o que eu quero mesmo é curtir a mais profunda música do cancioneiro brasileiro. Descobri essa pérola por indicação do blogueiro Ruy Goiaba. O nome da obra é "Obi". Vou usar de todos meus poderes espirituais para induzir o menestrel a cantar esses versos imortais para o público baré:

Obi
Obi, Obá
Que nem zen, czar
Shalon Jerusalém, z'oiseau
Na relva rala
Meu arerê
Tombara
Ali, Alá
Logo além
Nem lá
Logum
Pra cá ninguém faraó...


Pára! Vou parar, antes que meus finados neurônios entrem em curto e os leitores mais empolgados peguem o seu sarongue, fiquem odara e saiam por aí querendo devorar Caetano. Ou não.



 

17 novembro, 2004

Ferveção no Firewall
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista


Tá... Tá... Tá... Vocês reclamaram: "Cadê o burrão da Hedôzinha?" E eu como sou boazinha e atenciosa, resolvi mostrar uma fotita de Fran Pacheco, Cecezinho e Irmão Paulo, clicados pelo Cartie no último weekend... Em vez do burrão, três puros-sangues premiados na última ExpoAgro!... Eles não são debochados e fofitos?... Tá... Tá... Tá... Menininhos e menininhas... Se vocês se comportarem, titia Hedô jura que apresenta eles pra vocês nas férias... Adorei a fotita... É uma coisa "Pra Quem Você Tiraria o Chapéu?" do Raul Gill... Se eles não fossem meus lovely friends aqui do club e se eu não estivesse tão apaixonadédéérrima por Mr. K e Nilsão, juro que tiraria para os três!... O Cecezinho então... Huuum... Ai fofitos, me subiu um calorzito básico!... Mulher de aquário... Caloreeeeenta... Ai, desculpe, Mr. K! Te amo!... Ai, desculpe, Nilsão! I love you too!... Música do dia: "Space Cowboy" do Jamiroquai... E Ishtarzinha tá crazy da pussy dela esperando o Festival Internacional de Cinema de Filmes de Ação (Fest Amazonas) que rola no final do mês!... Meu boss Fran Pacheco disse que vai ser babadito total!... E é of courrrrrrrrse que euzita vou caprichar no modelito black e me jogar nas salas de exibição!... Mas muito meiga, comportada e caruda porque sou uma mulher séria e muito bem casada... Tá, tá, tá... Muito bem transada (não consigo dizer “comida”... Abafa!)... Ah linditos... Já estou treinando para a maratona da sétima arte... Yesterday assisti dois filmitos em DVD... O primeiro, "O Amor Custa Caro", achei beeeem legal... Aliás, eu amei a abertura com cupiditos e apaixonados ao som de "Suspicious Mind ", do Elvis... Luxo, luxo, luxo... E como Catherine Zeta-Jones é bonita, né?... Chique, poderosa, linda, quase eu!... Aaaah, mas meus dois bofes são muuuuuuuuito melhor do que o sem gracito do Michael Douglas... I'm sorry Catherine... Não se pode ter tudo (but eu tenho!... Well... menos o dinheirito dela!... Abafa!)... O segundo filmito foi "Van Helsing", com o top-gato-bofito-tudo Hugh Jackman!... Se gostei?... Huuuuum... Não passa de uma besteirita funny que mais parece um samba da vampira louca!... Mistura Drácula, Lobisomem, Frankstein, Jeckyl e Hyde... Só faltaram a Múmia e Monga, a Mulher Gorila!... O movie joga no liquidificador: James Bond (os armamentos e explosivos), Indiana Jones (o modelito de Van), Tomb Raider (a atitude da mocita), Alien (os casulos dos morceguitos), Conan (A cremacão da garota... Aaaaai... contei o final! Sorry!) e tuuuudo mais pra agradar a galerita teen... O problema da fita é que ela se leva a sério... Daria um trash movie da melhor qualidade... Ai, e a bundita de Hyde aparecendo durante a luta foi tuuuuudo!... Agora, Hugh...Hugh... No comments!!!... Se bem que em X-Men ele aparece mais tempo sem a camisita... Ui, deixa eu ficar quieta que sou uma potranca comprometida... E o weekend, fofitos?... Muita ferveção?... Euzita fiquei em casa ainda me recuperando vocês sabem do que e... e... Tá... Tá... Tá... Não adianta querer mentir pra vocês!... Siiiiiiiiim, euzita caí na night again!... Aaaaah, fazer o quê se os meus sapatitos mágicos estavam louquitos para uma dance básica?... Dessa vez, a estrada de tijolinhos amarelos me levou ao Espaço Firewall, no Japiim, numa party que foi tuuuuudo de bom... Música boa... Mistura de tóin tóin tóin com drag-hits... Um pouquito de eletro... Uma pitada de trance... E o caldeirão da feiticeira ferveeeeu!... Aaaah... Saudades de Mister K, que não estava lá para o nosso 'dirty dancing' básico... Ui, de básica a nosso dance não tem nada... If you can understand me... O DJ Pablo estava num óóóótimo dia, e fez as bibetes rebolarem a lot... Junior Magoo com um sound superfofito... Todo mundo happy!... Muuuuitas bibetes friends: Lilete Top-Model, Suzi Kill, Peta Paulista, Leocádia Souto Mayor, Fanny Ardant Cover... Well, a fina flor da ferveção TS-Enigma-A2... Só não vi por lá as meninas do pastel de carne, ops, pastel de queijo... MelissaG, querida, você não anda mais nas nights?!... Voltei pra casa às seis... Tá, tá, tá... Sete... Tá, ta, tá... Oito... Nove tá bom pra vocês?... Beijitos e fiquem com Deus!... Fui!

 

16 novembro, 2004

Aviso de Inutilidade Pública
Por Fran Pacheco

Os familiares daquele que em vida política se chamou Amazonino Armando Mendes, ex-Governador do Paiz das Amazonas, convidam a todos os amigos, cúmplices, testas-de-ferro, jagunços, xerimbabos e puxa-sacos renitentes para uma sessão fúnebre de cumprimentos pela passagem dos seus 65 annos, a realizar-se no decorrer do dia, na Funerária Almir Neves.

A todos os que comparecerem, a família agardece por este acto de fé e piedade cristã.


