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28 janeiro, 2007

O homem que fazia pular
Por Fran Pacheco

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Talvez você não tenha ouvido falar de Philippe Halsman. Pois saiba que boa parte das lembranças visuais que você tem do século XX foram clicadas por este cidadão. Imagens canônicas de Albert Einstein, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Salvador Dalí, Sinatra, que se rendessem um IPTU mental cobrado da humanidade, deixaria os herdeiros de Halsman milhardários. Mas além de recordista absoluto de capas (101) da fase áurea da Life e de produzir instantênos de assombrosa maestria técnica (sem a muleta mágica do Photoshop), como o Dali atomicus aí em cima, Halsman possuia um inusitado dom: fazia qualquer um dar pulinhos diante de sua câmera. Qualquer um mesmo.

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Marylin (pulando ao lado do dito cujo), Groucho Marx, Jerry Lewis & Dean Martin, além de outros membros do showbizz ainda vá... artistas são destravados por natureza e por força do métier. Mas que outro fotógrafo teria conseguido a proeza de convencer o símbolo máximo da caretice e da falta graça, Richard Nixon, a se prestar ao ridículo de saltitar (e dando a constrangedora impressão de estar batendo as asinhas!) – sabendo que teria a presepada estampada numa das revistas de maior circulação da planeta?

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Tudo começou ao final de um recatado ensaio no palácio da família Ford, em alusão aos 50 anos da companhia. Bastou uma relaxante e desinibidora birita oferecida pela anfitriã, Mrs. Edsel Ford, para Halsman surpreender a si mesmo, perguntando na maior caradura se a coroa não toparia pular para a câmera. “De salto alto e tudo?”, ela perguntou – pelo visto mais “alegre” que o próprio fotógrafo. Em seguida, devidamente descalça, deu uma levitada básica. No que foi prontamente seguida pela nora, Mrs. Henry Ford II e pelo todo-poderoso filhinho-de-papai, Mr. Henry Ford II (fordinho). Quando Halsman deu por si, lá estava um dos mais poderosos clãs da América bancando os cangurus desengonçados.

Halsman tomou gosto pela coisa passou a fechar todos os seus ensaios com uma jam session saltitante. Virou sua marca registrada. Embora provavelmente fizesse isso por pura sacanagem (além da imensa conquista pessoal de fazer o Duque de Windsor bancar uma serelepe pulga) ele afirmava ter se especializado na “ciência do pulo” (jumpology). Como sabemos, o ser humano, esse fingidor, usa uma tremenda máscara na hora de ser retratado. Mas na hora de pular - naquele “momento decisivo” de que tanto falava o Cartier-Bresson - absorto com o inusitado do ato em si, a máscara cai e o elemento se revela. (Pra quem sempre desconfiou que Nixon fosse um rematado bundão, a prova cabal taí em cima). Quantos sacripantas não poderiam ser desmascarados pelo uso extensivo do método?

Infelizmente, Halsman foi cobrir os eventos do além-túmulo em 79 e parece não ter deixado muitos seguidores. A ordem do dia é retratar os neo-bilionários da Internet descalços sobre a mesa, fazendo macaquices com laptops etc – aberração que só reforça o clichet dos “gênios excêntricos” (a propósito, aquela foto do Einstein mostrando a língua não é do Halsman). Sem a Rolleyflex de Halsman por perto, só nos resta conjecturar que recônditos segredos o gênero humano esconde por trás de tanto botox.

 

A última do Roniquito (a última mesmo)
Por Fran Pacheco

A barra já estava pesadíssima em 68, o tempo fechando de vez, Márcio Moreira Alves perguntara em plenário: “quando o Exército deixará de ser um valhacouto de torturadores?”. E no olho do furacão, Roniquito, bêbado até dizer chega, abordou o ditador de plantão, General Arthur da Costa e Silva, numa recepção no Museu de Arte Moderna (MAM). Antes, como de praxe, tinha tomado todas e um poquito más, a título de breakfast com um adido americano, a quem estava ciceroneando pelo Rio (Roniquito era, como se diz em português corrente, well-connected).

Pois o Generalíssimo adentrou ruminante, cercado de meganhas descuidados e topou de frente com o enorme queixo do Roniquito, que com um cigarro apagado espetado entre os lábios, segurou o caudilho pelos ombros e tascou, com aquele hálito escocês: “Tem fogo aí, ô mariscal benefactor?”. Os guarda-costas não entenderam muito bem (Costa e Silva, com seu QI de protocordado, não entendeu nada). Por via das dúvidas, agarraram aquela “ameaça subversiva em potencial” e começaram ali mesmo a descer o sarrafo. O adido americano, igualmente cheio do aço, pensou que era um assalto – e com aquela valentia típica de quem não pode mais fazer um quatro, se esparramou por cima dos malfeitores, gritando pastosamente “Que porra é essa? Que porra é essa?!” – em inglês, evidentemente.

Arrastados pra delegacia mais próxima, os pés-inchados começaram a ser interrogados. O americano, caindo em si e obrando-se de medo, tartamudeava sem parar, querendo dar um telefonema, que aquilo era um lamentável mal-entendido, que contactassem a embaixada etc. Como o delegado não entendia patavinas de inglês, teve a péssima idéia de perguntar ao Roniquito “que que teu amigo gringo ta falando?”. E o Roniquito, sério pacas, embalou: “Pois ele tá dizendo que essa polícia daqui é uma grande bosta! Que vocês tão cagando pros direitos humanos! Que a ditadura de vocês é uma ditadura de merda! Que vocês são um bando de fascitas!”. Emputecido, espumando como uma hiena hidrófoba, o delegado esbravejou “pois esse gringo filho-da-puta vai ver o que é bom pra tosse!” e foi preparando o pau-de-arara. Uma guerra Brasil – EUA nunca esteve tão perto de estourar e só não foi deflagrada porque os contatos de Roniquito no Itamaraty entraram naquele momento na sala e resgataram os bebuns. Costa e Silva continuou não entendendo nada.

Roniquito, por sua vez, continuou aprontando. Diante da preleção de um tecnocrata que se gabava da quantidade de vergalhões produzidos naquele ano, arriou as calças, empinou o traseiro e gritou: “Meu amigo, o cu do povo não agüenta mais tanto vergalhão!”. E para uma grã-fina que vinha toda maravilhada do Theatro Municipal, dizendo que a-do-ra-va Maurice Béjart. “Béjart?”, cortou Roniquito, “Pois eu prefiro Foudet!”

