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30 maio, 2005

Filme de 1 minuto
Por Fran Pacheco

John Lennon entra numa padaria e pede “um sonho”. O padeiro avisa: “o sonho acabou”.

(Seguem 55 segundos de créditos.)


 

29 maio, 2005

Uma peróla do jornalismo baré
Por Fran Pacheco

Eu ia ficar quieto por um bom tempo, alimentando-me apenas de luz e liberdade, mas tomei um susto com esta manchete publicada no jornal A Crítica de hoje:

“Serafim não abre mão de perder R$ 30 milhões”

Mas quê, já?, pensei ajustando o monóculo para ler melhor. Que bolada é essa que nosso lusitano prefeito faz questão de perder? Uma milionária aposta cavalheiresca? De que 30 milhões de merrecas ele desistiu?! Fui obrigado, com muito sacrifício, a sujar as mãos e ler a matéria.

Para meu espanto, Serafim na verdade não quer perder dinheirama alguma. Trata-se de uma pendenga judicial sobre o repasse de verbas que ameaça tirar os tais R$ 30 milhões do município. E o prefeito avisa que recorrerá para não perdê-los.

Eu estava diante de uma proeza jornalística: uma manchete que anuncia exatamente o oposto do que diz a matéria. Se alguém conhece, dentre os 30 milhões de blogues existentes, um dedicado a colecionar patacoadas desse quilate, avise-me. Ou abrirei uma secção dedicada a isso, "antes que um aventureiro o faça".

 

25 maio, 2005

Ninguém está a salvo
Por Fran Pacheco

Para receber de antemão o conteúdo das provas da renomada e temida (pelo rigor das provas) CESPE/UNB, bastava pagar R$ 20.000,00. Agora, se você não quisesse ter o trabalho de decorar gabarito, bastava pagar R$ 80.000,00 e seu nome entrava direto na lista dos aprovados. A CESPE/UNB era reconhecida como um dos últimos bastiões de moralidade para realização de concursos públicos. Os candidatos sabiam que estavam ferrados, que as provas eram elaboradas por catedráticos onanistas, mas havia um consolo: "pelo menos só vai passar que merece. É um concurso da (favor encher a boca) CESPE!"

O último concurso da Procuradoria Geral do Estado foi realizado pela CESPE. Os donos de livraria notaram uma elevada procura por um obscuro livro de Direito Ecológico, em vez dos títulos consagrados sobre o assunto. Pois não é que as questões de Direito Ecológico saíram daquele estranho livrinho? Que candidatos clarividentes, sô!

Desse jeito, só chamando a CIA para garantir o sigilo das provas. Mesmo assim, sei não...

 

24 maio, 2005

O novo Kane baré?
Por Fran Pacheco

"Rosebud", dirão todos os Kanes, estertorando, quando seus Diários Associados virarem pó, quando suas rotativas forem vendidas em hasta pública. Mas se Kane estava sozinho no leito de morte, como ficaram sabendo que ele disse "Rosebud"? O maior filme de todos os tempos, afinal, começa com um furo no roteiro? E tudo para descobrirmos que diabos é "Rosebud"? Explicação necessária: Kane é Hearst (pelo que Hearst ficou eternamente puto com Orson Welles). E "Rosebud" era como Hearst chamava, na intimidade, o sexo de sua amante. Mas... como diabos Welles ficou sabendo disso?

"Independente", "Imparcial", são letras garrafais em outdoors que anunciam para breve, com uma logomarca chinfrim, o novo "Correio Amazonense". Vai começar para valer a guerra pela desinformação dos leitores amazonenses. A verdade está com os dias contados.

Seu dono de fato, que todos os dias visita a redação em obras e dá tapinhas nas costas dos jornalistas que antes o pichavam de corrupto ("vamos ver se agora a gente pára de brigar, hein?") é ninguém menos que, rufem os tambores: o ex-governador Amazonino "Capiroto" Mendes. (O Garotinho daqui, só que muito mais rodado).

Capiroto Mendes investiu pesado no seu jornal "independente", "imparcial", mas sua iniciativa é natimorta. Não se faz jornal da noite para o dia. E o dia em questão é o da próxima eleição para o Governo. Até lá, o tal "Correio" não vai estar nem a meio caminho de ganhar a confiança da pequenina massa de leitores de Manaus (a tiragem de todos os jornais locais juntos não passa de 80 mil exemplares diários. E o mais vendido durante a semana, pasmem, é o "Diário" e não "A Crítica").

O jornal "imparcial", "independente" (essas aspas são obrigatórias) de Amazonino servirá apenas como diversão, como franco-atirador, como porta-voz do Negão, e espero que pague muito bem os profissionais da pena. É hora de os jornais elevarem o piso da categoria, antes que nossos pequenos Kanes barés (Amazonino, Batará, Don Garcia e Dona Calderaro) digam juntos em concordata: "Rosebuud".

 

Frangos loucos
Por irmão Paulo

Image hosted by Photobucket.comHá quem ache que nunca houve tanta gente iletrada no mundo. É um erro. Há mais gente letrada hoje do que em qualquer época da humanidade. Ocorre que, numa inversão abominável da norma de seleção natural, as turbas iletradas, ao invés de serem escravizadas, têm acesso ao mercado e, em muitos casos, definem o jogo e o nivelam para baixo. Como já disse alhures.

Em 1990, era preciso uma audiência de 30 milhões de espectadores para fazer uma novela americana ser rentável. E não acredito que haja 30 milhões de pessoas cientes do mundo, ergo, a maior parte de tudo que é feito é feito para a criatura mediana, para os iletrados pagantes.

Com a explosão dos novos meios de comunicação e divulgação virtual de pensamentos (que na maioria das vezes não ascendem à condição de idéias) os iletrados adquiriram um espaço para exposição das próprias deformações, produzindo eles mesmos o lixo de que precisam, alimentando-se uns do regurgitar dos outros. Vibrando ao lerem aquilo que já conhecem (que é uma reação de empatia clássica) e execrando o desconhecido, no estilo franga-louca.

E não adianta Fran Pacheco me pedir calma, pois o meu espaço, neste espaço, defenderei com unhas e dentes contra essa grotesca escumalha iletrada, deselegante e irresponsável que, por mim, pode ficar onde sempre esteve.

Ps. 1. Não há céu mais lindo ou mar mais cálido que o do Ceará.

2. Gostei da idéia do pôste abaixo. Seguindo a moda do tempo real, poderia ser instalada uma câmera que transmitisse, minuto a minuto, o processo de saponificação de Roberto Jefferson.

 

23 maio, 2005

Abolição, já!
Por Fran Pacheco

‘Stamos em pleno mar de lama.
Castro Alves atualizado

Uma das práticas mais nefastas, retrógradas e deletérias deste país é o PTB. Está na hora de os grandes vultos da pátria tomarem a frente de um novo movimento abolicionista. Pela abolição do PTB. Não há mais tempo nem dinheiro público a perder. No além-mar, as nações liberais e desenvolvidas caçoam de nós, à boca pequena: “Aqueles selvagens brasileiros... Ainda praticam o PTB. Tsc. Tsc.”

O PTB foi parido pelo ditador Vargas. E devia ter morrido com ele. Sábios eram os velhos egípcios: quando o faraó vestia o sarcófago, seus correligionários iam juntos para a tumba piramidal. Assim devia ter acontecido com o PTB, ao tempo justo, quando Don Vargas disparou aquele tiro no Catete e virou carta-testamento.

Mas, para vergonha de toda uma nação, não nos alforriamos, e a prática do PTB persistiu, de forma explícita - e já conta com quase 60 anos de conchavos, maracutaias e perfídias nas nossas costas. Sua gula de poder sobreviveu a tudo, até à operação de redução de estômago do Roberto Jefferson (que, enfim despido do corpo de gordo, pôde adequar-se à máxima rodrigueana: “todo canalha é magro”).

Proponho sanarmos tal erro histórico, antes que nossa moral remanescente seja corroída irreversivelmente pela mácula melanomatosa do PTB. Proponho um grande ritual cívico. Uma apoteótica inumação do PTB. Coloquemos todos, o arquimandrita Jefferson e seus pares, todos, trancafiados no mausoléu dos Vargas.

E que lá, entre quatro úmidas paredes, ao lado da ossada do pai-de-todos, que eles loteiem os melhores cantinhos da cripta e pratiquem o fisiologismo entre si e os vermes – seus irmãos, seus semelhantes.

 

Quiz Show (diálogo real)
Por Fran Pacheco

“Temos um ouvinte na linha. Meu querido, me responda valendo um prêmio.”
“Mande lá.”
“É o nome de um país, com duas sílabas. E tirando uma, fica o nome de uma coisa que todo mundo gosta de comer.”
“País... duas sílabas... uma coisa que todo mundo gosta de comer... Ah, Essa é fácil! CUBA!”
“Er... Não, meu querido... É Japão. JA-PÃO. O que todo mundo gosta de comer é pão...”
“Pô, gosto não se discute! Eu quero o meu prêmio!”

Break para os comerciais. Há controvérsia se o prêmio foi ou não concedido.

 

22 maio, 2005

O Guia do Mochileiro do Planalto
Por Fran Pacheco

Anotação enquanto o avião presidencial é abastecido para uma jornada aos confins da Japolândia.

Assim que Max Nunes bater no andar aqui de cima, vou convidar o velho craque do humor para ser meu ghost-writer, literalmente. Max, o último remanescente dos grandes humoristas de rádio e TV do Brasil, está semi-aposentado, numa salinha, como produtor do "Programa do Jô". Para ver a falta que anda fazendo o criador do Primo Rico & Primo Pobre, basta conferir o constrangedor nível das praças e zorras que povoam nossa TV.

Penso no Max (e preciso urgentemente da ajuda dele para desenvolver os sketches) toda vez que os humoristas involuntários e o acaso criam novos bordões e até mesmo novos personagens, como o Mochileiro do Planalto.

Gorducho, barbudo, bom de copo e bonachão o Mochileiro do Planalto usa, por baixo de uma faixa verde-amarela, uma camisa de turista (daquelas com desenhos de flores), e invariavelmente está segurando suas malas e sacolas, repletas com os adesivos dos países visitados. Sempre conferindo ansioso o horário do embarque nas passagens, o Mochileiro é admoestado por um assessor (um ator coadjuvante, que lhe servirá de "escada"). O estressado e engravatado aspone lembra ao descontraído Mochileiro dos muitos abacaxis e batatas quentes que pululam país afora:

"Mas presidente, a CPI, presidente..."