 

15 novembro, 2004

Incógnita
Por irmão Paulo

Muitos ajudam a espalhar os boatos sobre seres voadores que povoam os montes verdes de além do deserto e do pântano. Eu não creio em sua existência. E não deve ninguém crer. Dizem também que eles voam com a rapidez do pensamento. Basta querer estar em um lugar e imediatamente se transportam. Isso, como sabemos, é impossível. Nenhum corpo resistiria a uma aceleração e parada tão imediatas. A inércia é implacável.

Lá para os lados da fonte seca, vez por outra, uma dessas criaturas aparece. Mas de um jeito estranho que só alguns conseguem ver. Para mim essas aparições nada mais são que alucinações. O Homem não foi feito para voar e não voa. Devemos cumprir nossos destinos assentados no solo. Eu trouxe Kahlil, único a regressar da expedição aos montes verdes. Kahlil nos revelará a verdade. Kahlil.
Os montes verdes não existem, são uma lenda. Meus companheiros foram tragados por uma misteriosa e poderosa força. Chegando ao fim do pântano, encontramos uma intransponível floresta de espinhos. Meus companheiros de jornada, quebrando as leis, em desespero, choravam e pediam ajuda a Deus. E eu dizia, Deus não existe. E um a um eles foram desaparecendo. Engolidos por uma assustadora luz. Só, voltei à nossa cidade para prevenir meus irmãos.
Nunca devemos quebrar as leis. Nunca devemos ultrapassar os limites da cerca púrpura. A luz que brilha lá fora cega e mata o que somos. Se quisermos permanecer como estamos, devemos ficar aqui. A caverna é o único lugar seguro.

 

Dedos de Borboleta
Por irmão Paulo

Carmem Miranda não foi apenas a primeira (e talvez a única verdadeiramente) artista brasileira a atingir o estrelato mundial inquestionável. De Pequena Notável à Brazilian Bombshell, essa portuguesa de Marco de Canaveses, levou a música popular brasileira – o Samba – aos píncaros da glória, como diz a letra-drama de Vicente Celestino. Mas sua persona artística abaianada, com a qual conquistou o mundo, parece o menos importante aspecto de sua vida artística e, certamente, o menor de seus feitos.

Carmem Miranda não apenas, como se diz, traduziu o samba - música de negros, para uma audiência branca, mas criou o jeito brasileiro moderno de cantar, estabelecendo com sua afinação e irreverência vocais um novo padrão para as cantoras nacionais. Desbravadora, abriu caminhos, influenciou direta ou indiretamente tudo e todas que vieram depois dela. Por igual transformou em ouro comercial e artístico quase tudo que cantou. Músicas como Taí, Tico-Tico no Fubá e Mamãe Eu Quero Mamar fazem parte da memória nacional e da história do carnaval brasileiro, se me permitem a citação bastarda, por não lembrar mais a autoria.

Afora a faceta carnavalesca, tem mais, Na Baixa do Sapateiro, No Tabuleiro da Baiana, O que é que a Baiana Tem?, Cantoras do Rádio, Balancê, Camisa Listrada, Recenseamento, E o Mundo não Se Acabou, Tic-Tac do meu coração, Adeus Batucada, Chegou a Hora da Fogueira, Alô... Alô?, Isto é lá com Santo Antônio, Anoiteceu, Novo Amor, Gente Bamba, e muitas e muitas outras, resistiram ao teste do tempo, foram gravadas e regravadas por gente como Elis Regina, Gal Costa e Chico Buarque, sem, no entanto, superarem a gravação original, porque definitiva. Maria Alcina, Gal, Clara Nunes (na expressão corporal), Rita Lee e, em alguns momentos sublimes, Elis Regina são pura Carmem Miranda – seus trejeitos vocais, risadinhas, brejeirices. Sem ela, nada do que vivemos teria sido possível ou, pelo menos, tão fácil.

Gênio da raça, lançou moda e criou os tamancos plataforma – hoje sucesso mundial. Aurora Miranda, em depoimento emocionado, testemunhou a criação do adereço. Foram ambas ao sapateiro e Carmem pediu que fizesse um par de tamancos com solas inteiras. “Mas Dona Carmem”, teria argumentado o sapateiro, “esse tipo de sola só se faz para quem tem uma perna menor que a outra”. Do alto de seus 1,53m de altura, teria respondido a Pequena Notável, “Cale a boca e faça o qu’estou mandando”. Estava criado o tamanco Plataforma.

Carmem foi um fenômeno original, de puro talento e energia, aproveitado pela política da boa vizinhança, desenvolvida pelos Estados unidos da América, que a levou às telas de cinema. Utilizada pela máquina de propaganda de Getúlio, que seja. Mas Carmem foi mais, brigou contra o baixo-astral brasileiro e contra nossa constante crise de auto-estima. Enfrentou a indiferença popular, ao retornar (dita) americanizada e a consagração popular. Com o encantador sotaque português, a alegria sincera e dedos como borboletas voadoras (segundo a Revista Vogue), Carmem conquistou a América. Essa notável cantora, bailarina e atriz merece de nós mas que a lembrança da moça com bananas na cabeça, mas a reverência de mãe da música popular brasileira moderna.


 

Canção para uma Senhôra de 115 annos
Por Fran Pacheco


Nossa aniversariante do dia,
a Meretríssima República da Botocúndia,
em traje de gala . (Inteiraça, não acham?)


Minha República tem duas tetas
Onde mamam os marajás;
Os urubus que aqui rapinam,
Não rapinam como lá.

Nossa Lei tem mais brechas,
Nosso Erário tem mais plata,
Nossas repartições têm mais cabides,
Nossos cabides, mais aspones.

Em locupletar-me - sozinho, ou em bando -
Mais bufunfa encontro eu lá;
Minha República tem mutretas
Que deleitam os carcarás.

Minha República vende favores,
Que é um toma-lá-dá-cá;
Em locupletar-me - sozinho, ou em bando -
Mais babita encontro eu lá;
Minha República tem duas tetas
Que empanturram os marajás.

Não permita Zeus que eu morra*
Sem que eu ganhe uma sinecura;
Sem que desfrute as regalias
Que não encontro eu por cá;
Sem qu'inda mame nas tetinhas
Onde mamam os marajás.

(*Com a devida licença poética, pois morto já estou.)