Outra: para um casal de desconhecidos, numa mesa próxima, Roniquito começou a olhar fixo, com um sorrisinho meio safado, e fazer o “V” da vitória com a mão. O casal, constrangido, fez o “V” de volta. Como Roniquito não parava de olhar arregalado e insistia em repetir o gesto, veio o marido perguntar: “Já não chega tanto V da vitória?”. E o Roniquito: “V da vitória o caralho... Tô oferecendo duzentinhos pra comer tua mulher.” – só não foi esfolado vivo porque os garçons já estavam experts em salvar a pele do Roniquito na hora H..

Até quem num dia típico (ou seja, completamente de porre), atravessando a rua em slow-motion para molhar o bico no Antonio´s, Roniquito foi atropelado por um Fusca e voou longe. Diz a lenda que no trajeto, virou para os transeuntes e disparou: “Que é, porra? Nunca viram o Super-Homem?”. Meses depois, arrebentado e nas últimas, reclamava que o Antonio´s era muito, mas muito mal projetado: “Se ficasse do outro lado da rua, eu não tinha sido atropelado, pô!” Queria discutir o assunto a sério com um urbanista. “Arquiteto não. Tem que ser com urbanista!”

Roniquito secou a derradeira moringa no dia 24 de janeiro de 83, aos 45 anos – causando comoção entre a fauna da Zona Sul (como já disse, era amazonense, mas cresceu junto com Ipanema). Foi velado de olhos abertos (ninguém conseguiu fechá-los). Virou mito: cada “causo” tem tantas versões, adereços e plug-ins quantos forem os narradores. Tornou-se até patrono de uma cadeira da Academia Brasileira... da Cachaça. “Roniquto era uma época”, resumiu certeiro Hugo Carvana (aliás, aquele bêbado pentelho do filme Bar esperança é puro Roniquito). E o Jaguar, lembrando seu parceiro de libações e membro fundador da Banda de Ipanema: “nunca pensei que fosse sentir tanta saudade de um cara que vivia esculhambando a gente”. A esculhambação, como bem sabemos, continua. Só perdeu completamente a graça.


 

25 janeiro, 2007

A última do Roniquito
Por Fran Pacheco

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Mr. Quito, no traço do Jaguar: “Sem Roniquto, beber perdeu a graça!”


Faz exatos 24 anos que vocês aí do mundo fenomênico perderam o wit do mais adorável filho da puta* que a boemia carioca já conheceu: “Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de instantes, Roniquito”. Era assim que o respeitável e cavalheiresco economista amazonense Ronald Russel Wallace de Chevalier se anunciava ao adentrar nos butiquins de Ipanema. Dentro de instantes significava dentro de mais ou menos três doses de uísque.

Era o bastante para que, num estalar de dedos, o gentil-homem, articulista culto, multiglota, amante das belles-lettres e de Vivaldi, mentor intelectual de feras como Walter Clark e Mário Henrique Simonsen, cunhador do termo “aspone” (já consta no Houaiss) saisse de cena e desse lugar à sua temível versão etílica: Roniquito (fusão de Ronald com “faniquito”). Era fogo na jaca.

Seu instinto de autopreservação também entrava em standby: O endiabrado esculhambava abertamente a todos (principalmente quem merecia ser esculhambado), sem distinção de patente, porte físico ou do tamanho da horda adversária. Ter sobrevivido a tantos “causos” foi um feito.

Como na vez em que foi coberto de porrada por um brutamontes a quem acabara de enxovalhar no boteco. O grandalhão arrastou o mirrado Roniquito pra calçada, montou nele e com o pé na garganta do desaforado perguntou, cansado de tanto bater: “Já chega ou quer mais?!”. E o Roniquito, arrebentado, mas com uma lógica cristalina: “É claro que já chega, imbecil!”

Noutra começou a menosprezar, em pleno Beco das Garrafas, ninguém menos que o pernambucano Antônio Ninguém me ama, ninguém me quer Maria, também famoso pelo porte avantajado. Até que arrematou, intrépido: “Antônio Maria! Você foi parido por um ânus!”. Foi salvo de ser esganado ali mesmo por um cordão de isolamento. (Consta que depois os dois trêbados começaram a chorar um no ombro do outro, como manda o figurino).

No histórico velório do Zequinha Estelita**, figura querida dos boêmios, Roniquito apareceu completamente chumbado. Ouviu uma choradeira na câmara mortuária ao lado (estavam velando outro defunto) e foi tirar satisfação. Entrou com tudo no velório alheio e disparou: “Olha aqui! O nosso morto é muito melhor! É muito mais bonito! Esse morto de vocês é uma bosta!”. Novamente foi preciso uma intervenção semi-divina para deter o linchamento em curso.

Noutra vez, percebeu quietinho numa mesa do outro lado do bar o escritor Antônio Callado – para azar do autor de Kuarup. “Antônio Calladooo! Antônio Calladooo!”. Constrangido, meio que sacando que estava ferrado, Callado acenou de volta, sem graça. “Antônio Calladooo! Você já leu Faulkner? Já leu Faulkner, Antônio Callado?”. “Já li, sim...”, respondeu baixinho. E ouviu o veredito, bradado a plenos pulmões: “Então já sabe que você é um merda, Antônio Callado!”. Para sorte de Roniquito, além de ser um merda, Antônio Callado não batia.

E pro Fernando Sabino, segurando pelo ombro o futuro autor de Zélia uma paixão: “Fernando Sabino! Quem escreve melhor, Fernando Sabino? Você ou o Nelson Rodrigues?”. E o mineiro, achando que ia se safar: “O Nelson, é claro que o Nelson é muito melhor que eu... claro...”.”Cala essa boca Fernando Sabino! Quem és tu para julgar Nelson Rodrigues?!”

Sobre Ronaldo Bôscoli, era taxativo: “Deixou de ser poeta pra escrever essa merda de barquinho!”

E quando foi apresentado à socialite Vera do Nascimento e Silva: “Prazer”, disse a beldade, “Vera do Nascimento e Silva.” E o Roniquito, embevecido: “Esquina com quê?”