O Mochileiro dá uma risadinha sarcástica e cutuca seu "papagaio-de-pirata" (um coadjuvante afro-magrinho, de paletó, sarongue e cabelo rastafari), que começa a dançar. A câmera dá um close no mochileiro, que faz uma cara daquelas que só o Paulo Silvino é capaz de fazer e solta o seu bordão:

"Olha pra minha cara. Vê se eu tô preocupado..."

Ah, Max! Pense na minha proposta. Aguardo resposta urgente, enquanto não cancelam as passagens do Mochileiro.

 

20 maio, 2005

Em defesa dos direitos estéticos da Humanidade
Por Fran Pacheco

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Saddam comete mais um crime contra a estética da Humanidade!

Desde que João Baptista Figueiredo se deixou fotografar só de sunga & conga na Granja do Torto, circa 1982, parecíamos livres do holocausto visual perpetrado por horrendas imagens de ditadores em trajes mínimos. Consta que Hugo Tchávez usa uma cueca bolivariana, usada pelo próprio Libertador das Américas - e que nunca foi limpa desde o séc. XIX. Fidel Castro, por sua vez, seria adepto de tangas com camuflagem de guerra na selva, uma delas autografada por García Márquez. Mas a dupla caribenha nunca se deixou fotografar por tablóides britânicos ou fotobloggers. No que lhe somos gratos. Infelizmente, não encontramos nenhum artigo da Convenção de Genebra, do Protocolo de Kyoto ou do Regulamento da Liga das Escolas de Samba que impeça a emissão destes petardos visuais de destruição em massa. Só nos resta a nós, em nome de nossas fatigadas retinas, nos unirmos num só brado retumbante: "Bundones de Culeros, Nunca Más"!

 

19 maio, 2005

Diogo não tomou a anti-rábica
Por Fran Pacheco

"Se alguém me oferece 10 000 reais para dar uma palestra em Cuiabá, penso imediatamente que eu aceitaria pagar 15 000 reais para não ter de ir a Cuiabá (...) E pagaria outros 15 000 reais para não dormir no melhor hotel de Fortaleza, e comer no melhor restaurante de Fortaleza, e visitar a grande atração turística de Fortaleza, seja lá qual for."
Diogo Amargo, na VEJA de 18/05/05.

Eu pagaria (para o instituto Pasteur) o dobro do preço de qualquer livro do Dioguito, o Dément-Terrible da imprensa nacional, para jamais precisar lê-lo.

P.S. Título alternativo para o pôste: "Chama a carrocinha!"

 

Deitado em leito esplêndido de UTI
Por Fran Pacheco

“Não pode ser.”
“O quê, doutor?”
“Deixa eu medir de novo. Não pode ser. Dezenove ponto setenta e cinco por cento. Sua taxa de juros está altíssima.”
“O senhor acha, doutor?”
“Você já deveria ter tido uma crise. Ainda mais na sua condição clínica, infestado de parasitas, seus movimentos quase paralisados pela burocratite crônica, sua coluna vergada pela carga tributária. Sem falar nessa hemorragia...”
“Hemorragia, doutor? Onde?”
“No bolso. Você vem sangrando desde que nasceu. Geralmente as vítimas só percebem quando estoura um escândalo. Me diz uma coisa, quem foi que te receitou essa taxa?”
“Foram os Conselheiros..”
“Sempre eles... esses tratamentos ortodoxos... Mas, vem cá, o chefe dos Conselheiros, aquele Luís Inácio e o vice-chefe, aquele quase xará do autor de Iracema, e o mentor do Chefe, aquele Dirrrrceu, todos eles não dizem que são contra essa taxa elevada? Como é que eles deixam os Conselheiros, que trabalham pra eles, fazerem isso com você?”
“Vai saber, doutor? Só sei que o Luís Inácio disse que a culpa é toda minha. Disse para eu tirar o meu traseiro gordo da poltrona e buscar uma solução. E olha que eu botei o Luís Inácio lá, doutor. A culpa é minha mesmo, não é doutor? É por isso que eu vim aqui, procurar uma solução, como ele pediu. O senhor vai sair candidato na próxima eleição, doutor?”

 

18 maio, 2005

Boemia, aqui me tens de regresso!
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Olha, Fran Pacheco, me desculpe. É que surfando pela web acabei caindo num universo paralelo (www.uniparalelo.weblogger.terra.com.br) repleto de orgias, surubas, bundalelês e o diabo a quatro de quatro. Tentei sair várias vezes, mas não consegui, simplesmente não encontrava a porta de saída. Parecia até que eu estava no Hotel Califórnia, na companhia pouco recomendável daquele vocalista doidão do Eagles. Bom, mas já que estava no Inferno, resolvi relaxar e gozar. Foi o que fiz durante quase três meses. Semana passada, entretanto, quando me preparava para iniciar o desjejum matinal praticando um frango assado com uma anã albina que era a cara cagada e cuspida (mais cagada do que cuspida, of course!) da senadora Padmé Amidala, o mestre Jedi Mace Windu entrou no recinto e, de repente, acordei num quarto esfumaçado de um dos hotéis de Cannes, na companhia de duas starlets mortas de loucaças. Meu sabre de luz estava muito machucado, escalavrado mesmo. Desconfio que o evento teve algo a ver com a vingança dos Sith. Ou dos bullshits lulistas de sempre, sei lá. De qualquer forma, estou de volta ao pardieiro. Recebi seu questionário (é alguma nova jogada de marketing da Amway, Herbalife, Igreja Universal, essas traquitanas de sempre, querendo conquistar novos adeptos?...) e passo a responder com o rigor mortis de sempre.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Esta pergunta é sobre que livro gostaríamos de ser? Parece ter sido elaborada por algum português de Trás-o-monte em meio a uma crise existencial das brabas. Interessante, né não? Bom, nesse caso eu desejaria ser desencanado, pero non mucho. Sugeriria tornar-me o “Livro dos Insultos” (“A Mencken Chrestomathy”) de Henry Louis Mencken. Opcionalmente poderia ser o irresistivelmente cômico “Uma Confraria de Tolos” (“A Confederacy of Dundes”) de John Kennedy Toole ou quem sabe - tornando-me mais reflexivo, sutil, elegante, drogado e putanheiro - o esplêndido “Pé na Estrada” (“On the Road”) de Jack Kerouac. Ambos, evidentemente, no original. Em qualquer um dos casos, porém, seria muito solicitado pelos ouvintes. Seria popularíssimo, sem dúvida. Quem não leu “Fahrenheint 451” ou não viu o filme de mesmo nome de François Truffaut, ficará sem entender a última frase do parágrafo anterior... ou talvez tudo. Ah, mas, também, foda-se.

2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?

Este questionário veio de Portugal. Apanhado é igual a ficar caído, segundo a tradução exata de uma miúda que certa feita comi dentro do mictório de um cassino em Estoril. Uma vez, numa roda de amigos discretamente alcoolizada, uma das mulheres perguntou aos homens presentes quais teriam sido as mulheres de suas vidas. Por azar, coube a mim ser o primeiro a responder. Sou dono de proverbial franqueza, de lendária sinceridade e, depois de olhar para minha insegura cara-metade da época, declarei: a mulher de minha vida é certamente alguém que quis e nunca tive e da qual só imagino delícias, perfeições, volúpia, calma e carinho. É alguém de quem não conheço os defeitos. A mulher de minha vida é a Helena Ramos, cujo traseiro fornido em “As Cangaceiras Eróticas” (1974) rivalizava com o não menos célebre traseiro da Matilde Mastrangi e deveria ser a verdadeira “stairway to heaven” de que nos falava o Led Zeppelin. E pus-me a falar sobre o que faria se caísse naquelas carnes (“espanhola”, “candelabro italiano”, “vaca atolada”, “69”, “saci-pererê”, “cachorro pirento”, “canguru perneta”, “beira de cama”, “torno”, “chicotinho queimado” etc). Claro que meu casamento acabou na mesma noite. Não se deve confiar nas mulheres. Agora, fiquei chocado ao descobrir que as personagens de ficção pelas quais fiquei caído (ou “gamado”, como se dizia no meu tempo) são todas oriundas de gibis. Deste modo, minha primeira paixão ocorreu em 1913, por conta e graça do surgimento de Rosie, filha de Pafúncio e Marocas, criada por George McManus, explodindo de sensualidade em poses sempre bem estudadas - vestida no estilo belle époque, inocência virginal e melindrosa a roubar as cenas nas quais surgia (mesmo quando mera figurante). Na sequência, Betty Boop assumia mais a sensualidade em trocadilhos de duplo sentido malicioso e com a liga da meia surgindo sob a saia, seguida de Jane Pouca-Roupa, que em 1932 fazia um strip-tease "acidental" a cada tira de jornal. Na Segunda Guerra Mundial, Milton Cannif criou Malecall especialmente para os soldados no front, uma pin-up de claros propósitos masturbatórios para os jovens yankees nas trincheiras escuras, distribuída pelo próprio exército. Will Eisner também participa da minha lista com sua Sheena, pulando agarrada nos cipós de pernas abertas, curvando-se e mostrando o decote nas lutas. Mas nenhuma delas se comparou à criação imortal do desenhista italiano Guido Crepax, a musa erótica chamada Valentina. Inspirado na atriz Louise Brooks, Crepax moldou em 1965 a personagem sexy que se tornou mito erótico de várias gerações. Valentina tem traços fortes, é independente, decidida e extremamente sexy. É conhecida pelo corpo perfeito e pelas pernas longilíneas. Suas histórias foram publicadas em quadrinhos na França, na Espanha, no Japão e nos Estados Unidos. No Brasil não saiu em gibi, mas chegou em formato de livro às prateleiras. Pra Valentina, tiro o chapéu (não digo de qual cabeça) até hoje. De qualquer forma, assim que a Helena Ramos abotoar a camisola, estarei a posto, aqui do outro lado do balcão, para – quem sabe? – uma definitiva e decisiva investida. O sonho não acabou.

3. O último livro que compraste?

Nunca comprei livros, sempre fui adepto da expropriação voluntária à escondida, vulgo “furto na mão leve”. Portanto, contabilizo dois furtos de livros na última semana, ambos praticados num sebo: um novo, outro velhinho. O novo foi “A Pérola” de John Steinbeck e o velho foi “Órfão da Tempestade”, de Jason Tércio, que é uma biografia do jornalista Carlinhos de Oliveira.

4. O último livro que leste?

Foram dois. “O Pensamento Selvagem” de Claude Lévi-Strauss e “Pensamento e Linguagem” de L.S. Vigotski, ambos no intervalo das fodelâncias no universo paralelo. É que às vezes acabava o gelo para passar no sabre de luz.

