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31 janeiro, 2005

Na boca da Web
Por Fran Pacheco

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Enquanto isso...

Na revista Época desta semana, Manô figura entre os 26 grandes municípios cujos prefeitos não resistiram à tentação de nomear parentes para a administração pública. A matéria só está disponível na edição impressa. Procure na sala de espera de seu dentista, daqui a seis meses, ao lado de alguma Manchete ou O Cruzeiro.

Interessante como cada prefeito tem a definição própria da palavra-que-não-pode-ser-dita. Nepotismo. Para uns, nepotismo é empregar "20, 30 parentes". Para outros, nomear "esposa e namorado da filha" não é nepotismo pois esposa nem "parente de sangue é". Aliás, para outros, nomear a esposa para cargos remunerados na área social não é nepotismo. "É tradição".

No que nos concerne, eis a explicação não só para a nomeação, mas para a criação de uma nova e extraordinária secretaria municipal em Manaus (segue abaixo a transcrição do site):

"Explicações dos prefeitos sobre a nomeação de parentes para cargos de confiança

MANAUS (AM)
Serafim Corrêa (PSB) Filho: Marcelo Corrêa, secretário de Articulação e Relações Institucionais
O que o prefeito diz: O secretário de Comunicação da prefeitura afirma que Marcelo é farmacêutico bioquímico, gestor de saúde com pós-graduação, vice-presidente do PSB na cidade, foi o vereador mais votado do partido (apesar de não ter sido eleito) e coordenou a campanha do pai no ano passado. Tudo isso, afirma, o qualifica para ocupar o cargo de secretário. ''A menor qualidade de Marcelo é ser filho do prefeito'', diz.
"



 

27 janeiro, 2005

Sabedoria do Além (XXVIII)
Por Fran Pacheco

"Não preciso de advogados para me dizer o que não devo fazer.
Eu os contrato para me dizer como fazer o que quero fazer."
J. P. Morgan (1837-1913), banqueiro americano.

 

Para colecionadores
Por Fran Pacheco

Vende-se uma passagem da VASP. Motivo: viagem.

 

Na terra do muro baixo
Por Fran Pacheco

Na Terra do Muro Baixo, a passagem de ônibus é cobrada com 22 centavos a mais do que o valor devido. Os empresários responsáveis pela tungada diária no bolso do povo são agraciados com incentivo fiscal sobre o combustível - que é mais merreca pública dada de presente para eles. Mesmo assim, o máximo que nossas autoridades conseguem é garantir que até o dia 15 de março não haja um novo aumento. Ê terrinha...

 

26 janeiro, 2005

Transparência no dos outros é com ele
Por Fran Pacheco

Agora que prefeito Chapolim Corrêa já teve um pouquinho mais de tempo para dar suas canetadas (como cortar as taxas para os construtores e aumentar o IPTU dos não-construtores) aguardamos ansiosos a publicação, com destaque nos grandes jornais da cidade, da lista de todos os cidadãos nomeados por ele, em todos os escalões, por ordem de salário. Do filho dileto ao amigo de bar. De preferência com a manchete: "Confira os beneficiados com nomeações da PMM". *

(*) Adaptada da manchete usada na divulgação dos fornecedores da Prefeitura. O "beneficiados" não fui em quem inventou.

 

25 janeiro, 2005

O que quer dizer "Laissez-Faire"?
Por Fran Pacheco

É um termo filosófico cunhado pelos Fisiocratas do séc. XVIII, que significa "deixa rolar". Tornou-se lema do Capitalismo Liberal ao propor o fim de qualquer intervenção do Estado nos negócios das empresas privadas. Baseia-se na duvidosa premissa de que um patrão é menos filho da puta que um burocrata.

A idéia foi implementada em 1885, no Estado Livre do Congo, tornado uma empresa de propriedade particular do monarca Leopold II, da Bélgica. A sede da Companhia ficava em Leopoldville - atual Kinshasa. O desemprego foi erradicado, pois os congoleses tornaram-se não mais cidadãos, mas funcionários arregimentados da seguinte forma: o setor de RH da Companhia enviava mercenários (headhunters, na moderna terminologia de Wall Street) que sequestravam as mulheres e crianças das aldeias. Os homens tinham que trabalhar no mínimo 7 dias por semana, embrenhados na selva, extraindo látex, óleo de copal e marfim, se não quisessem ver a família morta. O pagamento pecuniário (salário) tornava-se, por este, digamos, contrato de trabalho, desnecessário. A baixa produtividade rendia ao funcionário uma mão ou um pé amputados, como advertência. A demissão era protocolizada com a execução sumária do ex-funcionário. Melhor não entrar em detalhes sobre o que acontecia com grevistas e anarco-sindicalistas. Misteriosamente, apesar dos fabulosos lucros do negócio, a quantidade de trabalhadores existentes no Congo sofreu um forte "viés de baixa" durante a boca-livre da Companhia.