Numa apresentação de um virtuose do violino, em pleno Theatro Municipal lotado, Roniquito ficou tão maravilhado que começou a chorar escandalosamente, a ponto de abafar a melodia. Conduzido gentilmente pra fora, deu meia-volta e se despediu com um berro emocionado: “vai tocar bem assim na puta que pariu!”

Presidentes, Roniquito abordou pelo menos dois. A primeira vítima foi Juscelino, numa recepção. Cheio do aço, Roniquito foi chegando perto: “Juscelinoooo! Juscelinoooo!” Mantendo o sorriso congelado, JK cumprimentou a figura, que foi passando o braço pelos ombros do presidente, na maior intimidade, o copo de uísque on the rocks na outra mão: “Atenção que vai falar o presidente, o presidente vai falar! Jus-ce-li-no, o que você acha, da reforma agrária, Juscelino, da reforma agrária o que você acha...”. E o político tarimbado começou a dar aquela declaração enrolada, vazia, em cima do muro, “é uma questão complexa, delicada...”. Até que Roniquito largou o presidente bossa-nova e foi embora, aos berros: “Chega! Já Chega! Esse presidente não entende por-ra-ne-nhu-ma de reforma agrária!”

O segundo presidente a conhecer a fera foi o generalíssimo Costa e Silva, cercado de meganhas. Mas isso fica pro próximo pileque.


* Que fique bem claro: “filho da puta” aqui vai como exaltação, como quando vemos boquiabertos um drible impossível do Garrincha e dizemos: “olha só o que ele fez... filho da puta!”

** Foi a última vez que serviram birita na cantina da Capela da Real Grandeza. Como diria Lilico, tempo bão não volta mais.


 

Uma contribuição para a Wikipedia
Por Fran Pacheco

Lista de brasileiros que foram considerados incapazes para o serviço militar:

  • Adílio
  • Ataulfo Alves
  • Caetano Veloso
  • Carlos Drummond de Andrade
  • Cartola
  • Dom Helder Câmara
  • Fágner
  • Garrincha
  • Gonzaguinha
  • Grande Otelo
  • Hélio Bicudo
  • Jorge Ben(jor)
  • Lamartine Babo
  • Mário Quintana
  • Millôr Fernandes
  • Nelson Cavaquinho
  • Nelson Ned
  • Ney Matogrosso
  • Noel Rosa
  • Pixinguinha
  • Roberto Carlos

É uma lista com altos e baixos, admito... Mas um país com tantos incapazes assim não pode ser de todo ruim.


 

24 janeiro, 2007

Uma fábula muderna
Por Fran Pacheco

“Meu filho, você já está ficando grandinho, já está com bigodinho e papai quer saber. Diz pra mim: o que você quer ser quando crescer?”
“Quero ser jogador de dominó, papai.”
“Ré, ré... jogador de dominó... sei, mas eu estou falando de profissão, filhão.”
“Jogador de dominó, papai. Já disse.”
“Ahn, eu estou falando sério, meu filho. Quero dizer, que carreira acadêmica você quer seguir? ”
“Quero me especializar em dominó.”
“Ahn... Porra, moleque! Mas que história é essa?! Onde é que você pensa que vai chegar com isso?”
“Bem, papai... se eu só souber jogar dominó, mas jogar pra caramba, e jogar com as pessoas certas... primeiro meus parceiros de mesa vão me nomear Secretário Extraordinário da Prefeitura de Manaus. Depois, Secretário Municipal de Administração, Secretário Municipal de Economia e Finanças, Presidente da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, depois Superintendente da Zona Franca de Manaus, Interventor na Prefeitura de Manaus, Vice-Governador do Amazonas, Secretário de Estado de Administração, Secretário de Estado da Fazenda. Aí que caio nas graças do povão e me elejo duas vezes prefeito de Manô e daí viro Ministro dos Transportes. Quem sabe, papai, eu chegue até a Senador da República, que nem meu ídolo. O cabo Pereira. Aliás, Sua Excelência Senador Cabo Pereira, papai.”
“... Eu nunca tinha pensado nisso antes, meu filho...”
“Mais uma coisa, pai... o senhor me ensina a escolher uns tucumãs de primeira pra eu oferecer pros meus parceiros de mesa? Sabe como é, né papai? Tem que fazer o social...”
“É claro, filhão! Joga, joga fora essas apostilas e vamos pro boteco aplicar uns capotes nos vagabundos. Ah, que orgulho eu vou ter de você, meu estadista!”

MORAL: de pedrinha em pedrinha de dominó é que se faz uma terra de muro baixo.

 

23 janeiro, 2007

E pur si muove!
Por Fran Pacheco

Um dos últimos orgulhos nacionais está ameaçado. Calma, Cocada, não se trata do derrière da Juliana Paes, que vai muito bem, obrigado. Recebo em última mão a notícia de que um laudo do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) constatou indícios acachapantes de fraude nas urnas eletrônicas usadas nas Alagoas, na última eleição.

Não é todo dia que um dogma como o da inviolabilidade da urna brasileira é solapado desse jeito. Isso é coisa para abalar toda uma concepção de mundo, toda uma ferrenha convicção no triunfo supremo da tequinologia tupiniquim.

Vejam o exemplo da fracassada indústria cinematográfica mundial, que investiu milhões de dólares para que o DVD fosse à prova de cópias – e como se sabe um fedelho de 15 anos quebrou o código de segurança dos disquinhos. (O mesmo nerd quebrou dia desses a proteção do Ipod). Já o Bananão arvorava o feito de ter criado o único, sim, o único sistema de informática do mundo imune a fraudes, e estávamos conversados*.

Não se sabe ainda quem são e quantos anos têm os hereges violadores da sacrossanta urna eletrônica. Espera-se pelo menos que sejam maiores de idade, se é que isso serve de consolo (“Tão vendo? Fraudar nossa urna é só pra gente grande!”)

Fica uma lição para os cardeais do TSE: infalível, meus caros, só o Papa**. E olha que ele falha pra chuchu.


(*) Até agora, minha principal restrição à urna eletrônica era a ausência da tecla FDP (“Féla da Puta”) em claro cerceamento à liberdade de expressão do eleitor.

(**) Modestamente não me incluo na lista, pois meu desempenho sexual não está em discussão.