 

Que República de Mierda é essa?
Por Fran Pacheco

"Viva Sua Majestade o Imperador!".
Marechal Deodoro da Fonseca, aos 15 de novembro de 1889.


O brasileiro é um feriado, repete-me irmão Nelson Rodrigues. Cabe explicar o porquê de mais esse pretexto para vagabundagem cívica chamado 15 de Novembro.

Convenhamos, uma republiqueta supostamente proclamada por um monarquista convicto jamais poderia ser levada a sério. Jamais poderia dar certo. Digo "supostamente proclamada" porque a verdade cristalina dos fatos é essa: Manoel Deodoro da Fonseca (foto), o Generalíssimo (apelido depois imitado pelo ditador castelhano Francisco Franco) fez de tudo, naquele fatídico 15 de novembro de 1889. Menos proclamar a tal da república.

- Um cadete teria esboçado um "viva a República" na ocasião. Mas foi só. Deodoro repreendeu com rigor o fedelho.

Que diabos queria o Generalíssimo Manoel? Pura e simplesmente escorraçar o Gabinete do Visconde de Ouro Preto, hostil aos milicos. Mas o que o levou, febril e acamado que estava, a ceder aos apelos dos ressentidos fardados e liderar a quartelada? Alguém (e dessa vez não fui eu) soprou ao Generalíssimo que o Ouro Preto seria substítído pelo gaúcho Silveira Martins para chefiar o gabinete. "O Silveira, não!", pensou consigo o Maneco, lembrando da Adelaide. Explico: em tempos passados, Deodoro e Silveira disputavam os encantos da alcova de D. Adelaide, viúva alegre e prestativa, na pujança de seus 34 anos. Silveira acabou por levar a melhor na parada, ganhando a inimizade eterna de nosso "Proclamador".

Quadrinha da época, que corria à boca pequena no Rio de Janeiro:

Papagaio come milho,
Coruja bebe azeite,
Mas a pomba da Adelaide
Come carne, bebe leite...


Pois foi pensando na remota e para sempre perdida pomba da D. Adelaide que Deodoro (muito fulo) subiu no cavalo e seguiu com a tropa para o campo de Sant'Ana. Ouro Preto foi preso, dois tiros foram disparados e só. Deodoro saudou o Imperador e foi-se embora. Nas ruas, niguém entendeu patavinas.

A tal república foi criada naquela noite, quando os conspiradores aproveitaram a deixa, o vácuo de poder, para aposentar de vez o velho Imperador. Logo ele, um homem tão culto (falava sânscrito fluentemente, mesmo sem ter com quem praticar). Cambada de milicos positivistas... Milico positivista foi um dos grandes paradoxos do meu tempo, já que a doutrina de Auguste Comte (a do "Order and Progress") associava a Monarquia ao estágio teológico-militar, uma etapa a ser superada. Coisas do Bananão. Os "milicos positivistas" (rárárá) mandaram o bom velhinho embora, pra morrer na França (por que sempre na França?). Ele & família, incluindo o Conde d'Eu (pra quem, senhores, pra quem?).

O legado disso? Bem, o massacre de Canudos, as Revoltas da Armada, a Revolução Federalista esmagada na base das "cabeças cortadas a facão", a carnificina do Contestado, a ditadura do café-com-leite (regime nem de longe sequer assemelhado a qualquer coisa próxima de uma democracia representativa). Lampião & Padim Ciço. O golpe de 30, que gerou o golpe de 36, com Estado Novo e tudo. A Gloriosa de 64. O município de Presidente Figueiredo. Os fiscais do Sarney. Um cocainômano Collorido. E toda sorte de estelionatos eleitorais sociológico-metalúrgicos.

Fazer o quê? Curtir o feriado, ora pois. Dá pra imaginar um Império Tropical do Bananão, hoje, se o Deodoro não tivesse levantado da cama naquele dia? Não teríamos esse feriado. O feriado seria o aniversário d'El Rey. Um playboy qualquer, Pedrinho de Orleans & Bragança Ltda. Pós-moderno e metrossexual, casado com uma ex-mulata do Sargentelli. Quem sabe, D. Solange Coito. E os Dotô seria tudo Barão. Bom enredo para um samba do monarquista doido.

 

14 novembro, 2004

Obladi de Obladá
Por Cartier, Free-Lancer


"Os FabFour, à época da composição da marchinha Ob La Di Ob La Da - eleita por internautas como a pior música de todos os tempos. Para fazer justiça aos quatro cabeludos de Liverpul por esse pequeno deslize em seu curriculum, solicitamos ao Google que traduzisse automaticamente a letra, que segue abaixo, sem retoques de Photoshop:"



OB LA DI OB LA DA
Obladi de Obladá

Desmond has a barrow in the market place
Molly is the singer in a band
Desmond says to molly-girl I like your face
And molly says this as she takes him by the hand.
Obladi oblada life goes on bra
Lala how the life goes on
Obladi oblada life goes on bra
Lala how the life goes on.


Desmond tem um carrinho de mão no lugar de mercado
Molly é o singer em uma faixa
Desmond diz à molly-menina que eu gosto de sua cara
E diz molly isto como faz exame dele pela mão.
A vida do Obladá de Obladi vai no bra
Lalá como a vida vai sobre
A vida do Obladá de Obladi vai no bra
Lalá como a vida vai sobre.


Desmond takes a trolly to the jewellers store
Buys a twenty carat golden ring
Takes it back to molly waiting at the door
And as he gives it to her she begins to sing.


Desmond faz exame de um trole à loja dos jewellers
Compra uns vinte carat anel dourado
Tomadas ele para trás molly à espera na porta
E porque lhea dá começa a cantar.

In a couple of years they have built
A home sweet home
With a couple of kids running in the yard
Of desmond and molly jones.


Em um par dos anos construíram
Um repouso doce home
Com um par dos miúdos que funcionam na jarda
Do Desmond e Molly do Jones.

Happy ever after in the market place
Molly lets the children lend a hand
Desmond stays at home and does his pretty face
And in the evening she’s a singer with the band.


Feliz sempre em seguida no lugar de mercado
Molly deixa as crianças emprestar uma mão
Desmond permanece no repouso e faz sua cara bonita
E na noite é um singer com a faixa.


And if you want some fun-take obladi oblada.

E se você quiser o algum divertimento-faça exame do Obladá do Obladi.