5. Que livros estás a ler?

Estou meio feminista. No momento, leio “Os Mandarins” de Simone de Beauvior e “Susan Sontag: a construção de um ícone”, de Carl Rollyson e Lisa Paddock. Quando sobra tempo, releio “A Mística Feminina”, de Betty Friedan. Preciso aprender direito como funciona o cérebro desses bípedes implumes de bunda saliente, antes de traçar a Hedôzinha – que agora, kids, virou questão de honra.

6. Que livros levarias para uma ilha deserta?

Penso que nunca mais me apaixonarei por livros como na juventude. O que li durante a adolescência e até os vinte e poucos anos marcou-me muito mais do que qualquer coisa lida depois. Todos os meus livros vêm de lá:
“Perto do Coração Selvagem” de Clarice Lispector;
“O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” do Tom Wolfe;
“As Cariocas” de Sergio Porto;
Xerocópias de todas as crônicas de Antonio Maria;
A coleção encadernada da revista Status (144 números)

7. Quatro pessoas a quem repassarás este testemunho e por quê?

Repasso meu testemunho ao Wally Batatinha, porque me ensinou a fumar maconha sem tragar mesmo depois de morto. Ao Torquato Piauí, porque tem um poder de síntese e sugestão que talvez deixasse Pound pensativo. Ao irmão Paulo, pela sua lucidez de soda cáustica e esmeril elétrico. E pra Hedôzinha, para ela provar definitivamente que não é apenas um monte de carne, estrias e celulites em torno de uma xoxota depilada.

 

Educação sexual através da música contemporânea
Por Fran Pacheco

Image hosted by Photobucket.comMeu senhor, minha senhôra, a não ser que seu pequeno herdeiro seja criado dentro de um contêiner hermeticamente fechado, mais cedo ou mais cedo ele ouvirá falar, em verso e prosa, sobre aquilo (que será, que será?) que os senhores sabem muito bem a que estou me referindo. Isso mesmo, ruborizada mãe de família: sexo. Ouviu bem? SEXO! Mas nada de pânico ou palmatória. Tudo pode ser contornado com um bom e honesto esclarecimento, ajudando seu pimpolho a ter uma formação das mais equilibradas e saudáveis.

Em nosso primeiro fascículo, seu bacuri acaba de cantarolar com os coleguinhas de maternal a cantiga “Festa no Apê”, do chansonnieur Latino – e ficou com a cabeça cheia de idéias. Você está aí para pôr tudo em pratos e lençóis limpos e esterelizados. Ponha o pequeno no colo e use uma linguagem adequada para a psiquê da criança:

Pergunta – Papá, o que é “bundalelê”?
Resposta – Bundalelê, meu filho, é o ato ou ação de virar-se de costas para a platéia, inclinar-se o tórax para baixo, projetando-se pela lei da ação e reação as nádegas, para o alto, concomitantemente ao ato ou ação de desafivelar-se o cinto, abrir a braguilha e, ato contínuo, forçar a calça ou pantalona a deslizar cintura abaixo, cuidando-se para que este movimento abarque simultaneamente a roupa de baixo, seja quantas camadas forem, provocando ipso facto a exibição integral, sem tarjas pretas, da região glútea para a platéia. Recomenda-se arrematar a atitude com um chacoalhar maroto dos quadris e cobrir-se o quanto antes, pois já basta Napoleão ter perdido a guerra assim. Mas não ligue muito para tudo isso, meu filho, a palavra “bundalelê” provavelmente foi colocada pelo letrista apenas como rima pobre, paupérrima, rima em petição de miséria, da palavra “apê”.

Pergunta – Mamã, que é “birita”?
Resposta – Isso não tem nada a ver com sexo, Carlinhos. Quando você for maiorzinho seu pai conta pra você o que é, tá bem? Ele é o maior especialista no assunto. O traste...

Pergunta – Papá, o que é “tesão”, “sedução” e “libido”?
Resposta – Esta tríplice pergunta, meu filho, há que ser respondida em três partes. Tesão, meu filho, nada mais é do que o aumentativo de teso, étimo herdado do latim taesus, tenso, rígido, duro, que é o efeito mais visível e/ou palpável da irrigação dos corpos cavernosos no órgão copulador masculino, indicando que um fator externo deu o start, o boot no mecanismo, tornando o sujeito - que por extensão poética da idéia pode ser homem, mulher ou versátil – sequioso por acasalar-se naquele mesmo instante, se possível. Este fator externo é a sedução, que sem o/a tesão nas redondezas é como uma garrafa de Romaneé-Conti dando sopa, jogada no oceano, tu me entendes? E, last but not least, libido, meu filho, é uma glândula escondidinha no subconsciente, descoberta pelo tarado de Viena, o Segismundo, e que fica colocando todas essas coisas nas nossas cabeças.

Pergunta – Mamá, o que é “Orgia”?
Resposta – Responde você, Almeida... pra mim não dá mais!
Resposta – Orgia, meu filho, ah, que loucura, é a ação (e que ação!) coletiva de cinco ou mais pessoas (3 pessoas é ménàge-a-trois, quatro pessoas, muito provavelmente é swing) confinadas num recinto adequadamente equipado com um grande leito, piscina, tatâme, feno, ou chão de barro - na falta de coisa melhor - e fartamente fornido de suprimentos tais como: togas romanas, vaselina, viagra, pétalas de flores, chicotes, catuaba, esporas, cachos de uvas, coroa de louros, escravos númidas abanando o ambiente, halteres, uvas e kiwis, instrumentos de tortura clerical, aparatos plásticos pulsáteis etc. Todo mundo nu, ao som da Internacional, praticando a socialização do prazer, em que todos recebem conforme suas necessidades e dão conforme suas capacidades, tás me entendendo? Deixa eu exemplificar melhor com uma fábula de Esopo: certa feita a minhoca caiu numa macarronada e gritou: “Oba! Orgia!”. Agora vá brincar com as coleguinhas, meu filho, mas lembre sempre de usar a camisinha. Ai! Que é isso, querida?! Ui! É a camisinha de crochet que minha mãe rendou pra ele...

Pronto. Viu como tudo transcorreu (quase) sem traumas a curto prazo? Jogue suas mãos para os céus e agradeça por ninguém ter lançado a coreografia dessa música. E relaxe, recupere o fôlego, porque seu filho está agora pulando ao som das Obras Completas de Tati Quebra Barraco.

 

17 maio, 2005

Agência de turismo cria novo feriado
Por Cartier, Free-Lancer

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Nem vamos fornecer o telefone da agência do Tio Turco, que já está congestionado com tantos interessados em conhecer a misteriosa Christie.

 

16 maio, 2005

Pequena resenha desportiva
Por Stella Maris - especial para o Club

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Torcedores remanescentes do Botafogo conferem no Jornal dos Sports os bons resultados do venerável clube.


Um fato nada olímpico ocupou as manchetes desportivas desta semana. A bombástica separação da supermodelo e astrônoma Svetlana Schuparova e do êneacampeão mundial de xadrez, o brasileiro Vladimir Vladimirovich Vladimir.

“Acabou”, decretou Schuparova, após 24 horas de relacionamento. Tudo começou na entrega do Prêmio Nobel-Davène - pela primeira vez realizada em Porto Alegre - quando Schuparova tornou-se a única intelectual do planeta a ser agraciada em duas categorias diferentes: “Simpatia” (sua desenvoltura ao não responder a pergunta sobre “teoria da gravitação quântica num cenário de hiperinflação argentina” cativou a todos) e “Lábios Mais Carnudos”, desbancado o ator Wesley Snipes.

Vladimir compareceu à mesma cerimônia como atração de honra e disputou 112 partidas simultâneas com chefes de estado, sendo batido apenas por Fidel Castro (embora observadores internacionais afirmem ter visto Chico Buarque embaixo da mesa, bagunçando as peças de Vladimir nos intervalos). O sátrapa fundamentalista do Kudostão, sultão Volin Rabar, recusou-se a jogar. “Bispo comendo peão, cavalo comendo rainha, essas sacanagens todas foram banidas do meu país”, declarou o sinistro líder, cercado por suas vinte odaliscas.

Apesar do esgotamento físico, Vladimir e Schuparova trocaram olhares estrábicos e casaram-se na mesma noite, através do novo sistema expresso-informatizado-on-line implantado pela Igreja Evangélica Lemuriana Ltda, da qual Schuparova é adepta desde que largou a vida airada. Um estenógrafo foi chamado às pressas para redigir as 120 cláusulas do contrato pré-nupcial. Era mais um excitante lance na biografia de nosso campeão.

Garoto de origem humilde, Vladimir nasceu na isolada Capão do Muro Baixo, cidade com menor índice de PhDs do país. Muito cedo os pais o despacharam por carta registrada para Kamchatka, na Sibéria. “Aqui seu único futuro é ser beijado por político em campanha, meu filho”, disse o velho Vladão enquanto selava o envelope.

Após aclimatar-se, o pequeno Vladimir, apesar dos dentes cruzados, dos dedos tortos, dos 45 graus de hipermetropia, das bexigas, do lumbago, das doenças venéreas, do membro desproporcional e da incapacidade em assinar o próprio nome (só conseguia escrever a palavra “bongô”), logo mostrou aptidão para o esporte mais popular no mundo, o xadrez. Suas aberturas desconcertantes, o gingado malandro dos peões, o genial drible do cavalo, o xeque-mate de folha-seca e o efusivo soco no ar após as vitórias cativaram uma legião de fanáticos e violentos torcedores, os "Peões da Fiel". Grito de guerra: “Pensa, Vladimir! Pensa!”

Vladimir nunca jogava na retranca, jamais catimbava, nunca aparecia nos treinos. Partia pra cima da linha adversária fazendo o maior estrago. O bad-boy do tabuleiro se dava ao luxo de deixar todas as suas peças serem comidas pelo incauto oponente, para aplicar-lhe um acachapante cheque-mate só com o rei. Sua partida mais rápida se deu contra o então campeão mundial, o russo-camaronês Porris Luambala. Visivelmente nervoso (a camisa de força desalinhada, o babadouro todo manchado), o velho campeão observou atônito o magrinho Vladimir, logo no primeiro movimento, pegar o peão, ameaçar colocar a peça numa casa, depois, noutra, de um lado para o outro, do outro para o um, e assim por alguns segundos de pura magia, até mover o peão para a frente – para delírio da torcida, que gritou o tempo todo “Olé! Olé!”. Tonto e abalado, Porris Luambala simulou um “compromisso urgente” e abandonou o páreo.

Vladimir esteve perto de ser derrotado de jeito no fim de 1999 pelo supercomputador Bucefálus 12,5. Na hora H, foi salvo pelo bug do milênio, que fez o sistema do computador retroceder um século, reduzindo-o a uma máquina registradora.