 

21 janeiro, 2007

Reflexões ao cair da tarde II
Por Fran Pacheco

  • OU SE TAPA LOGO aquele buraco do metrô ou a imprensa nacional não sai mais do fundo do poço.
  • QUE O ÚNICO PERDEDOR na eleição da Câmara será você, pobre contribuinte, isso já são favas contadas. A grande questão é a seguinte: se pronuncia Arlindo Xinag’lia, Kinalha ou canalha mesmo?
  • O FUTURO É AGORA, diz o novo slogan do PMDB estadual. Que forma poética de avisar que vão cobrar hoje a fatura que só venceria amanhã.
  • COMEÇOU O PAULISTÃO 2007. Aos poucos o país volta à normalidade institucional.
  • SE VOCÊ OLHAR bem de perto, verá que existe sim, diferença entre as beldades do novo Big Brother: mais ou menos 200 ml entre o menor e o maior silicone.
  • TUDO BEM, há uma série de fatores sócio-político-estruturais que impedem o país de sair do lugar. Mas esse taxímetro rodando em bandeira 2 é sacanagem, pô!
  • A ESPERANÇA é a última que morre? Então deixa ela ser tratada num hospital público pra ver o que é bom pra tosse...
  • ESTATÍSTICO CAXIAS é aquele que, no exato dia em que atinge a expectativa média de vida da população, morre.
  • MAS ESSE PINTOR é um artista naïf ou é retardado mesmo?
  • SE VOCÊ OLHAR bem de perto, verá que existe sim, diferença entre os presidentes da América do Sul: a mesma que separa os cretinos dos imbecis.
  • PERALÁ, então se até Bolívia já foi convidada pro Mercosul, só falta agora convidarem o Pedro de Lara.
  • VOCÊ SE PERGUNTA: por que os parlamentares querem 91% aumento? Eu respondo: por que 100% de aumento fica muito na cara que é sacanagem. Daí esse misterioso, assimétrico, guenzo 91% – assim fora do prumo, com unzinho por cento a mais na rebarba, pra não ficar um 90% redondão, arbitrário, indecente. Número redondo, crianças, leva jeito de ser sério não: sobre ele recairá sempre a suspeita de ter nascido sob o signo da acochambração. Vejam o orçamento de qualquer obra bilionária: desce até aos centavos. O superfaturamento é o mesmo, mas aqueles centavos na ponta direita deixam tudo com um ar muito mais, digamos, científico. (“Porra, se calcularam até os pregos da hidroeletétrica, só podem ser gente de bem!”) Outro dia pegaram um matador de aluguel com o comprovante de depósito bancário da encomenda do crime: R$ 21.246,16. Que profissionalismo, que seriedade na mensuração das custas homicidas, né não? Esse pessoal, empreiteiros, matadores, parlamentares, anda sacando muito da psicologia dos números. Quanto mais quebrado, melhor pra eles. Pior pra você.
  • EPITÁFIO: “I want to be alone, seus vermes!”

 

20 janeiro, 2007

Pequeño balanço final do encontro de cúpula do Mercosul
Por Fran Pacheco

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Um Bloco de Sujos, por supuesto, mas ainda assim um Bloco.

Ufa! Acabou. Foram embora, picaram a mula. Chávez, Evo, Kirchner, L. Inácio, o exército verde-oliva, todos “los amigos” foram rosetar em outras freguesias (no caso dos sátrapas) ou voltaram à rotina de pintar as paredes da Vila Militar (no caso das tropas de elite). Melhor assim. Com tantas vocações para a lambança concentradas no mesmo perímetro urbano, o bolerão podia desandar a qualquer momento.

De qualquer forma, o Merdosul é uma entidade boiando por aí – e não serve apenas para facilitar a invasão das praias catarinenses pelas hordas de hermanitos ou aquela invernada em conta dos macaquitos em Bariloche. O Merdosul existe e é contagioso, pois até a Venezuela e a Bolívia (que embora Merdo, não são propriamente Sul) embarcaram nessa.

O resultado disso tudo, longe de ser insípido, incolor e inodoro, não poderia ser mais mal-cheiroso. Parafraseando aquele cidadão, Winstão Churchill: “da Patagônia até a Isla Marguerita, com escala na 25 de Março, uma grande cortina de teatro mambembe cerrou-se sobre o continente”. Do sultanato chavista da Venezuela à terra del panelaço, vai se consolidando um novo bloco geo-político-carnavalesco: o Eixo dos Malas.

Só não entendo como este tema ainda não foi aproveitado em nenhuma escola de Samba (ninguém no Brasil pode se considerar plenamente realizado se ainda não virou samba-enredo). Atento a isso, Chavez, com sua habitual presciência (já tem planos até 2020) brilhou dia desses na Sapucaí. Em matéria de propaganda (no sentido e sotaque goebbeliano do termo) Chavez leva vantagem de vários corpos sobre os demais pangarés do blocão.

Mas deixemos a sacanagem de lado: não se pode negar a importância da Integración. Nem que seja a fusão dos bolsões de miséria, do know-how em matéria de paternalismo, demagogia, clientelismo, burrocracia, nepotismo, aparelhamento, coronelismo e fisiologismo. Já que para todos esses produtos típicos da região haverá livre circulação, já que escavaremos uma trincheira comunitária contra a chegada do Séc. XXI, que pelo menos o Brasil deixe gravado nessa guarânia o legado de sua cultura. Se a integración é inevitável, franguita, relaxa e goza. Chavez será o Cabeção, mas o jeitinho brasileño nossa moeda comum.


 

O clube reabriu? Badalemos pois
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista

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Hedôzinha já não via a hora de aplicar sua chibatinha do amor no Cecezinho e no Fran Pacheco.