**

MORAL DA HISTÓRIA: A MÚSICA PODE ATÉ SER UMA MERDA. MAS O TRADUTOR É PIOR.


 

13 novembro, 2004

O profeta anarquista do caos eletrônico
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Eu estava chafurdando na Web em busca do texto Seduction of the Cyber Zombies, do Hakim Bey (o que um cafajeste desencarnado não faz para parar de pensar no burrão da Hedô? Sugestões nos comments...), quando esbarrei nesse texto do Ricardo Rosas, sobre meu grande ídolo pós-Aleister Crowley. Como sei que muita gente ainda não ligou o nome à criatura, transcrevo o texto na íntegra, na esperança de atrair novos guerrilheiros para a nossa jihad cibernética d’além-túmulo.

1ª cena: Imagine um místico enlouquecido gritando numa montanha. Suas palavras são um misto de poesia e aviso, como as iluminações desses bárbaros visionários, Blake ou Nerval, como os antigos druidas, xamãs e profetas a vaticinar o futuro da tribo.

2ª cena: Imagine agora um pirata. Pense nas comunas piratas livres dos mares perdidos, pense nos bucaneiros, nessas congregações misto de utopia e anarquia, pense até mesmo nos hackers modernos, esses nômades piratas de dados a surfar na net, oceano de nossa época, onde a noção de propriedade, principalmente intelectual, é cada vez mais próxima de uma miragem fadada ao desaparecimento.

3ª cena: Visualize um poeta, burilador de palavras a jorrar significados e imagens vertiginosas num turbilhão borbulhante, caótico, recheado de mensagens, mas igualmente lírico, num ritmo fluido que lembre o desregramento dos sentidos de Rimbaud ou o caleidoscópio de imagens de Allen Ginsberg.

4ª cena: Na Biblioteca de Babel, move-se um erudito. Imagine esse sábio que já percorreu os livros místicos do hinduísmo e do sufismo, que conhece os segredos dos neo-platônicos e dos alquimistas, os livros de emblemas da época barroca, infinitudes de poesia, que já leu utopistas e enciclopedistas, e todo um contracânone ou tradição de inconformistas que vai de Sade, passando por Fourier, Nietzsche, Baudelaire, Bakunin, até chegar aos luminares da ainda fértil contracultura americana, sejam eles Timothy Leary ou Robert Anton Wilson, ou ainda os subversivos teóricos do situacionismo, como Guy Debord e Raoul Vaneigem. Para articular tanta informação, esse erudito move-se por seus dados não de uma forma racional, mas como Salvador Dali teria formulado de maneira precisa: por um método crítico-paranóico, juntando dados aparentemente isolados, impensados, numa livre associação que ele chamará de palimpsesto, junção de camadas interrelacionadas.

Todas as cenas agora juntas. O homem é um só. Seu nome: Hakim Bey. O nome é antes uma persona de Peter Lamborn Wilson, um estudioso americano dos sufis, que chegou viver alguns anos no Irã e conviveu com comunidades de devirxes, estudando rituais secretos dos sufis. Tradutor de poesia sufi e teórico rebelde, Wilson publicou, entre outros, uma coleção de estudos sobre os anarquistas do século dezenove, em Escape the nineteenth century, e um livro polêmico sobre costumes secretos da tradição sufi com o título nada inocente de Scandal: Essays in Islamic Heresy, onde aborda desde a seita dos Assassinos de Hassan Ibn Sabah (um dos temas prediletos de William Burroughs), o consumo de haxixe e outros estupefacientes entre os sufis, e o hábito de contemplação pedofílica entre poetas no Islã.

Não se assuste: ousadia e surpresa são uma permanente nesse pensador do impensável. Não bastasse ir bem além das fronteiras que Salman Rudshie sequer atravessou, Lamborn Wilson avançou mais ainda teorizando sobre nossa época, a crescente virtualização do pensamento e das transações econômicas, juntou a isso seu conhecimento cabal do ideário anarquista e dos movimentos subversivos que o precederam, e assim surgiu Hakim Bey.

Esqueça agora a pós-modernidade, esqueça a Nova Era, esqueça o fim da história. Hakim Bey já esteve lá, e, quem sabe, poderá lhe contar como serão os tempos vindouros. A contemplação do sublime tecnológico e a frivolidade paródica da pós-modernidade são absolutamente alheios a este ativista tecno-pagão e iconoclasta. Os anjinhos sorridentes do supermercado new age são quebrados a martelo pelo dionisismo nietszcheano brotando nas raves e por magos seguidores de Aleister Crowley. O conformismo dos pregadores do fim da história e da globalização é desafiado pelas hordas de anarquistas nômades que falam outra linguagem que não a do mercado das grandes corporações.

É da pena de Hakim Bey que surgiu o já clássico TAZ (Temporary Autonomous Zone) ou Zona Autônoma Temporária. A TAZ ou ZAT, em português, é livro de cabeceira (ou de tela, se preferir) de nove entre dez ativistas eletrônicos, e, pode ter certeza, eles não são poucos. Liberado de direitos autorais, como de resto toda a obra de Hakim Bey, a ZAT é como diz o próprio nome, uma zona de liberdade temporal, onde a livre expressão, o livre pensamento, a imaginação, crença e prática são exercido sem a repressão e o controle da autoridade, i.e. o Estado e a Mídia. Dado seu caráter temporário, volátil e passageiro, a ZAT tem a pretensão da realização utópica no aqui e no agora.

Sua grande inspiração são as utopias piratas dos séculos dezessete e dezoito e sua materialização mais fremente são as festas, celebrações coletivas, as raves, o carnaval, os sites de troca de livre informação, todo e qualquer lugar onde se possa exercer a plena liberdade mesmo que por uma curta duração de tempo. Lugar ideal de autonomia temporária, a Internet, por seu caráter invisível, permite, pelo menos por enquanto, essa troca nômade de experiências, esse intercâmbio de desejos livres. Lugar de desaparecimento, onde a presença é nada mais que um dado, a Internet proporcionaria o ponto de fuga necessário para as estratégias de ataque à ordem global ora vigente.

Para isso, Bey falará de uma contranet, uma rede de informações ligada aos membros do mundo oculto do underground e da contracultura, anarquistas, comunistas, hackers, cyberhippies, ecoguerrilheiros, e assim por diante. A ZAT seria o grande ponto de encontro, confluência de todas as tribos de discordantes, de xamãs, de tecno-rebeldes. Como tal, como vislumbre de uma utopia, a ZAT seria apenas o primeiro passo para a Zona Autônoma Permanente, aí sim, realização perene do desejo utópico.