Com a mão-de-obra dizimada e pressionado pela grita mundial, o velho Leopold, já sem ter onde enfiar tanto marfim, abandonou sua empreitada em 1908 e "vendeu" a carniça de volta para o Estado Belga por 45 milhões de francos. E ainda embolsou mais 5 milhões, a título de "agradecimento pelos seus grandes sacrifícios em prol do Congo".

O Congo é hoje isso que aí está. A memória de Leopold é venerada pelos belgas, que depois (felizmente) só conseguiram produzir os Smurfs. Os liberais (se é que existem verdadeiros liberais) não gostam de tocar no assunto.

(Extraído de Azancoth - "História Universal dos F.D.P.", Editora Uqbar)

 

24 janeiro, 2005

Todo proletário pode ter um Macintosh?
Por Fran Pacheco

Na terra de Jorge Bushit, teoricamente sim. Steve Jobs, - o mais antigo menino-prodígio do mundo, lançou um computador MiniMac para conquistar as massas que usam PCs com seu formato "gitinho" e baixo custo (notem que chic é a ausência de teclado, mouse e monitor). Só que no Brasil custará R$ 2.890,00.

Se isso for preço popular, teremos que esperar Mr. Blow Jobs lançar uma carcaça vazia com o símbolo da maçã pregada num adesivo. Aí sim, companheiros, teremos o nosso primeiro Mac. Bastará cobrir nossos Trabants, Ladas e Dercys com a fachada techno-fashion.

 

Mergulho radical na libertação
Por Wally Sailormoon

Se vocês estiverem com dinheiro sobrando (o salário mínimo vai aumentar em maio, certo? Comece a gastar por conta...), não deixem de adquirir a monumental caixa Torquatália, de Torquato Neto. Org. Paulo Roberto Pires. Editora Rocco. Volume I (“Do lado de dentro”), 368 páginas, R$ 44. Volume II (“Geléia geral”), 408 páginas, R$ 49. O investimento vai valer a pena.

Eu, particularmente, continuo reputando como tarefa ingrata essa de reunir a obra completa de Torquato Neto (1944-1972). Ele não se deixava apreender com facilidade, distribuiu seu talento por várias áreas, destruiu muito do que escreveu antes de se matar aos 28 anos. Juntar o artista em dois volumes é tentar dar-lhe contornos mais precisos. Mas, como não poderia deixar de ser, as sensações de “Torquatália” sobrevivem em incongruências: “as palavras arrebentadas, os becos, as ciladas etc. etc. ad infinitum”.

Os rastros de Torquato Neto foram agora mapeados pelo jornalista, escritor, professor e editor Paulo Roberto Pires em “Do lado de dentro” e “Geléia geral”. Os textos do piauiense estavam sumidos havia muito tempo. É de 1982 a segunda e última edição de “Os últimos dias de paupéria”, coletânea organizada pela mulher, Ana Maria Duarte, e por este vosso escriba. Torquato sobrevivia de maneira mais próxima do público nas letras de canções, o meio que lhe deu alguma celebridade.

O material traz inéditos, em livro ou não. De poemas da adolescência, escritos em Salvador e no Rio entre 1961 e 1962, aos textos da coluna Música Popular, do “Jornal dos Sports”, e do suplemento Plug, do “Correio da Manhã”. Além das clássicas (“Minha senhora”, “Louvação”, “Três da madrugada”, entre outras), há letras que os parceiros tiraram do baú e nunca gravadas. Gilberto Gil e Caetano Veloso estão entre os que contribuíram com redescobertas.

O melhor da nova fornada, entretanto, são as cartas trocadas com Hélio Oiticica no início dos anos 70, quando o artista dos parangolés estava em Nova York, ou melhor, em “Babylon”. Na confusão de duas cidades, na correspondência entre dois mundos, encontra-se um painel saboroso da produção cultural da época: os bastidores, as idéias, as disputas. Todo mundo andava meio perdido, sem saber aonde ir, “quebração de cara geral”, resumia Torquato.