Estoooooou de vooooolta pro meu aconcheeeeego... Trazeeeendo nas pregas bastante saaaauuuudade... Quereeeendo um sorriso sinceeeero, um abraço... Para aliviaaaaar meu cansaço... E toooooda essa minha vontaaaaade... Que boooom, Fran, poder estaaar contiiiigo de nooooovo... Roçaaaando meu coooorpo e beiiiiijando você... Pra mim tu és a estreeeela mais liiiiinda... Teus oooolhos me preeendem, fasciiiiinam... Na paaaaz que eu gooooosto de ter... É duuuuuro ficar sem você veeeez em quaaaando... Parece que faaaaalta um pedaaaaço de mim... Me aleeeegro na hoooora de regreeeeessar... Pareeeeece que vou meeeergulhar... Na felicidaaaade sem fiiiim... Ah, gozei... Mulher de Aquário né?... Apressaaada... Pois é, fofitos, I’m back again!... Chuvinha... Friozinho... Dia nubladito... Vocês vão ficar recolhiditos em casa com seus friends, jogando Banco Imobiliário. Certo? Erraaaaado!!! Paaaaarem já com essa coisita down, fofitos!!! Ninguém aqui é galo português pra ficar mudando de acordo com o tempo! Aproveita o friozito... Coloca um modelito tuuuuudo... e... Wake to the music! Agora... O modelito é só pra chegada no place. Everybody knows que quanto a dança começa... vai subindo aquele calor... aqueeeeele calor ( Hello! Estamos em Maneaux City!) e se você não estiver beeeem a vontade... fica difícil ferver na pista! Chegue na pista liiiiinda... Dê uma desfilada básica... Uma pinta... Um rápido blá blá blá com a s bibetes friends... meio pivô e ...vá pra chapelaria! Agora... verifique se o place tem uma chapelaria! Fofito-cabide no meio da pista é wrong wrong wrong!!! Volte linda-loura-transformada... mostrando quaaaase tudito (um segredito sempre é bom) e daaaaance... beije na booooca... e seja feliz! Não beijou na boca? Tuuuudo bem!!! Você se divertiu, viu amiguitos... celebrou a life! Então, Agnetha... desliga a vitrolinha com "The Winner Takes It All" do Abba e vá pensando no modelito! Faça acontecer, now! Estou de volta, fofitos!... E vaaamos agitar o bordel!!!

Beijitos no heart!


 

Volta, Irmão Paulo: você está fazendo muita falta!
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

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A grande vantagem de ser amigo do Irmão Paulo é que você aprende e se diverte ao mesmo tempo enquanto desfruta da companhia de um perfeito gentleman, de um homem fino e afetuoso, e testemunha a trajetória de uma das últimas grandes personalidades do jornalismo brasileiro.

Irmão Paulo é como Nelson Rodrigues, Glauber Rocha e outros raros titãs que deram graça, brilho, audácia e inteligência a sua vida e obra, enriquecendo nossa pobre e provinciana vida cultural com a chama da polêmica e da controvérsia - sempre. Até que o tempo acaba por lhes dar razão. Mas aí não tem mais graça, já é História.

Assim como Nelson e Glauber (com quem também tive a graça da convivência e do afeto) Irmão Paulo é sempre surpreendente e contraditório, livre e independente, atrevido e corajoso na riqueza de sua visão da vida e do tempo. E, como eles, naturalmente pouco compreendido.

Porque não respeita modas e ondas, escolas e tendências, palavras de ordem e lideranças do momento. Porque é um original e, como eles, criou e desenvolveu seu próprio personagem, cheio de conflitos e nuances, pleno de luz e sombra, em permanente transformação.

É múltiplo de si mesmo e, como eles, não deixa herdeiros e continuadores: é único e com ele acaba sua linhagem. E basta ler jornais no Brasil para saber disso. Mesmo não gostando dele.

Como Glauber e Nelson, muitas vezes Irmão Paulo é odiado e invejado, principalmente pelo que não é e pelo que não diz e não faz. Por ignorância e ressentimento.

É claro que não concordo com tudo que ele diz: nem ele mesmo concorda. Mas aprendo sempre, nem que seja por contraste. Principalmente porque sou um homem de fé, um sentimental, um otimista alegre que insiste em viver delicadamente - em direta oposição às características básicas de sua personalidade, da agressividade e racionalidade de seu estilo e atuação. O que não nos impede, pelo contrário, estimula, uma convivência amiga, afetuosa e respeitosa.

É assim que ele gosta, que gostaria que fosse, acho eu: que as pessoas pudessem discutir e confrontar suas opiniões sem rancor nem ressentimento, sem ódio e sem medo, com sinceridade e humor. Porque sabe também que nada é tão sério assim, que o mundo de horrores, vulgaridade e baixaria em que vivemos não pode ser levado tão a sério - e assim tornar-se ainda mais insuportável para qualquer pessoa com um pingo de consciência e sensibilidade.

Estranho que tantos não percebam uma de suas maiores qualidades que é o humor. Que não se divirtam com a sua ironia, que o leiam literalmente e o odeiem pelo seu avesso. Waaal. Ele não é tão sério assim, ninguém seria, sabendo o que ele sabe.

Relendo pela milésima vez seu livro "Waaal - Dicionário da Corte", tudo isso fica muito mais claro. Está tudo lá, vinte anos de "boutades" e sacadas, de descobertas e desilusões, de graças e desgraças, de deslumbramento e horror.

Daquele seu jeito ao mesmo tempo áspero e elegante, delicado (com música, pintura, balé, cinema, literatura) e contundente (com política e políticos, líderes e liderados), verbetes que se lê sempre com prazer e clareza, mesmo quando não se concorda com seu ponto de vista.

Além disso, o livro é um precioso guia cultural, riquíssimo em informações e reflexões sobre grandes artistas que podem trazer emoção e alegria aos olhos, ouvidos, coração e mente com suas criações. E Irmão Paulo os explica com paixão e gratidão, com conhecimento e reconhecimento, com inteligência e amor.

Claro, toda seleção é de certo modo arbitrária, e assim lá não estão algumas de suas idéias de que mais gosto, como as crianças - mais que os operários, os negros e as mulheres - como os grandes oprimidos, os proletários do mundo.

Porque mesmo as crianças ricas, em qualquer tempo e lugar, são sempre oprimidas e reprimidas. E como adoro crianças, principalmente as dos outros, simpatizo com essa idéia generosa. De alguém que não tem filhos.

Mas está lá uma de minhas favoritas: "Tudo que é científico termina furado. Podem chamar de Teorema do Irmão Paulo."

E, mais divertida, sobre a morte: "Se houver outra vida e eu tiver alguma mobilidade, prometo levar meu ectoplasma para Brasília e infernizar essa canaille."

Volta, Irmão Paulo! Você não é beque de subúrbio, mas está fazendo muita falta!