(Depois volto ao assunto, porque estou indo acompanhar a Hedôzinha na Feira do Produtor. Espero que a visão daquelas vacas maravilhosas - sentido amplo - que vão estar na feira ajude na liberação do burrão - sentido restrito - da parceirinha. Rezem por mim.)

 

12 novembro, 2004

Sabedoria do Além (4)
Por Fran Pacheco

"Ser alegre numa terra tão miserável é o mesmo que,
num velório, acender o cigarro no círio do morto."
Irmão Nelson Rodrigues* (1912-1980)
* em negociação com o ECAD para ingressar no Club.

 

Literato cantabile
Por Torquato Piauí

Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. Na mesma base: deixa.

Primeiro passo é tomar conta do espaço. Tem espaço à beça e só você sabe o que pode fazer do seu. Antes, ocupe. Depois se vire.

Não se esqueça que você está cercado, olhe em volta e dê um rolê para evitar os chacais. Cuidado com as imitações.

Imagine Manaus em chamas e fique sabendo que é por isso mesmo. A hora do crime precede a hora da vingança e o espetáculo continua. Cada um na sua, silêncio.

Acredite na realidade e procure as brechas que ela sempre deixa. Leia os jornais, acesse os blogs legais, coloque mau-olhado no burrão da Hedôzinha, caia na gandaia, não tenha medo de nada, fique sabendo: drenagem, dragas e tratores pelo pântano. Acredite. Serafim vai ter um trabalhão pra remover.

A barra pesou? Arranje uma transa e segure, mas não se dependure. Use um ponto de apoio e bote os pés no chão. Da macrobiótica à noite do meu bem, tudo segura, não cala, não caia. Resista. O pior já passou.

Não acredite em nada do que eu digo. Eu ainda preciso me olhar no espelho, igual ao Lampião na caatinga de Serra Talhada, retirando o espinho de quipá que lhe furou o olho. E não sei quem está do meu lado. Pode desconfiar e não embarque nessa. Vá em frente.

Esqueça tudo o que eu não consigo mais deixar de lado. Apareça como a luz do sol e não desapareça mais. O maniqueísmo é o sistema mais sutil, mas é o próprio. Se for por mim não duvide do bem nem do mal e fique sempre na escuta, plantão permanente, negra solidão: Deus nos livre de ter medo agora, logo agora que chegou na frente o fundo da questão: Deus não está de qualquer lado e embora esteja em todos continua nos mandando palavras. Acredite. Será difícil mas não será pior do que tem sido.

Poesia. Acredite na poesia e viva. E viva ela. Morra por ela se você se liga, mas por favor, não traia. O poeta que trai sua poesia é um infeliz completo e morto. Resista, criatura.

Quando eu nasci um anjo louco, morto, curto, torto veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco: era um anjo muito pouco, louco, solto em suas asas de avião. E eis o que o anjo me disse, apertando a minha mão entre um sorriso de dentes: vai, bicho, desafinar o coro dos contentes. Macalé botou música clássica e a transa ficou condenada: Let’s play that?

Passo e me esqueço: como um caminhão que um amigo meu encontrou na Rio-Bahia: Não Me Acompanhe Que Eu Não Sou Novela. Tá sabendo? Esqueça que eu existo. Mas resista.

Psiquiatria, por exemplo, está nessa e está só esperando. Mantenha os olhos bem abertos, transe e ande por aí, brinque em serviço, não brinque, deixe escorrer, mas preste atenção: sem grilos,afaste os grilos, não tenha medo, guarde a sanidade como quem guarda a coroa do mundo, use. E nem disso tenha medo. Transe e não se tranque.

Principalmente, amor, não se descuide. Bater papos com paredes é o fim da picada. Principalmente, amor, não se descuide.

Fale de você. Conte o que você passou. Vamos falar de gente e nem precisa falar de ninguém. Deixe os otários curtirem passadismo, literário ou não, não se descuide, fale de você, conte, se vire. A nossa vida, à parte a gente, explica tudo. Autobiografias - precoce. Poesia, vida e morte, o coração vagabundo querendo guardar o mundo, serestas.

Síntese. Painéis. Afrescos. Reportagens. Sínteses. Poesia. Posições. Planos gerais. “O Close-Up é uma questão de amor”. Amor.

Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. Na mesma base: deixa. Primeiro passo é tomar conta do espaço. Faça do seu o que você puder, depois se vire. Tome. E não exija muito do Sarafa. Espere.

Eu, pessoalmente, acredito em vampiros. O beijo frio, os dentes quentes, um gosto de mel. Só ainda não entendi porque havia 72 virgens aqui na Hope’s Road esperando um velhote baixinho de barba por fazer e turbante na cabeça. E nenhum comprimido de viagra por perto. Deve ter alguma coisa a ver com o revivalismo do tropicalismo. Vou perguntar do Batatinha e depois reporto. Ou não.



 

11 novembro, 2004

"Ele não é inocente. Ele é ingênuo."
Domingos Chalub, advogado,
a respeito de seu cliente: Deputado Cordeiro.
(Lembram dele?)

 

Das conseqüências geopolíticoeconômicas da morte do Ará
Por Fran Pacheco

Se Azazel Sharon & Bush Filho vão se empanturrar de pretzels gigantes para comemorar secretamente; se haverá comoção e histeria nas mesas da boate Gaza Strip, com casos de combustão e explosão espontânea de barbudinhos; se as pompas fúnebres contarão com uma salva de homens-bomba; se a viúva do Ará será a nova Yoko Ono; se o turbante que ele implantou na cabeça vai ser leiloado na Sotheby's junto com o boné do Milton Nascimento, nada disso me diz respeito. O que me concerne é que eu perdi a aposta. Eu tinha certeza que a Viúva do Che bafuntaria antes. Certo que nem sinal do Ará aqui por cima, mas aposta é aposta. Perdi porque acreditava cegamente na moderna medicina francófona, em contraste com a degenerescente medicina cubana (dizem que o Médico da Família veio de Sierra Maestra). Acreditei, pobre de mim, que o Ará-Vegetal duraria longos anos, plugado em sofisticados simuladores de vida. E acreditei que a fratura furreca do Fidel degringolaria numa falência múltipla de seus órgãos estatais, como é praxe em fósseis-vivos que caem por aí.