Este foi o 15º casamento relâmpago de Vladimir, cuja fortuna pessoal está no infravermelho, com uma muralha da China de advogados, profissionais da noite e bookmakers cobrando-lhe honorários. Desiludido e cansado de ser paparicado pelas pessoas por seu “cerebrozinho bonito”, o campeão decidiu repaginar o visual e acaba de se internar numa funilaria. Promete lançar um CD sertanejo, assim que terminar de treinar a dicção com as cabras de sua fazenda.

 

Provocações ambulantes
Por Fran Pacheco

A moda teve seu apogeu nos tempos do ex-presidente Collor, que todo domingo, depois da fungada energética matinal, fazia cooper (que é o aportuguesamento do termo jogging) com uma camiseta exibindo uma frase edificante, como “liberdade é passar a mão na bunda do guarda” ou “evite vírus. Ferva o computador antes de usar”. E foi sepultada com ele.

Até que, dia desses, acho que numa gafieira carioca, vejo esta citação estampada na camiseta de Daniella Big Lips Cicarelli, que dançava com os braços levantados:

"Plus je connais les hommes, plus j'aime mon chien. "
Colher de chá: "quanto mais eu conheço os hômi, mais eu amo meu cão."


Quanta maldade, Dani. Não deve haver muitos cachorros francófonos no Brasil. Você não aprendeu nada com o homem que mais entendeu de mulher na Grã-Bretanha, o Sr. Oscar Wilde? Lembre-se: “As mulheres nos amam pelos nossos defeitos. Se os tivermos em boa quantidade elas nos perdoarão tudo.” Pena que não caiba numa camiseta. Mas seu amor pelos animais faz sentido. Afinal, nada como uma raposa na cruzeta do armário, um tigre na sala de estar, um Jaguar na garagem e um burro para pagar por tudo isso.

 

14 maio, 2005

Oxente, Oh! Shit – Os Enigmas da MPB
Por Stella Maris - especial para o Club

Cientistas britânicos passam a vida a decifrar pergaminhos deixados por antigas civilizações. Nós não precisamos recorrer a material tão antigo e mofado, temos vasto sortimento legado pelos gigantes do cancioneiro popular. Alguns exemplos clássicos:

- Nível Básico

Que só eu podia
Dentro da tua orelha fria

Dizer segredos de liqüidificador.


Cazuza (R.I.P.) & Ezequiel Neves in "Codinome Beija-Flor"

(Que segredos recônditos guardaria um dos melhores amigos das donas de casa? Logo ele, o mais estrepitoso dos utensílios domésticos... Ou seria uma antiga forma de carícia tântrica? Coçar a orelha do ente amado com a palheta do liqüidificador, para fazer patê de cartilagem e cera? Blargh.)

***

- Nível Médio

Alô, alô, W/Brasil, alô, alô, W/Brasil
Jacarezinho, avião, Jacarezinho, avião

Cuidado com o disco voador

Tira essa escada daí,

Essa escada é pra ficar aqui fora

Eu vou chamar o síndico

Tim Maia! Tim Maia! Tim Maia!


Jorge Ex-Ben in "Alô, Alô, W/Brasil"

(Os exegetas já decifraram pelo menos 2 versos fundamentais dessa charada. Está muito claro que "W/Brasil" não é um protesto pela exclusão do W de nosso alfabeto. Trata-se da agência de publicidade que bancou a composição da música. Também é cristalino que "Tim Maia! Tim Maia!" é uma referência explícita ao cantor Tim Maia! - atualmente falecido. O resto desafia toda uma geração de especuladores).

***

meu treponema não é pálido nem viscoso
E os gametas se agrupam no meu som.

O profeta Zé Ramalho in "Vila do Sossego"

(Seriam esses versos de fonética assustadora uma atualização do "Flautista de Hamelin" adaptada às gônadas do Profeta de Brejo da Cruz?)

***

Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho
Tudo cacacá na fefefé
No bubulili, no bubulilindo
no bububolindo

Moraes Moreira in "Acabou Chorare"

(O embaraço fônico outrora conhecido por gagueira só foi tão bem adaptado ao ritmo uma vez antes, no clássico de Noel Rosa "Gago Apaixonado". Perdão: "Loquaz Intermitente Apaixonado". Resta saber o que Momomoraes ququiquis dizer.)

***

- Nível Avançado Muito Mais do que Sonhara

Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro sabes ao que estou me referindo.

Gilberto Gil in "Refazenda"

(Com suas private-jokes universais, Gil é o mais antigo Djavan do país.)

***
Ah! Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé
Ah! Caicó arcaico
Meu cashcouer mallarmaico
Tudo rejeita e quer...

Chico César, in "A Prosa Impúrpura do Caicó" (só o título já vale menção honrosa).

***

P.S. A César o que é de Chico: "Oxente, oh! Shit" é la lavra do mesmo Chico César, na mesma música. E morro de inveja de não ter criado esse verso.

 

13 maio, 2005

Agora é minha vez
Por Fran Pacheco

Quase todo blogueiro já recebeu uma corrente que anda rolando pela Rêde, com perguntas sobre livros. Eu estava crente de que não receberia nada, aqui tão longe, do outro lado do Estinge. E deveras não recebi, mas quem se importa? Antecipo-me e aí vão as perguntas devidamente respondidas, caso um dia as receba de fato:

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Estar confinado numa fazenda em que as pessoas pensam que são livros? Eu tentaria fugir de qualquer maneira de lá. Imagine o suplício de viver ao lado de um sujeito que cisma em ser o “Benjamim”, do Chico Buarque, ou de um cara que recita sem parar “Marimbondos de Fogo”, do Sarney, ou qualquer coisa do Autran Dourado, Josué Montello, Affonso Romano de Santana, Fernanda Young, Marilena Chauí, Fernando Gabeira, Roberto Drummond, Patrícia Melo, Jô Soares, Tony Belotto, Fernando Bonassi, José Miguel Wisnik, Nelson Motta, Fernando Morais, Leonardo Boff, Frei Betto, Lair Ribeiro, Marco Maciel... Chega, chega! Azarado como eu (“um urubu pousou na minha sorte”), acabaria tendo como vizinho o catatau de 1.149 páginas (!) “Socialismo, uma Utopia Cristã” (!!), do Procurador da República Luís Francisco, o Anormal do Parquet (além de andar num Fusca 82, ganhando R$ 10 mil por mês, ele repete parágrafos, páginas inteiras, várias vezes no decorrer de sua cosmogonia).

Como ter descanso com a verborragia dos gêmeos briguentos “Guerra” e “Paz”, “Crime” e “Castigo”, “O Ser” e “O Nada”, dos flamenguistas “O Vermelho” e “O Negro”? Como suportar o pedantismo enciclopédico da “Brittanica”, sempre batendo boca com a “Larrousse”? Eu imploraria por conhecer “Lolita” e me apresentariam um russo baixinho e meio careca. E os sujeitos que pensam ser livros de poesia? Os líricos, vestidos de faunos e libélulas, os da marginália, queimando mato, os satíricos passando a mão na tua bunda. “Quem é aquele anão?”, “É um Haicai”. E os concretistas, entortando as articulações do corpo para reproduzir as travessuras logográficas dos Irmãos Campos? Não quero tomar parte nisso...

Mas, tudo bem, sejamos pragmáticos e menos ranzinzas. Como não haveria escapatória possível, eu seria “Fernão Capelo Gaivota”, para decorar fácil e ser muito requisitado pelas misses de plantão.

2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?

Quando eu era pequeno, bem pequerrucho, encontrei na escrivaninha de meu severo genitor, ao lado do açoite, uma luxuosa edição de um livro, acho que indiano, ricamente ilustrado, com muitas pessoas nos quartos, jardins e piscinas de um grande palácio, fazendo coisas muito esquisitas, todo mundo nu, mulheres brincando com a “pipoquinha” do Rajá, o Rajá brincando com doze súditas ao mesmo tempo, gente de cabeça(s) para baixo. Aquilo me marcou tanto que não consigo pronunciar o nome do livro. Que livro era aquele, mesmo? “Ganga Zumba”?

3. O último livro que compraste?

Nunca comprei livros, isso é coisa de burguês. Minha parada era ficar em pé, bem discreto, fazendo leitura dinâmica na banca ou na livraria, antes que um vendedor me importunasse. Foi nesse esquema que li os 7 volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, que acho ter alguma coisa a ver com a França.

Outros recursos úteis eram o escambo, a doação feita por amigos terminais e a expropriação, ainda que discreta. Nada pior do que livros mofando nas estantes da lúmpen-bourgeoisie. Os felizes proprietários de estantes de mogno abarrotadas fazem idéia do quão caro é um livro zero quilômetro? Acham que um pai de família proletário com várias bocas para alimentar pode se dar ao luxo de pagar 50 pilas em best-seller que vai passar no cinema por 10 mangos? Os sebos do país imploram por livros. E para os abastados que só compram livro zero-km, uma dica aritmética: só pague dez centavos por página. Mais do que isso é roubo.

4. Os últimos livros que leste?

Ah, meu filho, faz tanto tempo, Ruy Barbosa ainda estava apanhando na caligrafia. O Tronco do Ypê era uma modesta mudinha. Muita gente boa ainda estava para ser concebida em pecado. Acho que foi a 1ª edição de “A Evolução das Espécies”, que afanei numa tarde de autógrafos (tenho sérias refutações às idéias tresloucadas do sr. Darwin). Também recebi com entusiasmo um inquietante conto do Sr. Allan Poe, publicado no Graham’s Magazine, intitulado “The Murders in The Rue Morgue” – creio que a sacada do Sr. Poe, de conduzir-nos à solução de um crime, vai dar samba e iniciar um novo gênero literário.

5. Que livro estás a ler?

Uma batelada. Gosto de ler muitos livros ao mesmo tempo, espalhados pela mesa, passando de um para outro a esmo. O único problema é que tudo se mistura na minha cabeça e até hoje confundo Heidegger com Steinhegger. Por isso, agora me concentro num só tema de cada vez. Estou a ler “Ruminando o Código Da Vinci”,“A Volta do Código Da Vinci”, “O Filho do Código Da Vinci”, “O Irmão Mais Esperto do Código Da Vinci” e “O Código Da Vinci x Operação Cavalo de Tróia – não importa quem ganhe, você perde”.

6. Que livro levarias para uma ilha deserta?

Se considerarmos a coleção encadernada de Playboys dos anos 70, 80 e 90 como “livros”, e ficando restrito a um, eu bateria o martelo na “Anos 80” (a basta performance de Cláudia Oshana, digo, Ohana desequilibra qualquer disputa). Afinal, a ilha é deserta, mas o desejo infinito. Qualquer outra coisa, estilo “Manual do Escoteiro Mirim”, “Robinson Crusoé”, ou “Como Ser McGyver” me entediaria em cinco dias e eu me lançaria ao mar recitando a "Ode Naval".