 

Sapoti pra todos nós
Por Torquato Piauí

Photobucket - Video and Image HostingNa Igreja Batista do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, em 1950, Abelim Maria da Cunha era a primeira voz do coro. O reverendo Albertino Coutinho da Cunha, pastor da igreja, gostava da voz da filha. Todos os seus filhos cantavam durante os cultos religiosos. Mas a voz de Abelim era a mais ouvida.

Depois, quase um escândalo na família. Abelim cantando “músicas profanas” em programas de calouros. Ela estava cansada de trabalhar em uma fábrica, inspecionando lâmpadas. Estava cansada do salário baixo – 600 cruzeiros velhos por mês, e ainda ter de ir a escola, à noite, lá mesmo no Estácio. Ela queria ser cantora de rádio, fazer sucesso. Queria ser Dalva de Oliveira.

Ganhava todos os programas de calouros. Mas ninguém queria contratá-la. Era a cópia da Dalva de Oliveira. E isso ela também já não agüentava, estava cansada de ouvir: “Você só ganha prêmios em programas de calouros porque imita Dalva de Oliveira e o público gosta. Sinto muito, prefiro o original”.

Um dia, como nas novelas, Abelim começou a ser Ângela, cantora profissional. Foi ser crooner do Dancing Avenida, largou escola, fábrica, igreja, deixou tudo pra ganhar a “fortuna” de três mil cruzeiros velhos por mês.

E três meses depois, Ângela Maria esqueceu a letra, saiu do ritmo e, quase chorando, cantou “Fuga”, um samba-canção de Renato de Oliveira, no seu primeiro programa como artista exclusiva da Rádio Mairink Veiga.

Teve o prazo de uma semana para criar um repertório próprio e deixar de imitar Dalva de Oliveira. Pensou que ia perder o emprego e todo o dinheiro que ia ganhar: 4 mil cruzeiros velhos por mês.

Daí em diante, o sucesso. Músicas que marcaram época. O apelido “Sapoti”, dado pelo Presidente Getúlio Vargas. Charuto na boca, sentado no jardim de uma mansão de um milionário carioca, Getúlio olhou para Ângela e disse: “Menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti”.

Os tempos passaram, Ângela foi ficando esquecida, embora tenha sempre mantido o seu público. Mesmo não estando nas paradas de sucesso, sempre foi uma das cantoras que mais venderam e vendem discos no Brasil.

Um dia, passei na Rua Major Sertório, em São Paulo, e ouvi uma voz cantando “Babalu”. Era Ângela Maria. Essa música ela é obrigada a cantar porque para alguns é um teste. Querem ver se a voz de Ângela mudou. Entrei na boate. Perguntei a Ângela porque estava cantando ali. E ela: “Por que? Não canto pra bacana. Bacana não compra disco.”

Uma pesquisa mostrou que Ângela é a cantora mais popular do Brasil. Agora os “bacanas” é que procuram ouvi-la. Apesar de ser chamada de cafona. Mas Ângela não liga pra isso. Ela sabe que tem voz. E que não é mais a de Dalva ou de qualquer outra cantora. É de Ângela Maria. E essa voz influenciou muita gente. Uma das vozes mais bonitas do Brasil.

E é em companhia dessa voz que vou passar o carnaval no Rio de Janeiro. Podes crer: vai ser da pesadíssima. Pronto. Acabou.


 

19 janeiro, 2007

Flanando em Salvador
Por Wally Sailormoon

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A gente luta, luta, luta, labuta, entretanto, O DIA DO LABOR é um estágio avançado de conjugação da Ética do Protestantismo – Sacco e Vanzetti que o digam – que resulta sem pé nem cabeça no País do Bicho-Preguiça, fundado pela Contra-Reforma e infenso ao Renascimento. Deixa o home vadiar, ora, pois, pois.

Qual o que, longe de mim ofender Portugal, tecnologia de ponta das grandes descobertas, a Escola de Sagres (A Nasa dos séculos XV e XVI), a promessa do Quinto Império, a grandeza utópica da volta de Dom Sebastião. Mesmo que seja disfarçado de torneiro mecânico, ninguém é tão exigente assim. Tristes trópicos.

Aqui desta província ultramarina na Baixada do Pelô, eu, estopim e dinamite, cultivador do eu mínimo, meu nome é todos e ninguém (onde andará o resto da turma?), prego um pinote na alimária e me mando para a Quinta do Tanque ainda a tempo de urubuservar o Padre Antônio Vieira, o imperador da Língua Portuguesa em pessoa, despejar um balde repleto de estalos e lábias e água benta em cima dos gentios lambuzados de urucum do bloco Apaches do Tororó.

Depois resolvo dar uma chegada na Rua da Cabeça a fim de palestrar com o esqueleto do meu amigo – poeta Pedro Militão Kilkerry – o homem dos olhos de raio X – e fico estupefacto e tartamudo pois encontro-o a descascar o muro magro defronte ao Anjo Azul.

Compro uma esfiha e caldo de cana gigante e guio meus passos para o Terreiro de Jesus, para mandar essas mal traçadas ao doce Fran Pacheco, mas á altura da Misericórdia sou barrado pelo picareta que atende pela alcunha de Boca de Brasa que me cospe seu tabuleiro inteiro de ditados e parlendas e anexins mas no final só gravei um único: “Em casa come baleia, na rua entoja manjares.”

Fujo dele que me escancara a cidade de sal como se fora Sodoma e Gomorra.

Sujo de suor, ócio, comércio de escravos, ufa!, que azáfama este dia me proporcionou. Que belo negócio foi elevar um presépio e um plano inclinado sobre esta colina.

Distam trinta dias ainda para a confusão do Entrudo. Eparrei!


 

18 janeiro, 2007

Os monstros somos nós
Por Fran Pacheco

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Nunca houve e provavelmente não haverá mais um filme de horror como Freaks (1932). Monstros, como é desconhecido por aqui, ou Parada de Monstros na terrinha, nunca foi lançado em circuto por estas bandas, a não ser (sugestivamente) mutilado, desmembrado e retalhado, no meio de antologias do gênero.

Esta pièce-de-resistance do mestre do terror Tod Browning – que já dirigira as perversidades de Lon Chaney e no ano anterior consagrara Belão Lugosi em Drácula – é o filme maldito por excelência. Talvez “o” filme maldito. Freaks ficou apenas alguns dias em cartaz – em verdade o mais incrível é que tenha conseguido estrear, e sob o prestigioso selo da MGM.