Só me resta pagar o mico e refazer as apostas. O próximo? Niemeyer, mano, não vais falhar comigo!

 

Historietas de Manáos (1)
Por Fran Pacheco

"Ponte Metállica da Cachoeira Pequena "

Não, não se trata de nenhuma emulação da coluneta bissemanal que o Berinho publica no jornal dos Kane. Até porque Mr. Robberyous fala de coisas do arco-da-velha baseado em relatos, livros mofentos e chute. Eu não. Eu estava lá.

Estava, quando o governador mulato-maluco-beleza Eduardo Ribeiro (O Pensador) detinha-se melancólico, com o cavalo parado à beira do Igarapé da Cachoeirinha. Para sair do Palácio do Governo, ali na Praça D. Pedro I (hoje em decomposição financiada pelo Monumenta) e chegar nos arrabaldes da Cachoeirinha, só pegando uma catraia. A cavalo, nem pensar. Isso pelos idos de mil oitocentos e noventa e pouco.

Ganhei muito dinheiro naquela época. Libras (do tipo esterlinas) de uns trouxas ingleses na mesa de bilhar do Hotel Cassina. A coisa mais fácil do mundo é ganhar de bêbado no bilhar. E meu organismo era imune a várias doses de Joãozinho Caminhante e absinto. Meus negócios eram sortidos e, em geral, controversos. Eu era, além de anarquista, uma espécie de lobista desses súditos da Rainha Vitória (e a véia não morria). Sabia que o governador queria ordem e progresso, e a bufunfa era tão farta que acendia até charutos (eu vi). Com a palavra, Ribeiro: "Posso afirmar que os recursos de nosso Estado são inexgottaveis!"

"Então, Excelência", eu dizia, "somos os caras certos para resolver o seu problema e o da cidade. Quer ligar o Centro ao cafundó chamado Cachoeirinha? Façamos a ponte, pois!" Nesses momentos, ele entrava em surto e imaginava não pontes, mas túneis sobre os igarapés. Queria túneis com marias-fumaças passando por baixo de tudo, tal e qual o metropolitano de Londres. Eduardo Ribeiro hoje é nome de avenida e hospício.

Entre um surto e outro eu o convenci a fazer a ponte metálica que hoje está lá. Sugeri chamá-la de Ponte Mikhail Bakunin. Entenderam Bacuri. Batizaram de Benjamin Constant, um porco positivista que era ídolo dos milicos da época (Eduardo incluso). Bem, deu pra ganhar um bom dinheirinho, sim. Hoje passa um esgoto embaixo. Mas qual não foi a alegria dos cidadãos manauaras no dia da inauguração!

E qual não foi a alegria de Eduardo Ribeiro, naquela mesma noite, passado o festejo, quando enfim pôde atravessar a ponte a cavalo, para encontrar-se com sua fogosa amante, que morava do outro lado.

(Em breve: como criei a cúpula do Teatro Amazonas.)


 

09 novembro, 2004

Vossa Excrescência, o Dotô
Por Fran Pacheco

Agora, me informa São Stanislaw, tem prédio na Cidade Maravilhosa em que os funcionários e condôminos estão obrigados, por decisão judicial, a tratar um certo morador, que é juiz, não mais de "Seu Fulano", mas de "Doutor" ou de "Excelência". Isso é fato.

Eu, se vivo fosse, só acataria uma norma dessas com uma condição: que o referido juiz usasse toga (de preferência vermelha) e peruca cacheada e platinada o dia todo, inclusive na sauna e na churrasqueira do prédio. Aí, sim, a gente poderia conversar, uma cervejinha na mão: "Ô, Excelência, e o Fla-Flu, hein?" Não acredito em juiz sem peruca, à paisana (pero que los hay, los hay). Se quer ser tratado como Juiz, o sujeito que se dê ao respeito e ponha-se nos trajes devidos. Mas rapaz...

(Uma objeção de peso seria o calor dos trópicos, a inviabilzar o uso diuturno da toga. Mas para isso poderia ser criada a mini-toga, a 'toguita', terminando dois palmos acima do joelho. Aí o sujeito escolhe: ou depila as pernocas, a bem da estética pública, ou usa meias vermelhas até os joelhos, no melhor estilo highlander-bunda-mole. Um luxo só.)

 