7. Quatro pessoas a quem repassarás este testemunho e por quê?

Ao Irmão Paulo, que leu cinco quilômetros a mais de livros do que eu (e aproveitando que ele está em fase paz e amor). Ao desaparecido Cecezinho, outro erudito, para ele se mancar e voltar a elevar o nível desse terreiro. E ao Luís Inácio, se ele estiver no país, por mera curiosidade. Perdi a conta?


 

Puoooorraaa!
Por José Zuckerman

Image hosted by Photobucket.comOlha a frescura, puoarra! Fran Pacheco, depois de fazer muito cu doce, resolveu permitir-me baixar nestas paragens bem comportadas. Tô aí.

O lugar é interessante, a frequência idem, sobretudo as leitoras com apelidos de frutinhas, gostinhos, cheirinhos e toda sorte de aparatos eróticos que as mulheres sabem usar bem. Eu faria uma salada de frutas com qualquer das belas que pintam por aqui. Eu gosto de mulher, na boa.

Vim falar do que conheço, ou seja, vim falar de putaria. Os milhares de zeros que escoaram-me nariz adentro me autorizam tal presunção. De putaria, eu entendo.

Gosto de mulher. Mulher mesmo, peituda, bunduda e que não se depila. Buceta, pra mim, tem que ser cabeluda. Quando excitada, precisa ensopar os pelos, gotejar e latejar, a rosa louca - como diria Tom.

Por falar em mulher, mulher que é mulher, gosta de sexo oral. Aguenta o frio inicial da língua do seu macho e goza na boca que lhe lava. E diverte-se com um pau duro e só descansa quando se ensopa de Semen.

Na volta, dou umas dicas de como utilizar, eroticamente e com segurança, a cocaína durante a foda. Vou contar tudo o que vi e vivi. Sem rebuços.

Olha a frescura, puoarra!

 

Robin, aliás, Cecezinho, não mora mais aqui?
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista

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"Mal chegada de Maués, Hedô ficou passada com o tamanho do PIB dos manauaras."

Estou de volta pro meu aconchego... Trazendo na mala (ui!) bastante saudade... Ai, ai... Elba... Só mesmo Elba Ramalho para traduzir a falta que vocês, meus fofitos, me fizeram durante todo esse tempito afastada! Thanks, Elba! Sabem, as vezes eu queria ser ela, mas me recolho a minha insignificância de colunista linda-hype-in-fashion-tudo. Éééé... Eu sei que eu não tenho a voz da Elba (snif). Éééé... Eu sei que não tenho as pernas da Elba (snif). Éééé... EU SEI QUE NÃO TENHO O BOFE DA ELBA!!!! (buááááááá!). Gaetano... Que bofe é aquele? Nervosa, revoltada e com um tiquinho de inveja (inveja construtiva, do bem!), vou para a cozinha tomar um copo d’água com açúc... err... adoçante... Ah, tá!!! Açúcar mesmo, e BASTANTE!!!! Uma mulher moderna e revoltada não é nada diet!

Ok, ok, ok... Vocês devem estar pensando (Sim, porque meus leitores pensam, tá?) “Como é que ela pôde desaparecer assim, sem mais nem menos, deixando milhares de fãs órfãos (tá bom, dezenas, meia-dúzia, vai... ), para reaparecer de repente assim do nada, linda, loura (a raiz tá preta... uó! Vou retocar amanhã!) e turbinada, fazendo “a maluca” como se nada tivesse acontecido?” Tá, tá, tá... eu explico! Eu sei que a imprensa mundial (Time, Newsweek, Le Monde, Toda Teen, Contigo entre outros veículos) andou especulando, dando suas versões sobre o meu sumiço! Mas como diria a minha amiga Neuzinha Brizola, “Tudo mintchura, seus tolinhos!”. Não, eu não fui estrelar uma super-produção em Hollywood e nem fechei contrato milionário para posar nua para a Playboy (embora não descarte a possibilidade – ouviu, Fran Pacheco?). Eu estava apenas dando um time, refletindo sobre o mundo, o ser humano, a chapinha japonesa de... bom, melhor não dizer, não quero ser processada. Tá, tá, tá... não foi só uma pausa para reflexão... A verdade é bem menos glamurosa, por mais que doa, devo confessar.

Maneaux, Manô, abril de 2005. Noite chuvosa, como sempre. Tudo parecia normal em minha city favorita, até o momento daquela ligação: - “Mona, aqüenda o babado! Maués tá bombando!” (tradução: “Menina, olha só a notícia: Maués está ótima!”).

Era Lulu, meu pink friend, tentando me convencer a seguir em caravana junto com cinco bibas, para Maués, em motor de linha. Hummmm.... Maués bombando? Porque será que a luzinha do meu detector de ‘programas-de-índio-uó-com-mosquito-e-trilha-sonora-de-Beto-Guedes’ começou a piscar? Sounds like a ROUBADA! Mas, mesmo indo contra todos os meus (aguçadíssimos) instintos e bom senso, acabei topando. ESSE FOI O MEU PRIMEIRO GRANDE ERRO. Quando dei por mim, lá estava eu sentada em volta de uma fogueira, tentando ser simplizinha (tarefa difícil), no meu modelito basic little black versão campestre, ladeada por cinco bibas que pareciam ter saído do elenco de apoio de “Estrela Guia” (aquela novela da Sandy). Todos estranhamente alegres, como se o rio Maués-Açu fosse uma espécie de estuário de Shangrilá. Devem ter lido na Vogue que a onda Neo-Hippie está com tudo, e estão tentando me convencer também de que é lindo fazer corinho para “Andança”! “Me leva amor, por onde for, quero ser seu paaaar!!!” Não sei porque, mas me veio a cabeça a vinheta de abertura do seriado “Além da Imaginação”. Credo! Seria aquele um universo paralelo? Pirei. Não devia ter aceito aquele chá esquisito... Tô presa numa “Twilight Zone”! Lulu tava a cara da Lucélia Santos... Cinco barbies made in Juventus, de Santo Antônio, trocando Madonna por Janis Joplin? Chemical Brothers por Sá e Guarabira? Socorro! Preciso de uma festa CORAÇÃO BLUE NOW!!!! Saí correndo pela mata local, tendo como companhia apenas o belo luar de Maués e trezentos e oitenta e dois carapanãs. Os quatrocentos e sessenta e cinco piuns vieram de enxeridos. Tinha que me afastar daquela lavagem-cerebral-bicho-grilo senão, no dia seguinte, acabaria deixando o meu cabelo igual ao da Alanis Morrisete! Descobri a duras penas que não é fácil correr linda e loura pela selva usando salto alto (salto alto sim, ou vocês acham que eu trocaria meus belíssimos tacones italianos por sandalinhas de couro da feirinha da Praça da Polícia? Fala séééério!). Aquela aeróbica de alto impacto acabou me levando ao chão. Caí e acho que perdi os sentidos por alguns instantes... Não sei se foi a queda, o chá de papoula, a influência de “Arquivo X” mas juro, juro que tive a impressão de estar sendo rodeada por pequeninos homens verdes... Um mix de Hulk e Nelson Ned! Falavam um dialeto incompreensível, mas pela lógica imagino que a tradução seria algo como “Nossa, é a mulher-terráquea mais linda que eu já vi. Que bom gosto para se vestir! A maquiagem, o cabelo, a atitude... tudo perfeito!” Fui acordada no meio do meu semi-desfalecimento por Lulu e meus pink friends:

“Mona, wake up, wake up! Que babado é esse?”

Estavam preocupadíssimos comigo. Que bom ter amigos! Mesmo que eles te levem para uma roubada e te façam sentir como uma riponga alucinada. Os homenzinhos verdes? Sumiram!
There’s no place like home! (Façam um cursinho de inglês ou assistam ao “Mágico de Oz” com legendas que eu não tô podendo!!! Sorry, TPM!). Dorothy sabia das coisas! De volta à minha cidade maravilhosa, pude refletir sobre todo o weekend! Será que fui abduzida? Será que vai chover? Será que vocês-sabem-quem vai refazer a chapinha? Tantas questões! Pára mundo, que eu quero descer!!! (Eu, hein?).

Toda essa experience, novamente, me lembrou Elba... sempre Elba. Ela também teve seu encontro com o “pessoal lá de cima”! Recebeu até um chip de presente... (procurei por todo o meu corpo, mas só encontrei um piercing e um chupã... digo, uma marquinha singela deixada por um certo rapaz... há dois meses!) Aaaah... Elba tem tudo! Voz, chip e Gaetano! Fofitos, acabei me estendendo nessa colunita! (sorry, Fran... um beijo!) Mas é que eu tava com tanta saudade! Tô esperando e-mails de everybody! Me escrevam! Um beijo louro (cara, tenho que pintar esta m...!) da sua Hedôzinha!

P.S.: Cadê o Cecezinho! Estou louca pra dar pra ele... Será que ainda está perdido naquela esculhambação italiana de sacanear o novo Papa? Ou, depois de fumar aquelas porongas em Salvador, ele não mora mais aqui? É uma onda, mora! Ou será Maura? Ah, f (*) se...

 

11 maio, 2005

As figuras nefastas do alto escalão
Por Fran Pacheco

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"Srs. ministros, uma pose para o povo brasileiro, por favor."

Ponha-se por um instante no lugar de Abílio Diniz. Em primeiro lugar, parabéns, coroa! Sua esposa é uma sílfide de vinte e poucos anos. Mas estamos aqui para falar de negócios outros. O senhor, como grande empresário, cioso do bem-estar financeiro de seu patrimônio, contrataria para executivos do seu Conglomerado gente como os ministros Alfredo Nascimento, Romero Jucá, Ricardo Berzzoini, Agnelo Queiroz, Olívio Dutra et patotam? Se a resposta for positiva, um conselho de amigo: venda enquanto é tempo todas, todas as ações de seu Grupo para o primeiro francês desinformado da esquina. E veja pela Tv o enterro da sua empresa.

Qualquer pé-rapado que for procurar emprego de empacotador na mais reles quitanda de subúrbio precisará provar que tem "experiência em empacotação". Mas para gerir a Previdência do país, uma atividade estatal crítica, que envolve cifras bilionárias e o atendimento a milhões de "beneficiários", o Governo promove uma dança de cadeiras para acomodar o primeiro apaniguado disponível, que, é lógico, nunca lidou com previdência pública na vida. Tem como dar certo?