Monstros foi a grande aposta fracassada do arrojado produtor Irving Thalberg para desbancar do topo das bilheterias as critaturas da rival Universal (algumas que o mesmo Browning ajudara a criar). O fato é que em sua curtíssima temporada o filme sofreu toda sorte de corte, reedição, edulcoramento, protestos das ligas de decência, boicote, censura, até ser considerado um caso perdido pelo chefão da Metro, Louis B. Mayer, e ser despachado para o limbo, arrastando consigo a então prestigiosa carreira do excêntrico Browning.

Mas que se abram as cortinas. O público é avisado logo de cara que não haverá truques. Nada de criaturas mecânicas como em King Kong. Nada de Max Factor, o maquilador oficial de Boris Karloff em A Múmia. Nada de vampiros com pó-de-arroz e batom, lobisomens com apliques, boitatás, chupa-cabras e o diabo a quatro. O inferno é logo aqui, e estamos diante de uma espécie de sucursal do Circo de Horrores do infame P.T. Barnum – e que deixaria o próprio babando. Só com seres reais, “que vivem e respiram”, conforme o apresentador. Mas que, a não ser por alguns acidentes de nascença, poderiam ser como você.

Com o perdão da licença poética, o dream-team escalado para o pesadelo definitivo de Browning era formado pelos maiores astros do meio, a maioria interpretando a si próprios: Um sortimento de anões acondroplásicos e pituitários. Três microcéfalos – duas mulheres e um homem, Schilitzie, travestido para facilitar-lhe a higiene – todos com o crânio um pouco maior que um punho cerrado. Todos retardados mentais. Um homem-esqueleto de deixar no chinelo qualquer anoréxica (se tiver 30 quilos é muito). Na vida real, o valente era casado com uma mulher de 240 quilos, uma jogada de marketing bastante difundida. Uma mulher deformada, com aparência de ave, que dança a caráter na cerimônia de bodas entre os freaks – cena citada por Bertolucci em Os Sonhadores. Um(a) hermafrodita, ainda que não se possa ter muita certeza. Uma mulher barbada, mal-encarada, por sinal grávida – e que vem dar à luz durante o filme. Duas irmãs siamesas fundidas pelo quadril e que têm sempre os mesmos sentimentos. Um altivo homem-tronco, cujo corpo termina abruptamente logo abaixo das costelas; Para rebater, uma mulher sem braços.

E o mais perturbador de todos, um certo Príncipe Randian, o Homem-Lagarta, veterano do staff de Barnum. O príncipe resumia-se a uma cabeça hindu, com forte sotaque (mal dá pra entender sua única fala), unida a um tronco apertado em panos, desprovido de qualquer membro, porém capaz de preparar e acender o próprio cigarrinho de palha, só com a boca (na vida real Randian era mulherengo e tinha filhos).

Em verdade os freaks são os heróis da história. Os sórdidos vilões são os membros “normais” e belos da trupe: a dançarina voluptuosa e o halterofilista cafajeste. A dupla decide aplicar um golpe do baú no anão Hans, herdeiro de uma bolada. É claro que o pequeno otário se empolga com a lábia da beldade e contrai matrimônio, num regabofe onde os demais freaks a aceitam no seio do grupo, brindando: “One of us! One of us!”

Em plena lua-de-mel, a víbora não só aplica um reluzente par de corninhos na testa do marido como começa a envenenar o diminuto cônjuge em doses nada homeopáticas. Até que os freaks descobrem a torpe armação e decidem tirar a história a limpo. Nos letreiros de abertura, Browning já tinha avisado que entre os freaks valia o “mexeu com um, mexeu com todos” (olha aí o universal espírito de corpo).

Na excepcional catarse final, o enfezada trupe persegue a golpista e o amante, sob uma torrencial tempestade elétrica – os corpos, deformados ou não, misturando-se à lama e ao musgo. O halterofilista é trucidado (na versão preliminar, para testes, o biltre era emasculado e terminava seus dias... cantando em falsete!). Já a dançarina leva a pior. É desfigurada e desmembrada pelos freaks e termina “fisicamente” como um deles (“One of us! One of us!”). Convertida numa espécie de mulher-pato, exibida meio que a contragosto, num chiqueiro.

Exploração? Pode ser, ainda que no documentário que acompanha o DVD só a mulher-barbada solte os cachorros contra a produção. Os demais sobreviventes (alguns chegaram até os 80 e poucos anos) encaravam tudo como um job a mais (talvez sem muita opção). Todos eram amigos ou conhecidos de Browning, ele próprio egresso dos picadeiros, mafuás e “sideshows” de antanho. Todos estavam ali talvez não tanto para nos chocar ou nos comover (seria interessante ver a reação de uma platéia contemporânea) mas para expor, através de suas deformidades, a singela moralidade (afinal, é uma fábula) à luz da projeção: os monstros somos nós, do outro lado da jaula.

(Artigo nunca publicado na Cahiers du Cinema)


 

13 janeiro, 2007

Reflexões ao cair da tarde
Por Fran Pacheco

  • APESAR DA BARRA PESADA, não abro mão de ser brasileiro. Mas um adicional de periculosidade bem que vinha a calhar.
  • NUM PAÍS em que até o metrô anda desabando, o buraco só pode mesmo ser mais embaixo.
  • A GRANDE QUESTÃO entre os contabilistas do Reino Unido é a seguinte: nessa temporada, quantos milhões de dólares o Bono Vox vai faturar em direitos humanos?
  • ATUALMENTE a única instituição nacional inabalável é a epidemia de dengue.
  • EPITÁFIO: “Enfim, isento!”
  • OPINIÃO PÚBLICA no Brasil é essa coisa dividida entre a novela das oito e o Big Brother.
  • “MEU ADVOGADO é o Dr. Márcio Thomas Bastos!”– confessou o grande financista – “Mas eu sou inocente!”
  • OS CINEASTAS BRASILEIROS continuam produzindo obras sólidas e consistentes, como as mais encorpadas matérias fecais.
  • SOU BRASILEIRO e visto a camisa. Mas um colete à prova de balas por baixo bem que vinha calhar.
  • NÃO CONFUNDA diretor de teatro genial com diretor de teatro genital.
  • SE DEUS É BRASILEIRO, então os EUA estão cagando. Má notícia para os pastores da Renascer.
  • SE VOCÊ OLHAR bem de perto, notará que existe, sim, diferença entre os partidos políticos no Brasil. Mais ou menos de 5% entre a menor e a maior propina.
  • NÃO SE PODE enganar o povo o tempo todo, afirmou Abraão Lincoln. No Brasil, até que pode. Mas nem precisa.
  • SÓ HÁ UMA reforma política que ponha esse pessoal nos trilhos: o reformatório.
  • JÁ QUE NOSSA CARGA tributária é escandinava, não podiam dar uma aliviada e trocar o Leão pela Anitona Ekberg?
  • EPITÁFIO: “Não foi por falta de aviso, eu sei. É que eu nunca abria minha caixa postal.”
  • TODO ESTE MARASMO que aí está só vem a confirmar uma coisa: sem Copa do Mundo este país não tem muita razão de ser.