Sobram fofocas e achincalhes — a Gustavo Dahl, Nelson Motta e Capinam, por exemplo. Oiticica escreve com afetação, é mais pródigo na baixaria. A transa (gíria repetida em abundância por Torquato, hoje com sentido mais determinado) de Torquato era sempre a busca da liberdade para o “lado de dentro”, sem abandonar certa elegância, expressa em meio a todo o coloquialismo. Suas fotografias não deixam as palavras mentir.

Todo dia era dia de libertação, dentro da cabeça e do país. Mas a coisa ficou barra pesada, nos dois lugares, e ele não agüentou. “Torquatália” confirma o talento múltiplo do jornalista, poeta, letrista, ator e cineasta. Na maioria das vezes, artista inconcluso, como se algo nunca pudesse ser efetivamente fechado. O suicídio é solução coerente com uma vida-obra, mais do que idéias que são concebidas e transformadas em projetos reais. Nem o jornalismo de Torquato conseguiu prender-se ao factual. Fez da “Geléia geral” lugar-comum.

Faz sentido, então, perguntar: o que resiste da palavra rabiscada nos cadernos de anotações ou do diário esboçado no Hospital Psiquiátrico Pedro II? O que fica da frase datilografada? Rabiscos, esboços e as marcas de tinta no papel-jornal são imagens que separam e unem as partes do volume “Do lado de dentro”. Antecipam angústias contemporâneas com mais brilhantismo do que outros companheiros de jornada na Navilouca tupiniquim, talvez por conta de constante irracionalidade.

No dia 13 de novembro de 1971, pouco menos de um ano antes de morrer, Torquato escreve: “a literatura, o labirinto perquiridor da linguagem escrita, o contratempo, a literatura é a irmã siamesa do indivíduo. a idade das massas, evidentemente, não comporta mais a literatura como uma coisa viva e por isso em nossos dias ela estrebucha e vai morrer. a literatura tem a ver com a moral individual e a moral individual não interessa — não existe mais”. A crise ainda está aí, tal e qual o diagnóstico.

Se a literatura não resolve, cabe experimentar para todo lado, com o risco da dispersão. Aconteceu com Torquato por necessidade vital (ou o oposto disso), tem sido tentativa atual apenas dos que podem, por méritos intelectuais e financeiros — normalmente juntos. Os que transitam entre as artes têm sentido dificuldade por conta da imposição do rótulo, solicitado pela mídia. A especialização, tudo o que não tem a ver com as transações de Torquato, essa necessidade de foco de energia numa só coisa virou a moeda de troca intelectual da qual o “anjo torto” procurou fugir desesperadamente.

Assim, a mais curiosa constatação de “Torquatália” é que Tropicalismo e Tropicália parecem coisas passageiras diante de tantas outras referências e atitudes. Nem merecem as maiúsculas, nesse caso. Essa ausência, o próprio Torquato deve ter sentido. Abandonou o barco, foi “desafinar o coro dos contentes” sem tribo, quase sozinho. Não dá mais para reduzir esse multiprocessador de informações a um movimento manifesto. Além do valor de relíquia, da recuperação de memória, os dois volumes têm o mérito do estilhaçamento porque mostram como é difícil restringir Torquato, homem de projetos inacabados. Daí a tarefa nobre e necessária da coletânea, porém insuficiente por natureza.

Um ou outro deslize na edição, como a não referência à gravação de “Mamãe, coragem” por Nara Leão em 1968, nem de longe prejudica o trabalho de Paulo Roberto Pires, que assina ensaios introdutórios aos livros. Por suas mãos, Torquato volta para nos alertar sobre a pasmaceira sem censura e mercadológica que tomou conta do cenário cultural brasileiro, quando mais uma vez começa a surgir a vontade de ir embora, quando a gente tinha tudo para ficar. Sem medo de ser contente. “Aqui não tem nada, mas é a tal festa. Ninguém se entende e o conformismo é geral: em ritmo de Brasil grande. Um inferno. Mas eu continuo achando que não devo me apressar em nada. Quando as coisas estiverem melhor arrumadas eu darei um pulo do lado de fora, ou farei logo o filme, não sei”, escreve a Oiticica.

Torquato não foi grande crítico de música, mas agitou a imprensa. Não deixou um livro publicado, mas se fez ouvir muito mais longe (claro). Não montou o filme que havia rodado, mas deixou instruções para que se pudesse fazê-lo. Tudo ao mesmo tempo agora, eis um lema pop e possível. Há quem diga, afinal, que ele bolou um projeto de morte fazendo da própria vida a obra no tempo. Sabe-se lá.