Traveca é a vovozinha!
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista

Fofitos, eu really amo vocês, but eu não agüento mais explicar que eu sou mulherrrrrrr e não uma trava... Ok, ok, ok... Muitas vezes uso o dialeto 'traval' porque acho fofito... Eu adooooro todas as travas e drags, e acho que elas fecham horrores por todos os places que andam, but não confundam as coisas, tá?... Sou mulherrrrr mesmo (esta fotita dos meus tempos de moça prendada é auto-explicativa)... Me confundir com traveca?... Geeeeente... fala sério.com.br!!!... Aproveito pra mandar um beijito pra minhas drag friends: Meysse Mafra, Gina Dee, Suzi Kill, Agatha Power, Desirée Mystical, Fátima Fastfood, Lady Meteora e Tarah Wells (que eu nem conheço, mas com o nomezito da minha heroína de "Paraíso Maldito"... ela deve ser um arraso!). Beijitos!!!... Lucy Furacão?!... Nunca ouvi falar... Ai, ai, achei óóóótima a idéia de reprisarem os musicais hollywoodianos no Festival “Pirataria no Front”, que rolou no centro cultural Atitude Consciente, lá no Tancredo Neves... Aliás, a melhor coisita, porque huuuuum... achei meia boquita os filmes programados para a abertura do festival, na sexta!... Tudo bem que nos dois primeiros dias os DVDs piratas tinham que ser de filmes de ação, para ver se não perdiam as cores no modo still... I'm sorry but eu não vou ficar horas assistindo um road movie com Vicent Gallo posando de deprêchato para no final ganhar um boquete explícito daquela lourita (não lembro o nome, Chloe qualquer coisita) meio desenxavida (é com x, fofitos?)... Ah, me poupem desse tal de Bunny Brown... Querem polêmica?... Querem atitude consciente?... Querem?... Então façam uma sessão de Cinderela Baiana à la Rocky Horror Show... Em vez do "Time Warp" vai todo mundo dançar "agarra o tcham, segura o tcham, tcham, tcham, tcham, tcham"... E estamos conversados!... Prefiro ficar com Hair, Tommy, Noviça Rebelde, Moulin Rouge, Chicago e All That Jazz... Aliás, sobre esse último... Fui linda, leve e faceira na sessão de domingo às duas e meia e tive que aturar quarenta minutos de atraso!!!... Why?... A cortina que cobria a tela emperrou e foi um Deus nos acuda!... Vaias, aplausos, piadinhas e toda equipe de produção subindo ao palco pra puxar o tal pano... E puxa de lá e puxa de cá... E o pior: quarenta minutos ouvindo o CD dos Detonautas!!!... Ninguém merece... Eu quase subi no palco pra divertir um pouco a galerita... Sei lá... Cantava "On Brodway" e fazia uns passos de jazz que eu aprendi nas aulinhas da Lia Sampaio... My dear Cecezinho não deixou e ainda deu mó carão... Ai, mulher de aquário detesta ser reprimida!... Pois é, esse fim de semana, vocês já perceberam, não caí nas baladas... Ainda não estou podendo, se é que me entendem... Ui!!!.... Abafa o caso... Thanks God o meu teacher de origami deu um trabalhito bem difícil hoje e eu pude queimar uma birita básica... ééé fofitos... Vocês acham que dobrar aqueles papeizinhos não queima calorias?... Saio linda, leve e definiiiiiiiida... A praia da Lua tá bombando e uma morena-linda-e-up-to-date tem que estar sempre pronta pra entrar num biquini 'P'... Se bem que eu tô com uma bundita like porta-fiofó da Beyoncé... Luuuuuxo!!! Aproveitei a maré de estar alone para ouvir a trilha sonora do filme "Not Another Teen Movie" que passou por aqui com o título de "Não É Mais Um Besteirol Americano". A fita é meio débil, mas tem algumas piadas legais pra quem curtia, como euzita, os filmes teen dos anos 80 (Clube dos Cinco, Gatinhas e Gatões, Pretty in Pink)... Agora, a trilha é bacanita toda vida... Tem regravacões de hits dos 80 por grupos de rock atuais. Marilyn Manson arrasa em "Strange Love", Orgy brinca com "Blue Monday" e tem um tal de Good Charlote com uma versão de "Bizarre Love Triangle". Aliás eu aaaaaamo essa song e os fofitos do New Order! Música do dia: "Bizarre Love Triangle" com New Order, Frenté ou Good Charlote. Não importa a versão... Essa é a song da minha life!... Fui!

 

A praia da Tropicália
Por Wally Sailormoon

Alguém aí já ouviu falar no Guilherme Araújo? Ou na Regina Boni? Não?... Pois saibam que Guilherme Araújo foi aquele empresário antenado, brasileiro, que, em vez de ficar como pajem da pessoa que ele trabalhava junto (e o pajem faz o quê? Tudo o que a pessoa ao lado está produzindo o pajem igual a uma vaca de presépio balança a cabeça e aprova, vide Marlene Mattos), introduzia instigações esquisitas, provocações anti-provincianas. Guilherme Araújo foi uma espécie de Brian Epstein nacional.

E em São Paulo, de repente, tinha uma mulher interessante louca crazy, fazendo roupa, que era Regina Boni que abriu a loja “Ao Dromedário Elegante”, na Rua Bela Cintra, e ela bolou aquelas roupas de plástico para os Mutantes, pra Caetano, a roupa de fada pra Gal.

Quer dizer, é a existência num período na sensibilidade de um momento de uma época desses fatores todos que vão se juntando aqui, uma parte ali, outro pedaço acolá, que faz acontecer e explodir um movimento, e não é sempre que acontece, a natureza não é pródiga nisso, é na verdade raro, e por isso que esses movimentos sobressaem como picos, como cordilheiras dentro da planície, que são as etapas normais comuns do decorrer, e ás vezes as pessoas querem artificialmente provocar um REVIVAL, aplicar uma injeção no defunto, o gosto retrô vem disso, você quer fazer a volta dos anos 50, por exemplo, a volta do bambolê, por exemplo, a volta da efervescência tropicalista, por exemplo, mas as coisas não se dão assim, elas resultam de uma conjunção de um bocado de delicados intensos grosseiros e finos e grossos e boçais e sofisticados fatores, que não é sempre que a natureza da história proporciona, se é que a história tem natureza.

Não só as letras e música do período mais o desempenho, o jeito de intervir na televisão naquele programa Divino e Maravilhoso da TV Tupi, era parecidíssimo com a guerrilha urbana o clima da criatividade da hora, aquela urgência agônica de guerrilheiro neste sentido de que não existia um exército convencional de produtores como os outros programas regularmente têm, e então era o seguinte, quase na hora H, o Caetano subia no palco da TV Tupi, São Paulo e poucas horas antes do programa ser gravado, Caetano orientava a cenografia, botava os cara dali pra executar, e falava assim “faça aí uma jaula que ocupe o palco inteiro” e os operários começavam a executar aquele cenário que Caetano tinha bolado praticamente ali ou na véspera, de noite, em sua cama ou em qualquer outro lugar.

Dada Tropical, Cabaret Voltaire na terra da garoa.

O Tropicalismo se aparentava com o espírito brutalista, quer dizer, o brutalismo, as cores intensíssimas, as cores elementares usadas e abusadas e quando começava o programa Caetano, Gal, Tom Zé e Mutantes (Lovely Rita) e convidados, Paulinho da Viola, por exemplo, e outros, estavam todos dentro desta jaula o programa inteiro e no final Caetano cantava “O leão está solto nas ruas” e quebrava a jaula inteira, explodia as grades com a mesma voltagem de intencionalidade que o ex-aluno de Filosofia da Filosofia Caetano Veloso nunca se descartou.

No outro programa acontecia um banquete, numa absorção antropofágica de Art Povera do Chacrinha. Vocês querem bacalhau?

Instantaneidade pós-Rolleyflex e pré-Polaroid.

Era divino maravilhoso porque nunca foi um prato congelado por ilha de edição. Foi um prato quente daqueles de queimar os beiços.


 

08 novembro, 2004

Biografia parcial de Marta Suplicy
Por irmão Paulo

Maria Marta nasceu em 1909, em Buenos Aires, Argentina.