Apesar dos fortes indícios, o Governo não é besta. Para atividades que lhe interessam diretamente o bolso não hesita em valer-se de técnicos gabaritados. Para comandar a Receita Federal (estômago e pulmão do Ogro), sempre são chamados servidores experientes do próprio Fisco. Recolhedores de impostos calejados, draconianos, desalmados, sádicos, que sabem (e gostam, ah! como gostam...) fazer o trabalho sujo de arrancar as merrecas dos contribuintes. Para o Banco Central, um banqueiro especializado nas mutretas do mercado ("o que é o roubo de um banco comparado à abertura de um banco?", já dizia um russo). Ou seja, para tomar do público, o Governo se arma dos melhores. Para servir ao público, vale qualquer rebotalho. Exemplo: para cuidar da malha viária, das ferrovias e hidrovias do país, por que logo um apedeuta como o Alfredo Nascimento?! Buchada (este o seu nom de guerre) só conseguiu fazer uma coisa pelos transportes de Manaus em 7 anos de mandato: plantar palmeirinhas nos canteiros centrais. O homem é completamente analfabeto em planejamento viário (entre muitas outras coisas). Mas eu vejo sempre o lado bom da vida: Buchada não foi acomodado no Ministério da Saúde.

Se fosse possível um Estado falir, fechar as portas, colocar todo mundo na rua, essa gente não arranjaria mais emprego, teriam que viver do que a rendosa atividade política lhes permitiu amealhar em suas "carreiras". Suas empresas (eles sempre têm) iriam para o brejo, sem poder parasitar e fagocitar as licitações e financiamentos públicos. É por isso que eles não desistem nunca. Uma hora estão ministros, outra disputando um governo, ou uma prefeitura, ou mesmo uma cadeirinha de deputado, ou uma cadeirinha vitalícia nalgum tribunal de contas. Ou deixam seus prepostos tomando conta de seus interesses - entra governo, sai governo. Tem que ser assim. Na iniciativa privada não dá. Morreriam de fome. Os puxa-sacos das altas rodas lhes dariam as costas. Ninguém lhes daria trabalho, nem como animadores de festa dos funcionários, para contar seus "causos". Seus currículos só serviriam para exumação minuciosa pelo Ministério Público.

Esses caras estão condenados, por sua vocacional incompetência para o trabalho honesto, a nos governar.

 

A Queda do Ocidente numa janelinha de computador
Por Fran Pacheco

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Gomer Pyle, de tão absorto no chat, não percebe o que lhe aprontam pela retaguarda.

Defendo a tese de que Tetris® foi desenvolvido (ou pelo menos popularizado) por ciber-anarquistas interessados em minar a capacidade produtiva do mundo capitalista. Segundo o cronograma dos sabotadores, um dia grandes executivos chegariam atrasados a reuniões cruciais, com olheiras cavas, sem conseguir falar coisa com coisa. Só com aquelas pedrinhas despencando em suas mentes. A queda dos bloquinhos era uma metáfora-prenúncio do colapso do Sistema. Tetris® aos poucos foi banido pelo instinto de sobrevivência do Leviatã. Para dar lugar ao Messenger®.

Como a Microsoft® pôde não só cair, como difundir graciosamente este novo plano dos incansáveis sabotadores da grande engrenagem capitalista? Estaria Bill Gates® mancomunado, seria ele próprio um anarquista, ainda que argentário? Afinal, que cadeia produtiva, que escritório pode funcionar a contento com os funcionários repartindo seus hemisférios cerebrais entre o trabalho e o bate-papo com quarenta "miguxos" online? Claro que isso não pode dar certo - e tome falhas, atraso, atendimento porco, relatórios mal feitos, com aflorações aki e akolah de expressões do medonho dialeto digitado da Rêde (assim, com acento à moda antiga - e viva a crase!).

Para os que têm fé na Ciência*, está provado (cientificamente) que responder regularmente ao e-mail faz o Q.I. (daqueles que o têm) cair pelas tabelas - mais do que dar um "tapinha" numa ganja de 5ª categoria. Imagine, entonces, o holocausto causado aos parcos neurônios de um escriturário mediano, que a cada 5 segundos interrompe o serviço para responder à Gitinh@17? E não pára por aí: além de tudo o mais, vicia. Não tem neurolinguística shiniashiquiana-lairriberiana, reengenharia, programa 5S, bushido, ISO 9000, PROER e "O Zahir" que salve a empresa das trevas e o MSN addict de terminar os dias babando numa fila de desempregados (todos babando - inclusive as atendentes no guichê).

Eu tomo minhas precauções**. Abomino toda e qualquer rotina digital. Chats, ICQs, orkuts, flogs, e-mails (blogues, só 10 minutos por dia). Empaquei na era do telex, mas não reclamo. Agradeço aos spammers por terem inutilizado minha caixa postal. Meu Q.I. remanescente foi salvo. Eis a explicação por eu responder aos simpáticos missivistas com dois meses de atraso. Quanto aos viciados em internet, um momento. Um momento. Vou responder à Gitinh@17 e já volto. Resistir, quem há de?

(*)Fé é a palavra adequada. O jeito é acreditar no Stephen Hawking, porque compreender a pleno as teorias da relatividade quântica, supercordas cósmicas e P-Branas de 11 dimensões é coisa para malucos cuja mente há muito se descolou do rés do chão.

(**) Os mandarins chineses também são precavidos. A China cresce 10% ao ano. A lei é clara: chinês não pode acessar internet. E só pode dar uma bimbada na vida.

 

10 maio, 2005

Música Gravada - O Começo III
Por irmão Paulo

(...Entretanto, nem as conferências, nem Rodder e, muito menos, o Comendador podem ser considerados como os introdutores do fonógrafo no Brasil. Tal título cabe a Fred. Figner.)


Em 1892, a capital da recém-proclamada República era uma cidade infecta. Os ventos Republicanos, que varreram a família real do mapa brasileiro, continuavam dispersando os mesmos odores nauseabundos do império e o Rio de Janeiro cheirava a excremento e urina. Os surtos de febre amarela, trazidos pelas chuvas de março, que 80 anos depois inspirariam Tom Jobim, tornaram endêmicos a partir de 1850 e a Varíola, que vitimaria Pixinguinha em alguns anos, era um flagelo público. Foi esse o Rio de Janeiro encontrado pelo caixeiro americano.

Alguns meses após chegar, tendo tido algum sucesso na divulgação do fonógrafo em uma porta da Galeria Mocanda, na onipresente rua do Ouvidor, num "estabelecimento elegantíssimo”, com medo da febre amarela, Figner partiu para uma viagem de vários meses. No insalubre Rio de Janeiro, como faziam ano após ano, desde 1850, fiéis foram às ruas para pedir proteção Divina contra a febre amarela. Saiam das igrejas, em procissões noturnas, para pedir a Deus que os protegesse do mal. De quando em vez elas paravam e, de um púlpito portátil, falava o padre à luz dos archotes e das velas. Um espetáculo, antes de tudo, atrasado e deplorável.

De volta, em 1893, Figner encontrou o Rio de Janeiro imerso na Revolta da Armada. Partiu novamente. Desta vez para Cascadura, findando por embarcar para a Europa e Estados Unidos, onde inacreditavelmente contracena com personagens e fatos históricos, o que confere a essa parte do relato de sua vida um quê de Fileas Fogg. Em Milão, segundo seu manuscrito autobiográfico, conheceu a maestrina Ricci, professora de música em casa de quem participou de sarau e gravou cilindros com artistas do Teatro Alla Scala. “Um desses cilindros foi com a voz do barítono Blanchard. No dia seguinte, no hotel em que estava hospedado, viu entrar o compositor Giuseppe Verdi acompanhado do maestro Arrigo Boito. O gerente do hotel pediu a Figner que demonstrasse o fonógrafo ao compositor que, ainda não conhecendo a máquina falante, constatou surpreso: "Ma come? Ma come? Sono stati ieri sera nella casa de Ia Maestra Ricci e Blanchard trovandosi Ia ha cantato questo? Stupendo!"

Voltando da Europa, Figner passou pelos Estados Unidos onde, em março de 1894, visitou a Exposição de Chicago trazendo para o Brasil, e fazendo instalar em uma porta na rua do Ouvidor 6 kinetoscópios - uma caixa de madeira com uma manivela lateral, que movia um sistema de roldanas, com um filme ou série de fotografias seqüenciadas, que a tal velocidade, davam a ilusão de movimento a quem olhasse pelo visor. Ainda em 1894, volta aos Estados Unidos e vem a conhecer, em Nova lorque, um boneco que jogava damas, descrito como "a figura de um turco luxuosamente vestido com um turbante, numa bonita cabeça de cera", onde, dentro dele, sentava-se um homem. Figner adquiriu o boneco e contratou um marroquino de nome Ajeeb que jogava bem e com estatura ideal para a função.

Paralelamente a tais iniciativas e sucessos comerciais, Figner seguia com a divulgação do fonógrafo e com a gravação de cilindros para venda. Nesse ramo, aliás, tinha como concorrente um português de nome Martins, da Ao Bogary. Chegaram ao Brasil os precursores da kuke-box da década de quarenta, imensos armários de madeira, com vários cilindros gravados dentro, e que, mediante a inserção de uma moeda que acionava o mecanismo, permitia ao ouvinte escolher um cilindro (música) que seria posto a tocar. Em pouco tempo essas máquinas foram colocadas em diversos pontos do Rio de Janeiro, inclusive em algumas paradas de espera de condução, para divertimento comum.

O negócio de gravação de cilindros prosperou, embora permanecesse restrito a certa escala de produção, por conta da fragilidade dos cilindros de cera. A introdução dos cilindros moldados deu dimensão ao mercado, tanto que a chegada do disco não o eliminou de vez, mas aos poucos, conforme fimou-se a tecnologia do gramophone. Em 1899, em sociedade com um inglês (sempre um inglês), Figner fundou o que denominava clubes do Gramophone, uma espécie de consórcio no qual o objetivo dos sócios era adquirir a máquina falante e de Figner, conforme relatou, robustecer seu capital a fim de dar o grande passo, a fundação da Casa Edison.

 

07 maio, 2005

Acredite, se quiser
Por Fran Pacheco

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Admirável é o mundo da publicidade. Lá tudo reluz, é jovial, eficiente - ao contrário da porcaria do mundo real, que teima em não funcionar. Eu queria viver ali, entre ninfas, com minha imagem aos cuidados de um consagrado diretor de fotografia e minhas falas elaboradas por um redator com no mínimo dois Leões de Ouro em Cannes. Eu queria viver ali, naquele Amazonas sorridente das revistas de alto luxo que o Governo do Estado espalhou por toda a cidade e até por Paris (64 páginas full-color em papel cuchê de brilhoso, 128 referências ao Nome do Governador, umas 256 fotos do Governador, sendo um sorriso photoshopado de página inteira, tiragem de 50 mil exemplares. Preço pago pelos contribuintes para a promoção pessoal de Braga: mistério).