 

Viver é muito, muito perigoso
Por Fran Pacheco

"Meu reino por uma bolha!"

"Caro amigo aí fora,

O mundo anda cheio de armadilhas. Depois daquela onda toda na Ásia, você acha que eu ainda colocaria os pés lá? Nem na Europa, filho. Além do Velho Mundo ter vulcões em plena atividade, geadas glaciais, avalanchas, terrorismo basco, irlandês, argelino e descarrilamentos de trem-bala, vez por outra explode uma Guerra Mundial por lá.

Ir aos Estados Unidos, então? Pra estar bem no meio do alvo, quando a Al-Caída aprontar de novo? Quando o próximo terremoto ou furacão varrer tudo? Quando mais um executivo demitido sair atirando em todo mundo na rua?

Fico mesmo no meu Brasil, e bem longe do litoral, porque já disseram que uma erupção nos Açores acabaria com toda a nossa costa. Não passo nem perto das grandes metrópoles, quanto mais longe eu estiver dos arrastões, enchentes, desabamentos, fugas de presos e sequestros-relâmpago, melhor.

Pra falar a verdade, prefiro nem sair da minha pequena cidade. Viajar pra quê? A quantidade de avião que cai por aí não está no gibi. Ir de navio, então? Depois do que aconteceu com o Titanic? E isso porque ele era "inafundável". Pegar estrada, de carro ou num ônibus? Com essas rodovias escuras, chuvosas e esburacadas, cheias de loucos na contra-mão? Melhor ficar por aqui, mas desde que seja no meu bairro. Os subúrbios estão tomados pelos hunos. O Centro está repleto de psicopatas que te matariam por um relógio velho. Meu bairro é mais pacato, aqui não morre tanta gente assim. Só teria que evitar ir à feira, tomar um caldo de cana estragado. Supermercados, com seus produtos transgênicos e cancerígenos, são menos confiáveis ainda. Sei que em cada restaurante a Salmonela está à minha espreita.

O grande risco, na verdade, seria eu atravessar a rua. Alguém confia na faixa de pedestre, no semáforo? Eu não. Prefiro ficar no meu quateirão. Só que mesmo na calçada um motorista fazendo "pega" me pegaria. Melhor não ir além do pátio e ficar na cadeira de balanço, vendo as pessoas se arriscarem à toa lá fora. Mas isso ainda me deixaria exposto às balas perdidas. Vez ou outra, ouço dizer, cai alguém na rua, sem mais nem menos, com um tirambaço na testa.
Melhor mesmo é não sair de dentro de casa, fechar as janelas e lamber as maçanetas para ter certeza de que tranquei tudo. E espalhar alarmes e detectores de fumaça por todos os cantos. Desligar o gás, também - um vazamento seria fatal. Ligar a televisão? Desde que os japinhas tiveram convulsões assistindo um desenho animado, é melhor evitar tanta luz no rosto. Atender o telefone? Pra receber uma notícia bombástica e ter um troço? Ou pior, ser eletrocutado pela orelha, como vive acontecendo? Levantar da cama? Pra escorregar no assoalho, perder os movimentos e agonizar durante dias? Melhor ficar quieto. Com bastante repelente no corpo e espessos mosquiteiros ao redor do leito. Se Alexandre, o Grande, morreu de uma picada de inseto, quem sou eu para encará-los de frente? O negócio é ficar alerta. E, não menos importante: evitar dormir. E se eu não acordasse?

É, amizade, viver é perigoso além da conta. E não venha me falar que tudo isso é muito difícil de acontecer. Vá dizer pro acertador da Loto que ele só tinha uma chance em 100 milhões de ganhar. Ele vai rir da tua cara. Como eu estou rindo agora, sem dentes (o flúor só pode dar câncer) na segurança do meu leito.

Quer curtir a vida aí fora, amigo imprudente? Lembre-se: ela ainda vai te matar. Reserva um lugar para mim no teu velório. Adeus."

No dia seguinte, um avião cargueiro desabou sobre a casa do remetente. Só os pilotos escaparam.


 

23 janeiro, 2005

Por que amo o Campeonato Carioca
Por Fran Pacheco

Porque contra Olaria, Madureira e Friburguense, nós, vascaínos, flamenguistas, botafoguenses e tricolores nos sentimos novamente Grandes.