Já no fim de 1909, o seu pai mudou-se para o Brasil, à procura de uma vida nova. Assim que se instalou, mandou buscar a família. A Evinha, como era chamada Maria Marta, cresceu no meio do samba Paulistano, até seu pai melhorar de vida, trocando a família de ambiente e pondo Evinha para estudar no colégio do Sagrado Coração.

Aos 30 anos, começou a trabalhar como conselheira sentimental. Primeiro no jornalzinho da escola, depois dando consultas na sala de estar de sua mãe. Daí pro sexo, foi um pulo. Com 36 anos, já tentando largar aquela vida desregrada, tentou trabalhar como vendedora de gravatas, mas ficava sexualmente excitada durante todo o expediente, pois para ela as gravatas eram símbolos fálicos muito evidentes. Entretanto, foi nesse emprego que conheceu Dudu, seu primeiro namorado, então com pouco mais de 15 primaveras. Dudu, que havia sido campeão de Remo, enfeitiçou a bela senhora e ela, com sua experiência e ar maternal, conquistou a ele. Nesta época, mudou o seu nome para Marta Suplicy (sobre nome do garoto Dudu). “A ... Marta... é... é... a ... minha i... é... minha iniciadora. Eu... a... aprendi tudo... tudo... com ela... “, declarou, depois de muitos anos, o já Senador Dudu.

Convidada para um programa de rádio de aconselhamento sentimental, foi descoberta por Ney Gonçalves Dias, que a convidou para gravar um teste na Globo, que se tornou sua primeira experiência televisiva, um quadro de sucesso que abordava questões leves do tipo como obter um orgasmo clitoridiano mais forte, fazer ou não sexo anal, a importância da lubrificação vaginal durante o ato sexual, a necessidade de ter orgasmo etc. O sucesso transformou-se num contrato com a HUSTLER, fazendo-a ganhar mais fama e tornando-se a lourinha assanhada.

Passou um ano e meio até ao seu regresso ao Brasil – período no qual, para desespero de Dudu, viveu com este um casamento aberto. Um grande estrondo na sua chegada – trazia um filho nos braços que alegava ser de Dudu. O menino era loirinho, como a mãe e maquiado, como a mãe. Chamou-se Supla, em homenagem ao ansiolítico que o pai usava à época.

Depois de muitas indas e vindas, e mais de ano a fazer e refazer plásticas e liftings mal-sucedidos, Marta Suplicy arrisca a carreira política, montada nos cornos do marido e se elege Deputada Federal. Tem uma atuação inexistente e logo percebe que não pode deixar-se descobrir incapaz. Pula da Câmara Federal direto para eleições perdidas, findando por ser eleita prefeita de São Paulo. Começa o auge da política da boa vizinhança. Ela torna-se a musa do PT, promovendo a bandeira vermelha e todos os lugares.

Marta Suplicy sempre sonhou em fazer outros papéis, maiores e mais criativos, mas estava presa pela imagem de sexóloga e ninfomaníaca. E com o fim da campanha presidencial, a política de boa vizinhança perdeu força. Não havia mais pressão sobre filmes para a América Latina. Marta tinha a sua grande oportunidade, mas precisava de ser rápida para não perder o seu prestígio. Imediatamente viaja ao exterior para remodelar o queixo, os olhos, diminuir as orelhas e desentortar os lábios. Em seguida, dá o cartão vermelho ao Sen. Dudu, e vem a lume a figura sinistra de um Franco-argentino cenominado Lê Fevre, mas não o cardeal. Sob as orientações de Duda Mendonça, comprou uma casa nos jardins, para a qual levou sua coleção de objetos sadomazoquistas, casou-se formalmente com Lê Fevre sob as bênçãos chorosas de Sen. Dudu e com o apadrinhamento do Presidente da República. Todos os que trabalhavam e conviviam com ela a amavam, achavam-na uma ótima pessoa – apesar de estranharem aquela boca enorme. O casamento reuniu a nata da sociedade decadente paulista, mas nenhum membro de sua família, que eram contra o casamento, pois percebiam o puro interesse da parte dele. Lê Fevre era duro, ríspido quando eles estava a sós irritava-se muito facilmente e expressava sua irritação muitas vezes fisicamente com ela. Um dos olhos de Marta chegou a ficar definitivamente menor que o outro e a sobrancelha arqueada eternamente.

Então ela começou a ficar doente e deprimida, mas disfarçava com óculos gucci, roupas de grife e almoços e jantares no Antiquariu’s, um dos cinco restaurantes mais caros de São Paulo. O casamento já havia acabado, mas ela era impedida de separar-se por pressões da sociedade e porque, afinal de contas, quem iria come-la.

Nessa época fazia duas aparições diárias públicas, para mostrar que ainda estava viva. Elas eram cansativas, exigiam que Marta usasse Helicóptero (para cumprir o protocolo) e gastasse horas para ajustar sua pálpebra postiça. Porém, como tivesse muito medo do transporte, ela ficava agitada e, para conseguir dormir, tomava calmantes. No começo 2, e no final, 10. Quando acordava, estava zonza e para despertar, tomava estimulantes.

Atormentada pelos problemas domésticos e pelos remédios, Marta teve um colapso nervoso. Depois de 03 anos longe, ela voltava à Prefeitura e decidia ser candidata à reeleição. Ainda dentro do helicóptero, arrumou-se para parecer bem ao público. Por ordem judicial, ocupou sua sala mais não assinou nenhum papel, durante várias semanas. Sofria de depressão aguda. Tinha crises de ansiedade ao olhar pela janela do escritório e ver a propaganda eleitoral de José Serra e ver o mundo à sua volta tucanar. Estava desorientada pelos tratamentos de choque, abalada e com a memória prejudicada, tanto que decidiu aliançar com Paulo Maluf no segundo turno. Mas nada foi suficiente para dar-lhe a reeleição. Martaxa perdeu do Vampiro Serra. E perdeu feio.

Então, do fundo de sua dor, cercada pelos amigos e pela família, ela começa a dar sinais de vida e melhora. Ganha uma embaixada de presente do presidente Lula e parte para a Europa, em companhia de Lê Fevre e suas amantes. Aos 90 anos, assume a embaixada do Brasil na França de onde só há de retornar morta. Ou demitida.