Destaco as páginas dedicadas ao PROSAMIM, que - ao contrário do que o nome sugere - não é similar do Prozac ou do Xarope Neurobiol. É um complicadíssimo (portanto caríssimo) programa que (ah, deixem-me acreditar) vai acabar de vez com a poluição e favelização dos igarapés de Manaus, hoje tomados por palafitas, mucuras, lixo e merde em abundância amazônica.

Já vi esse comercial em outros carnavais, mas viajemos por um instante na concepção artística do projeto (foto acima). Na foto menor (deixemos menor - é muito feia), o igarapé tal como é hoje. Uma espécie de leucemia urbana. Em resumo, o que o Governo nos promete é o seguinte:

(1) A primavera de Paris;
(2) Como a primavera será de Paris, as pessoas também serão, fazendo alegres promenades com roupas de manga comprida;
(3) Como os caboclos se tornarão parisienses, sentarão nos bancos para ler Bernard Henry-Levy (BHL) e Simone de Beauvoir;
(4) Como a água do igarapé não basta para enfeitar a paisagem, mais água: um chafariz.
(5) Como em Paris não há mato, as margens serão recapeadas com grama sintética, igual à das melhores quadras de futebol soçaite (ou melhor, société).
(6) E a pièce de résistance: o fim da água barrenta, com aquele visual Bangladesh e sua substituição por água azul. Sim, azul de Amaralina, azul Riviera, provavelmente com o uso intensivo de cloro e detergente.

As obras do projeto, embora monumentais, são discretas. Por isso ninguém as vê. Evidemment, ficarão muito mais visíveis na época da campanha eleitoral.

Foi-se o tempo dos comerciais de 30 segundos. Quem quiser ter um Rio Sena no quintal de casa será extorquido, digo, sugestionado a dar mais 4 aninhos para o Governador continuar com seu verdejante mandato-campanha-publicitária.

 

06 maio, 2005

Achado em Manaus o 4 º maior PIB do país
Por Cartier, Free-Lancer

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Técnicos do IBGE, auxiliados por mateiros gurkas e cientistas da Master & Johnson Sexual Researchs exibem o pibe do ribeirinho Bráulio Botelho Pinto do Carvalho, o Duca (que, muito tímido e arredio, escondeu-se atrás da moita). Após rígidas medições diante de variados cenários macroeconômicos (viés de baixa, viés de alta e ponto de bala), o pibe caboclo abocanhou (ops!) o 4º lugar entre os maiores do país. Não satisfeito, o sr. Carvalho já encomendou pela internet um PIB Enlarger sueco e promete, um "milagre do crescimento" para a próxima rodada. Políticos locais já o sondaram (êpa!) sobre seus planos políticos. "Com um pibe dessa magnitude ele faria em um só mandato 'aquilo' que os governantes fizeram com o Amazonas em 20 anos", afirma um analista, em off. "Mas depois teria que casar."

 

05 maio, 2005

Pra mim chega, uma ova!
Por Torquato Piauí

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Toninho Vaz (acima) acha que morri porque pegava na poeira. Isso é calúnia, gente!

E aí, amizade, tudo azul? Tudo certo como dois e dois são cinco? Tudo livre, leve e solto como uma velha calça Lee suja e desbotada? Passei uns tempos meio sumido porque estava baixando diariamente num terreiro de candomblé e em uma mesa branca kardecista para dar vazão ao ímpeto memorialista do jornalista e confrade Toninho Vaz, um dos muitos fãs que conquistei post-mortem. Acho que valeu a pena. O resultado destas sessões vocês podem avaliar a partir do interessante texto do crítico José Castelo, que transcrevo em seguida:

Image hosted by Photobucket.comA vida breve, mas fecunda, de Torquato Neto (1944-1972) é uma síntese da grandeza, mas também dos abismos que definem a cultura alternativa e rebelde dos anos 60 e 70. Mais importante pensador do movimento da Tropicália, letrista, poeta, cineasta, ator, Torquato ganha, mais de três décadas depois de seu enigmático suicídio, uma bela biografia, assinada por Toninho Vaz (“Pra mim chega/ A biografia de Torquato Neto”, Editora Casa Amarela). O livro será lançado na noite desta quinta-feira, 5, a partir das 20 horas, na Livraria da Travessa, em Ipanema.

Como discípulo fiel do mito alternativo, Torquato tinha como ideal destruir o mundo para, nesse mesmo gesto, fazer o parto de um novo. Uns poucos se lembram do empenho, da identificação secreta, com que ele representou o papel de Adão no curta-metragem em super 8 “Adão e Eva, do Paraíso ao Consumo”, produção marginal de oito minutos cujos negativos se extraviaram. É emblemática, e mais conhecida, a altivez com que ele aparece, ao lado de Gal Costa, na capa do LP “Tropicália”. Em sua festa de 28 anos, comemorada em um bar da Usina, no Rio de Janeiro, o amigo João Rodolfo do Prado, na época editor da “Última Hora” (jornal em que, entre 1971 e 72, Torquato Neto assinou a famosa coluna Geléia Geral) também o viu com o carisma de um iluminado. “Torquato estava messiânico, dando conselhos e distribuindo tarefas”, relata ao biógrafo Vaz. “Ele estava fazendo uso de uma lógica própria, como se estivesse mergulhado num mundo inatingível.”

Mais objetivo, Toninho Vaz prefere assinalar que “é provável que Torquato estivesse fazendo uso de cocaína”. Outra testemunha, o jornalista Luís Carlos Maciel, prefere pensar em uma “viagem” de LSD. Como diz o próprio biógrafo, já não importa saber “qual a substância química que o poeta usou na sua despedida”. Na madrugada seguinte ao aniversário, de volta de uma ronda pelas boates da zona sul, Torquato se trancou no banheiro, ligou o gás e esperou a morte. Foi encontrado só na manhã seguinte, pela empregada Maria da Graça.

Antes disso, em um caderno espiral, ele rabiscou um bilhete enigmático: “Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago que ele pode acordar.” Thiago era seu filho de 3 anos, que dormia num quarto ao lado. Às 9 horas da manhã, Torquato Pereira de Araújo, neto (assim mesmo, com uma vírgula no nome) foi considerado oficialmente morto.

Poeta da ruptura. Entre os últimos textos rabiscados no caderno, havia uma frase isolada, atribuída a Caetano Veloso: “O amor é imperdoável”. Do mais belo, Torquato conseguia tirar o mais horrendo. Por isso, o mais importante na equilibrada biografia de Toninho Vaz é que ele não se deixa convencer nem pelo santo, nem pelo monstro. Encontra os dois dentro do mesmo Torquato e, se depara então com uma figura em fragmentos, a responsabilidade não é sua, mas de seu biografado.

Torquato Neto foi, como Vinicius de Moraes, um poeta para quem a poesia vazava na vida. Não é por outro motivo que é autor de um livro único, “Os Últimos Dias de Paupéria”, só editado após sua morte. Deixou mais de 30 letras de música, assinadas com parceiros célebres como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Jards Macalé. E um diário do sanatório do Engenho de Dentro, onde passou uma das várias internações a que se submeteu, para tratar não só do excesso de álcool e drogas, mas também de uma depressão crônica.

Toninho Vaz não tenta juntar os cacos desse poeta despedaçado, tampouco impor uma ordem de valor aos fragmentos que recolhe. “Poeta da ruptura”, como Torquato preferia se ver, sob forte influência não só de seus companheiros da Tropicália, como Rogério Duprat, José Carlos Capinam, Nara Leão e Tom Zé, mas também dos cineastas do Cinema Marginal e ainda dos poetas concretos de São Paulo. E, não menos, de artistas inquietos e radicais como o diretor de teatro José Celso Martinez Correa e o pintor Hélio Oiticica.

Mais do que na obra, diz o biógrafo, “a importância de Torquato Neto vai aparecer naquilo que ele fez e disse”. Em outras palavras: naquilo que viveu. Transportando a poesia para a vida, como fez Vinicius, Torquato se transformou em um mito que, como todo mito, fascina, mas também afasta. “Eu sei o que significa um mito, mas se alguém me perguntar vou entrar em pânico e não vou conseguir responder”, resume Vaz, citando Santo Agostinho.

Como os artistas da vanguarda, Torquato tinha dois grandes inimigos: as idéias preconcebidas e o “medo paralisador”. “Quero ir muito além do que já foi feito”, ele repetia. Um poeta cujo projeto era colocar-se a perigo, sempre disposto a enfrentar novas dificuldades e novos obstáculos. A contradição que carregava vinha de berço. Seu pai, Heli Nunes, era espírita kardecista e membro da maçonaria, enquanto a mãe, Salomé, uma católica fervorosa, uma típica beata. O filho por eles gerado teve um nascimento difícil. Salomé tinha a bacia estreita e, no parto, como relata Vaz, “o bebê foi retirado a fórceps de dentro da mãe, durante uma batalha sangrenta que durou mais de uma hora”. Um movimento brusco do médico provocou um ferimento na cabeça do bebê. D. Salomé passou mais de um ano em tratamento para curar-se das seqüelas daquele nascimento. Torquato nunca deixou de se ver como filho de um trauma.

Foi um menino tímido que, desde cedo, ainda nos bancos escolares, já lia os poetas Castro Alves, Olavo Bilac, Fagundes Varela, Gonçalves Dias. Aos 14 anos, descobriu Machado de Assis. Em 1959, seguindo os passos de outro poeta piauiense, Mário Faustino, decidiu cursar o científico em Salvador. Não podia imaginar a opulência que o esperava. A Salvador do início dos anos 60 vivia grande agitação cultural. Lina Bo Bardi, Joaquim Koellreutter e Glauber Rocha eram só as figuras mais nobres num cenário em que surgia, como diz Vaz, “uma arte agressiva e de vanguarda”. A capital baiana se transformara, diz o biógrafo citando Roberto Rosselini, em uma “Roma negra”.

Mas Torquato ainda não ficou satisfeito. Aos 17 anos, ele se transferiu para o Rio. Foi morar com um tio, Jonathan, no suspeitíssimo edifício Rajah, na praia de Botafogo, e estudar numa escola que, como se dizia, era uma “boate”, isto é, tinha péssima fama, o Colégio Ruy Barbosa. Fez o vestibular para jornalismo, mas não terminou o curso, e começou a trabalhar nas redações da cidade. Na mesa de um bar, o botequim Mau Cheiro, no Arpoador, conheceu sua futura mulher, Ana. Ao lado de amigos como Caetano Veloso e Jards Macalé, começou a viver o que seu biógrafo define como “uma vagabundagem inspirada”.