 

22 janeiro, 2005

"Meu nome é Gonorréas!"
Por Fran Pacheco

A grande virtude do Dr. Enéas Ferreira Carneiro é sua incapacidade de esbravejar suas asneiras ultra-reacionárias por mais de 30 segundos, que é o intervalo entre seus tiques nervosos. Tente conversar com ele e marque no relógio. Aos 30 segundos, mesmo que esteja no meio de uma peroração sobre as virtudes geopolíticas da bomba atômica, ele arrotará grosso: "meu nome é Enéééééas!". Trauma da campanha de 89.

Dr. Carneiro é gente, tudo bem, mas um humanóide sui generis, com um latifúndio de pentelhos na cara - coisa que daria para bordar vários suéteres para as vítimas do/da tsunami. Em criança, foi menino-prodígio. Já nasceu careca e enfezado. Homem feito, cultivando aquela prochasca no rosto e uns quarenta graus de miopia, chegou a ser respeitado no meio médico. Coincidentemente, quando teve sua iluminação e enlouqueceu, bandeou-se para a política - esse valhacouto do que há de menos aproveitável no gênero humano. Fundou o Cona, uma seita cuja lavagem cerebral é pior que a do reverendo Moon. Todos os que passam pelo ritual iniciático tornam-se clones mentais e fonéticos do Grão-Mestre. Dra. Havanir, sua metade feminina (pelo menos cromossomicamente falando), chegou a contrair um par de testículos, tal o rigor dos exames.

A propaganda-gratuita-relâmpago (blitzgratüitenpropaganden) do Cona, exibida em cadeia nacional, pegou-me de surpresa. Mal tive tempo de aumentar o volume, absorto que estava em capturar uma mosca tsé-tsé com um par de hashis. Seborréas Carneiro estava apresentando seus sequazes a toque de caixa - todos eles em posição de sentido! Uma seguidora solteira foi chamada, na legenda, de "Srta. Juliana". Foi marcante. E rapidinho. Tudo ao som do pãn-pãn-pãn-pãmmmm da 5ª Sinfonia em Dó Menor, do Ludwig Van. Que me perdoe o imortal e falecido surdinho alemão, mas aquele jingle é mesmo a cara do Enéias. Nem Marylin Mason faria melhor.

 

21 janeiro, 2005

A Paixão de Cristo
Por irmão Paulo

No ritmo louco e antinatural que vivem os encarnados hoje, certamente algum filisteu haverá de pensar que o comentário é sobre filme velho. Nem tanto, apenas outro dia o jornal dos Kane comentou o penúltimo livro da Lya Luft. Eu, apesar de morto, comento o último (no sentido de mais recente) filme sobre O Chefe.

A Paixão de Cristo,de mel jíbson, é dos piores filmes que já assisti em toda minha existência consciente. Antes uma sessão de boca do lixo, com o anão Chumbinho enrabando uma galinha que o rasteiro e primitivo melodrama jibsoniano, na forma e no conteúdo.

O filme pretende claramente ser factual, baseado principalmente no Evangelho Segundo São João, se ainda me lembro bem (do filme e do Evangelho), recita trechos inteiros do Evangelho e, como no poema bíblico, faz suceder cenas não concatenadas e quase bizarras, como quando o jovem Jesus cria uma mesa alta e sua mãe diz achar que não vai pegar – demonstrando que, segundo as crenças de Jíbson, Jesus criou a mesa.

Mel Jíbson é um católico fundamentalista, ao que consta, não acredita nas reformas do Concílio Vaticano 2º e não come carne às sextas, dentre outras inusitadas condutas. Seu filme, como produto de cinema é o que de pior se pode encontrar no mercado sério. Não faz sentido algum, para quem não tenha algum conhecimento prévio da vida de Jesus e sua filiação divina. Há uma figura misteriosa, rondando Jesus nos momentos definitivos que só pode ser “o Diabo” em pessoa, ou algum seu preposto. A uma curiosa situação quando a cruz, onde está Jesus, cai e seu rosto não encosta no chão, há tantas curiosidades que a gente desconfia, mesmo sem saber direito, que algo de importante está se passando na tela. Pessimamente editado, num vai-e-vem de flashbacks mal ajambrados e explicados, o filme é um lixo.

Se como filme a tentativa de Jíbson não passou disso – uma tentativa, como elemento de difusão (reavivamento diriam alguns) do Cristianismo, não passa de uma piada de mau gosto, aprovado pelo Vaticano regido por um rei senil que não larga o trono e, mesmo senil, é infalível.