 

12 janeiro, 2007

Um placebo para a inconstância dos posts
Por Fran Pacheco

Inscreva-se no Google Reader ou coisa parecida. Se você está por fora dessas transas, pergunte ao seu neto. Adicione os seus saites preferidos. Se você é um dos três (quatro, vá lá) renitentes leitores desse blogue, peça pro nerd mais próximo adicionar o seguinte e infame linque:

http://clubdosterriveis.blogspot.com/atom.xml

Voilá. Agora o saite irá até você, quando bem entender. Eu experimentei e funciona. Infelizmente, não apita.


 

11 janeiro, 2007

In dubio, pro recto
Por Fran Pacheco

Os nobres advogados de porta de cadeia que me perdoem... mas cliente VIP, filho da puta e enrolado é muito melhor. Ah, que curtição não deve ser arquitetar uma defesa mirabolante, que doce e bem remunerado exercício de cinismo, que sádico prazer de contorcer as juntas da verdade profunda (aquela que não se pode declarar à Receita) para espremer dali a mais deslavada e esfarrapada desculpa... Tudo isso num esforço supremo para controlar o incontrolável: os movimentos involuntários, instintivos da gargalhada franca diante dos otários.

Meu chapinha, só com muito traquejo, com muitos calos nos dedos de tanto contar dinheiro de honorários (em cash, faz favor) para conseguir declarar à imprensa, olhos nos olhos, numa boa, que “meu cliente é inocente!” – com o dedo em riste e espalhando perdigotos “indiguinados” pela sala. Você não conseguiria. Tente fazer isso no espelho. Diga: “A bispa Sônia é inocente, aleluyah!” E não pense que basta se formar bacharel para conseguir essas proezas. Não, negativo... bacharel até organismos simples como o Ronaldo Tiradentes e o Carrapeta o são. Estamos falando aqui de high-art.

Nota necessária: É claro que minutos depois, no recôndito banheiro do fórum, o advogado, que apesar de tudo é um ser humano, tem um acesso incontrolável de riso, desses de dar pontadas na bexiga. Passa uma água no rosto, e recompõe a fisionomia, mais sério que cu de touro.

Arrependo-me amargamente de minha longínqua deserção da Faculdade de Ciências Jurydicas & Sociaes. Poderia hoje estar defendendo o Procurador Geral de Justiça do Amazonas, Dr. Vicente Cruz, que andou procurando um sicário para matar o candidato rival na eleição interna para Procurador Geral e terminou preso no próprio gabinete, que nem o Arafat. Nas lutas intestinas do Parquet amazonense, dossiês para aniquilar o adversário são coisa do passado. Agora é na base do trabuco mesmo. Se essa moda pega na Câmara...

Aparentemente, o Dr. Vicente amarelou na hora agá e ligou para o Zeca Diabo, em conversa gravada pela, er... “inteligência” da poliça amazonense:

Dr. Vicente: “Aborta!”
Zeca Diabo: “Mas dotô...”
DV: “Aborta, aborta, aborta!”
ZD: “Mas o pessoar já tá na rua, dotô...”
DV: “Aborta, aborta, aborta. Já chamei outro.”

Coisa mais fácil livrar o Dr. Vicente dessa. Em vez de assassinato, Dr. Vicente encomendou exatamente o que se ouviu: um aborto – que é ligeiramente diferente. Quem há de negar? Se bobear aparece até um “estrupo” ou um anencéfalo na jogada, pra coisa ficar toda legalizadinha. Dr. Vicente é filantropo, bicho.

Tudo bem, advogados do diabo... mas e essa história de que “o pessoal já está na rua”? Muy simples... os médicos aborteiros originais foram demitidos. Tanto é que o Dr. Vicente arremata “já chamei outro”, referindo-se ao profissional recém-contratado (Aparece um zé-mané da Zona Leste enfiado num jaleco e dizendo: “é eu!”)

Ora, esta é a verdade luzidia, auto-evidente, senhores, verdade que em hebraico se escreve EMETH! Não há que se fazer ilações levianas, estrambóticas, motivadas pela intriga solerte da oposição, típica de período eleitoral, senhores, não, não! O nome do meu cliente é VERDADE. Não quereis tirar-lhe abruptamente a letra inicial e transformar-lhe em METH, quem bem sabeis é MORTE, na mesmíssima língua semítica. Meu cliente, senhores, foi, é e será sempre INOCENTE! (*)

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(*) Em off, que ninguém é de ferro: Quáquááquaáááá!!!!!

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É uma arte para iniciados, sem dúvida. Só nos resta torcer para que Márcio Thomaz Bastos guarde para si suas manhas e não saia dando workshops por aí.


 

Seja proativo, rapaz!
Por Fran Pacheco

Iniciar o ano sabendo que:

1) Um goiano levou sozinho aqueles 50 milhões da mega-sena que tudo levava a crer estarem reservados para você;
2) Você vai trabalhar quatro meses e vinte e cinco dias só para pagar impostos;
3) Seus impostos vão pagar a imunidade parlamentar do Dr. Paulo Maluf.

Há uma lógica safada nisso tudo. Não sei bem qual, nem quem foi o hijo de una gran putana que a inventou. Mas ano que vem, quando todo esse ritual se repetir (só mundando o goiano por um natural de Arapiraca), prometo tomar vergonha na cara e começar a mudar essa situação. Vou jogar na mega-sena.