A festa acabou, ou pelo menos se politizou, com o golpe militar de 1964. A partir dali, a felicidade passou a estar, sempre, ligada à angústia. “Sou um homem triste”, ele escreveu em carta a um amigo, “sinto que sou um homem destinado à latrina”. A fúria vanguardista e a realidade vazia se alternavam à sua frente, ou eram o avesso e o direito de uma mesma experiência. Torquato tinha o porte de um anjo. Aos 21 anos, muito magro, estava com 1,74 metro, mas pesava só 60 quilos. “Eu lembro dele como um sujeito inquieto, muito agitado e algumas vezes dispersivo”, diz ao biógrafo o compositor Edu Lobo.

Era um radical, cada vez mais aferrado a seus preceitos estéticos, atitude expressa em frases assim: “Não se pode matar o príncipe e deixar vivo o princípio”. Como o regime militar também se radicalizava, porém, as vanguardas terminaram partidas ao meio. De um lado, ficaram os engajados, como o poeta José Carlos Capinam; de outros, os alternativos, como Torquato. “Era o momento da ruptura, o ponto extremo da forquilha, quando cada grupo deveria procurar o seu canto no ringue”, diz Vaz, resumindo aqueles tempos.

Nesse turbilhão, surge a Tropicália, movimento que não desejava aderir “nem à MPB pura, nem ao ié-ié-ié”. O ideal dos tropicalistas não podia ser mais ambicioso: buscavam uma mudança radical nos valores. “Eu sou como eu sou/ pronome/ pessoal intransferível/ do homem que iniciei/ na medida do impossível”. O impossível era tudo o que pediam. Contudo, o marco do movimento tropicalista, alerta Toninho Vaz, não está na música, mas em uma exposição do artista Hélio Oiticica, realizada em abril de 1967, no MAM. Ela se baseava nos princípios de um manifesto, assinado pelo pintor, chamado “Nova Objetividade”. O crítico Mario Pedrosa resumiu assim a caótica doutrina: “um exercício experimental da liberdade”. Torquato, em particular, tinha obsessão em se livrar do já feito, para chegar ao osso das coisas e, como dizia, à verdade. “Assim como Oswald de Andrade, ele tentava enunciar quatro verdades em três linhas”, diz Vaz. “Estava nascendo o mito do escriba maldito e destemido, empunhando a pena justiceira e, mais uma vez, destoando o coro dos contentes”, diz o biógrafo. Como num filme de Luis Buñuel, cineasta na moda, surgia um anjo exterminador.

Um péssimo presságioTorquato se batia, ferozmente, contra a ditadura, contra a indústria fonográfica, contra o conformismo, contra a arte engajada e “inocente” de um Geraldo Vandré. Mas não parava de beber e de se drogar. “Analisando hoje, posso ver como ele se autodestruía”, recorda o empresário Guilherme Araújo. Com a quilométrica letra de “Geléia geral”, que seria transformada em hino do Tropicalismo, Torquato consegue fixar os princípios de suas idéias rebeldes. Aquela letra, no dizer de outro poeta, Paulo Leminski, já apontava para o “poeta das elipses desconcertantes, dos inesperados curto-circuitos, mestre da sintaxe descontínua, que caracteriza a modernidade”.

Em 1968, o ano das grandes convulsões sociais, Torquato, com sua altivez de aristocrata - como observou Zé Celso - apresenta uma perturbadora, e de certo modo humilde, definição do Tropicalismo: “a ausência de consciência da tragédia em plena tragédia”. Em um artigo no suplemento “O Sol”, sem disfarçar a postura de guru, ele escala a nobreza da Tropicália. Zé Celso seria o papa, Chacrinha o gênio, Gilda de Abreu a musa, e Nelson Rodrigues ninguém menos que deus.Se havia obstinação e exagero, havia também desesperança e melancolia. “No fundo, é uma brincadeira total”, o poeta escreve em outro artigo, expondo seu pessimismo crônico. “A moda não deve pegar, os ídolos continuarão sendo os mesmos.” Cabelos compridos, roupas ao estilo hippie e uma invejável bagagem artística, Torquato parecia então, nas palavras de Gilberto Gil, “um daqueles meninos de Buñuel, devotos de Lourdes, ou de Fátima”. A busca radical o aproximava da santidade.

Chegaria o momento em que, depois de um desentendimento doloroso com Caetano Veloso, Torquato começou a se afastar da Tropicália. Veio a Passeata dos Cem Mil, a peça “Roda Viva”, a agitação nas ruas, e a paisagem se radicalizou ainda mais. Torquato ainda tentava resistir, mesmo em atos isolados, como quando dirigiu o especial “Vida, paixão e banana do Tropicalismo” para a TV Globo. No elenco, o cantor Vicente Celestino se aborreceu quando, numa seqüência em que se evocava a Santa Ceia, com Gilberto Gil como Jesus Cristo, o pão sagrado foi substituído por uma banana. Ofendido, Celestino abandonou o teatro das gravações, entrou num táxi e desapareceu na cidade. “Horas depois, ele morria de infarto num quarto do hotel Normandie, onde estava morando”, relata Vaz. Era um péssimo presságio.

Quando o AI-5 foi decretado, Torquato estava a salvo em um cargueiro dos correios britânicos, atravessando o Atlântico, a caminho da Europa. “Vou embora porque alguma coisa vai explodir por aqui”, ele disse aos amigos que o levaram ao porto. Estava certo. Logo depois, Caetano e Gil seriam presos, teriam cabelos e barba raspados, se tornando mártires da resistência cultural. Torquato, por sua vez, viveu uma difícil temporada em Londres, onde a mulher, Ana, foi encontrá-lo. De Londres, mudou-se para Paris. Passaria, ao todo, um ano na Europa. Quando retornou enfim ao Brasil, já no início de 1970, o país era outro. E ele também. “Seu aspecto físico também era outro”, recorda Toninho Vaz. “Ele estava, digamos, mais louco, cabeludo e atrevido - para não dizer agressivo e afetado.” Tempos depois, na luta contra a depressão cada vez mais intensa, o poeta se internou no sanatório do Engenho de Dentro, o mesmo que projetou a imagem da dra. Nise da Silveira. Na ala masculina, ao lado de 35 pacientes, foi tratado com doses fortes do calmante Mutabon D. Via-se, provavelmente, como um Antonin Artaud dos trópicos.

Em seus perturbadores diários de manicômio, ele expõe idéias assim: “Deus está solto e foi Caetano quem gritou primeiro. Posso reconhecê-lo em seus disfarces.” Discretamente, ou em prontuários particulares, os médicos falavam em “esquizofrenia”. Quando enfim terminou a internação, Torquato resolveu viajar para uma temporada de repouso em Teresina, que duraria três meses. Já não seria o bastante. Nada mais bastava.De volta ao Rio, o cineasta Ivan Cardoso o escalou para o elenco de “Nosferato”, um longa-metragem em Super 8. Torquato seria o próprio Nosferato. “Ele tinha muita identificação com os vampiros, não gostava de claridade e era elegante como um conde da nobreza”, justificou, mais tarde, o cineasta. Sempre desassossegado, Torquato Neto ainda tramaria o lendário almanaque “Navilouca”, que teve um único número. Foi o último clarão, logo depois o desejo de morte venceria.

 

03 maio, 2005

Edgard - um conto
Por Fran Pacheco

Preso no engarrafamento de volta para casa, Edgard decidiu relaxar e ouvir um CD. Descobriu que a mulher trocara o disquinho de Jazz (“The Very Best of John Coltrane”) pelo “A Bíblia na Voz de Cid Moreira – Vol. XIX”. Tudo bem que Cid falasse ex cathedra, com conhecimento ao vivo dos acontecimentos narrados, mas aquela voz tonitruante – plena de eco e vibrattos de estúdio – soou para Edgard como todo o poder e a fúria de Jeová contra algo que ele, pobre Edgard, fizera mas ainda não confessara a si próprio. O mais desconfortante para o pecador Edgard era a sensação iminente de que, no meio do Deuteronômio, Cid fosse tascar um “Mister M, você é mesmo espada!”. Edgard, perdido na vida, moralmente esmagado pelo vozeirão do homem com o maior saldo de FGTS do país, desligou o CD e buscou abrigo em Sodoma e Gomorra – aqui representadas pela Voz do Brasil.

Chegando ao lar, Edgard, completamente chapado pela superexposição aos discursos parlamentares, decide ver o Jornal Nacional. Não que ele procurasse por mais Brasília ou pelo espectro zombeteiro de Cid em algum desvão do cenário futurista. Edgard queria ver gols. Nada de política, não, nunca mais. Só futebol, que é o Grande Nada, a irrelevância em chuteiras, um vício contraído antes da idade da razão, mas que para Edgard era algo bom e que o fazia sentir-se bem.

“A seguir os gols da rodada. Voltamos em trinta minutos, após a propaganda partidária obrigatória.”

Edgard mal teve forças para se levantar do puff em que estava refestelado. Por suas pupilas entraram, implacáveis, imagens promocionais do PTB, o decano das agremiações fisiologistas do país. Há poucos dias o mesmo Edgard fora exposto a trinta minutos de PFL, o sumidouro moral da nação. E, pouco antes, a um partido nanico capitaneado pelo macabro Dr. Mangabeira. Mas era o PTB quem dominava os sentidos do imóvel Edgard. “Conheço esse papagaio-de-pirata que está sorrindo no meio dos caboclinhos e puxando o saco do governador”, tremeu-se. Era o “Colecionador”, assim chamado por seu invejável acervo de CPFs. “Ele está a apenas um testículo de distância do Governo!”

Edgard, enojado, desviou o olhar para a janela. Carlos Lacerda estava lá, aboletado no parapeito, resmungando “chem-chem”, espanando as pequenas asas pretas. Edgard, tomado pelo horror, tentou chamar pela esposa, “Sônia, Sônia!”, mas a língua já estava enrolada. Incapaz de fechar os olhos, seu derradeiro movimento voluntário foi em direção à TV. Não conseguiu mais desviar o olhar daquela propaganda política. Ouviu apenas o corvo Lacerda crocitar a sentença fatal:

“Libertar-se-á de nós nunca mais. Nunca mais. Nunca mais...”

 

02 maio, 2005

Sabedoria do Além (LXXXVIII)
Por Fran Pacheco

"Todo homem de bom senso aceita o mundo como ele é. Só os loucos tentam reformar o mundo. Portanto, todo progresso depende dos loucos."
Jorge Bernardo Shaw, um irlandês das antigas.