O filme reduz muito claramente (e nisso escudou-se a judia Maria Morgesteen para interpretar a Santa Maria) um drama espiritual num reles melodrama humano. Cá entre nós, povo, em não sendo, como não é mesmo, o Reino de Jesus do mundo de vocês, o que os faz supor que o maior sofrimento de Jesus foi de ordem física? Jesus sofreu, em seu verdadeiro calvário celestial, durante a preparação de sua chegada, vez que não é razoável imaginar que a perfeição personificada poderia aterrar nesse vale de lágrimas sem árdua preparação. Jesus sofreu intensamente, inúmeras vezes verteu água dos olhos e sangue dos poros para aliviar a imensa dor moral de conhecer o estágio de evolução espiritual da humanidade.

Jesus foi um profeta triste.

Agora, eis que surge Jíbson, com sua compreensão limitada e literal das escrituras, com seus dogmas infundados e mesmo assim incontestáveis, a fazer do martírio de Jesus uma carnificina de dar inveja à Jack, the riper. O visual gosmento e ensagüentado, foi responsável pela sensibilização de muitos espectadores, notadamente o evangélicos, não exatamente conhecidos pelo equilíbrio e discernimento, e demonstra que há gente no nível dele.

Olhem que não sou crítico de cinema, mas, sinceramente, Jíbson era melhor antes, quando, cabeleira enlouquecida, destroçava meio mundo, do que agora, amansado-esnobe-e-desceLebrado, co-dirigido pelo Espírito Santo, tentando salvar o que restou.



 

20 janeiro, 2005

O Buraqui não é mais embaixo
Por Fran Pacheco

Se for verdade que terrorista buraquiano já está sequestrando até brasileiro, então, senhores, chegamos no fundo inapelável do poço. Como agora viramos "alvo" e nada temos a oferecer além de samba, suor e cerveja, só restará à vítima gritar para os barbudinhos explosivos: "Brazil! Pelé! Ronaldinhow!". Este mantra desperta imediata simpatia para com o brazuca - até entre canibais da Polinésia (desde que eles tenham um mínimo conhecimento futebolístico - se não, babau). É recomendável, portanto, que doravante só andemos em território hostil (como Bóstia-Herzegóvina, Chochênia, Kossôvo e Capão Redondo) trajando sob a roupa uma camisa verde-amarela autografada pela Seleção. E, para não deixarmos dúvida quanto à nossa origem, que treinemos urgentemente o gingado-ziriguidum-olelê-olalá e umas embaixadinhas.

 

19 janeiro, 2005

Breve História de Manáos
Por Fran Pacheco

Os monumentos históricos e o esgoto, os ingleses fizeram. Depois, só se fez merda.

 

Música de elevador
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Estiquei as férias por tanto tempo, que resolvi voltar sacaneando. Não peguei nenhuma tsumani, mas, em compensação, visitei tantos sebos de vinil na Europa que estou de pick-up duro. No bom sentido, de fora pra dentro. Pessoas sensíveis, go home. Pessoas brutalizadas, fuck off. Pessoas mais ou menos, go ahead. Vou falar sobre as bolachas que ouvi, curti e afanei espiritualmente, e gostaria que os cachorros, gatos e periquitos fossem postos pra fora da sala. Eles não vão entender o espírito da coisa. E de espiritismo, entendemos nós.

Nos Estados Unidos, ela é chamada de mood music, música ambiente. Na Inglaterra, de light music, música ligeira. No Brasil, grosseiramente, de música de elevador. Grosseira e injustamente porque, hoje em dia, só os melhores elevadores continuam oferecendo música a seus usuários. Mas, para quem despreza o que se escuta neles, considerando-o o epítome da caretice, ainda veremos o dia em que os elevadores tocarão The Who, Pink Floyd ou Skank - embora, quando isso acontecer, eu pretenda estar absolutamente morto e enterrado (desculpem o pleonasmo... machuquei alguém?). Cedo ou tarde, o destino de toda espécie de música é o elevador, o consultório do dentista e o toque do celular. Tom Jobim já está em todos eles, assim como Ary Barroso, Cole Porter, Paul McCartney e Beethoven, e isso não os tornou menores.

Que espécie de música é essa - quase toda produzida nos anos 60 - que une os jazzistas, roqueiros e eruditos num desprezo comum? O que a define? Digamos que ela seja uma diluição suavizada de certas formas musicais que, em sua versão original, seriam muito barulhentas ou complicadas para se ouvir quando se quer apenas relaxar. Imagine subir 30 andares ouvindo Air Mail Special, de Lionel Hampton, com a orquestra do próprio a todo pano, ou fazer um tratamento de canal ao som da Cavalgada das Valquírias, de Wagner, regida por Stokowsky. O suicídio não seria uma má idéia. Mas, se for uma Air Mail Special adocicada por Jonah Jones ou uma Cavalgada domada por Mantovani, tanto os vácuos e solavancos do elevador quanto a broca do dentista serão quase imperceptíveis. Se a música serve para tudo, por que não pode servir também para zerar angústias? E por que a música explicitamente agradável se tornou tabu?

Nos últimos tempos, nos Estados Unidos e na Inglaterra, o conceito se expandiu e esse tipo de música passou a ser agrupado nas lojas sob uma nova categoria, chamada easy listening. Significa toda espécie de música popular que não seja jazz, rock ou um corpo estranho chamado world music. Bem, considero também ofensiva essa marota classificação de easy listening - porque dá a entender que, se ela é fácil de escutar, foi também fácil de fazer. O que não é verdade - ao contrário de 50% do jazz e de 100% do rock disponíveis na praça, fáceis de fazer e duríssimos de escutar. Além disso, easy listening sugere um tipo de música que, se por acaso estiver ao alcance das suas orelhas, tanto faz que você esteja ou não prestando atenção, porque ela não irrita nem acrescenta.

Pois eis aí outra definição preconceituosa. Qualquer tipo de música pode ser escutado com um ouvido só e, nesse caso, não nos acrescentará nada - seja Villa-Lobos ou Abílio Farias, para ficar nos extremos. Mas suponha agora que exista uma grande quantidade de mood music que mereça ser escutada com atenção. A prova está numa série de extraordinários lançamentos importados, trazendo de volta orquestras e conjuntos que, com todo o apelo comercial, produziam música de espantosa qualidade e beleza.

Uma dessas orquestras, por exemplo, tinha como arranjador e regente nada menos que o compositor clássico e maestro Morton Gould. Seu disco, Blues in the Night, gravado em 1957 na RCA Victor, dá um caráter tão majestoso a temas como Birth of the Blues e Mood Indigo que, hoje, é difícil acreditar que possa ter sido gravado para servir de fundo musical a ouvintes distraídos. O mesmo se aplica a Easy Jazz, com a orquestra de Paul Weston (enriquecida por solistas como o trompetista Ziggy Elman, o pianista Paul Smith e o guitarrista George Van Eps), num repertório que inclui Body and Soul, Georgia on my Mind e My Funny Valentine. Weston morreu há cinco anos, aos 84 anos, respeitado como um dos maiores arranjadores do século por sua delicadeza para combinar cordas e metais.

E, até que enfim, os discos de Jackie Gleason renascem em CD. Gleason, mais conhecido no Brasil como ator (era o gordo que perseguia Burt Reynolds nos filmes da série Agarra-me Se Puderes), foi uma potência da música americana nos anos 50 - sem tocar qualquer instrumento e sem ler uma nota de música. Os discos de sua orquestra vendiam-se aos milhões: eram ótimos para dançar, ouvir ou criar climas para coisa mais séria entre um homem e uma mulher. E como Gleason conseguia isso? Com sua tremenda musicalidade intuitiva, orientando seus arranjadores para o tipo de som e de andamento que queria - o que ele fazia cantarolando e regendo naipes imaginários com um cigarro como batuta. Se você quiser ouvir para crer, a pedida é Velvet Brass - How Sweet It Is, na verdade muito mais swing que sweet.

O humorista americano Ambrose Bierce, autor do Dicionário do Diabo, chamou o acordeon de “um instrumento com os sentimentos de um assassino”. Mas isso é porque ele nunca ouviu seu compatriota, o acordeonista Art Van Damme, nascido em 1920. Van Damme praticamente introduziu o acordeon no jazz e, por volta de 1950, influenciou adivinhe quem no Brasil: João Donato. Depois de décadas esquecido, alguns de seus discos antigos estão saindo no Japão e na Alemanha - alguns deles, Martini Time e State of Art. Os quase surdos os rotularão de música para coquetel, pelo pecado de serem de audição agradabilíssima. Mas vá tentar fazer o que ele faz. Art Van Damme está para o acordeon como um xará seu para o piano: Art Tatum. E um de seus mais deliciosos contemporâneos também foi redescoberto: o pianista Page Cavanaugh. Entre outras coisas, o trio de Cavanaugh foi a principal influência do conjunto vocal carioca Garotos da Lua, cujo crooner em 1951 chamava-se João Gilberto. Depois, como pianista, ele seria o acompanhante ideal de Doris Day e Frank Sinatra. Pois Cavanaugh foi posto para gravar de novo e o resultado, até agora, são dois lindos discos chamados The Digital Page (Page One e Page Two).

A grande sensação, no entanto, é a série de 12 CDs individuais da Capitol intitulada Ultra-Lounge, contendo o máximo do repertório de mod music desta gravadora nos anos 50 e 60. É a absoluta volta a um tempo em que o homem se vestia inteiro para levar uma mulher a uma boate ou para recebê-la em seu apartamento. E essa mulher, naturalmente, exorbitava em seus decotes, sedas e no vermelho do batom. Homens e mulheres equipavam-se para seduzir e a música era parte importante nesse jogo. Cantores e orquestras eram movidos a hormônios na tentativa de estabelecer uma atmosfera densa e sensual. A música podia ser americana, latina, francesa ou com toques negros - mas era sempre dançante, sensual e envolvente, ideal para preliminares elegantes. Ir para a cama com alguém devia ser uma batalha naquele tempo, mas, até chegar lá, as mulheres não se queixavam de falta de romantismo.

É esse o clima passado pelos CDs desta série, como Bachelor Pad Royale, Rhapsodesia, Cocktail Capers, The Crime Scene, A Bachelor in Paris, Cha-Cha de Amor e os outros. Cada um deles tem 18 faixas, estreladas por grandes nomes como Nelson Riddle, Bobby Darin, Billy May, Jonah Jones, Ray Anthony, Dean Martin, Leroy Holmes, Peggy Lee, Perez Prado, Julie London, Cy Coleman, Sam Butera, Les Baxter, etc etc. Grandes sons - arranjos fabulosos, que induzem um casal a sair dançando lentamente em direção ao leito ou que, no caso dos mais tímidos, também permitem grandes momentos de mãos dadas no sofá da sala. Se este for o seu caso, não se torture: esta é uma música que também pode perfeitamente ser apenas escutada. Eu, por exemplo, quero ouvir com a Hedôzinha ocupada no meu telefone. Se é que me entendem.

 

18 janeiro, 2005

Hoje é Dia de Mad Maria
Por Fran Pacheco

Num Sertão sem fronteiras, mítico e atemporal, onde todos falam tar e quar Guimarães Rosa, para desespero dos ouvidos urbanitas (legendas! legendas!), a pequena-grande Maria, símbolo, signo e arquétipo da Pureza & Sabedoria da Infância, percorre, com a qualidade da película cinematográfica de 35mm e aquela luz dourada, milimetricamente fotometrada, que torna tão estética, tão cosmética a miséria, em tom de farsa elizabethana e commedia dell'arte, as veredas do Brasil Profundo. Morena em criança, torna-se, por força de um sortilégio, adulta e branquela. É Letícia Sabatella, a Sra. Beija-Flor. Em sua busca, vagueia monologando seu pai, Osmar Prado, o eterno Tião Galinha. E eu, suplicante:"Legendas! Legendas!"

E El-Diretor, a divindade plenipotenciária do set, não resiste a deixa e se vale de todos os recursos/referências possíveis de linguagem, enquadramento, ritmo, montagem e trucagens (digitais e artesanais) para nos provocar: "sou ou não sou genial? Sou ou não sou o Hyeronimus Bosch do horário nobre? O Tintoretto da telinha?"

E eu respondo, bocejante: "Luiz Fernando Carvalho, és o Peter Greenaway tupiniquim". (Nota: isso não é um elogio!)

Enquanto isso, no Guaporé, Fábio Assumpção declama, junto a um cadáver: "É um pobre índio... E está morto!". Tony Ramos, alisa o bigodinho Louis Chypher para nos avisar, com uma risota: "sou o vilão". Juca Albieri de Oliveira, vestido de Allain Quartermain da 3ª Idade, grita, com a impostação de um Lawrence Olivier de fartas sobrancelhas: "Porque eu aceitei fazer essa Ferrovia!" E bate no mapa, com um estrondo de sonoplastia. Broooump! "E vou chegar no final! Mesmo que seja morto!" Brooooump!

E eu, na situação que os antigos tupis chamavam de pindaíba, me pergunto: "quanto o Márcio Souza levou nessa?"

 

16 janeiro, 2005

Por um mundo livre de clichês
Por Fran Pacheco

No mundo sem clichês, nenhuma estrela dormirá, acordará, tomará banho ou sairá de um maremoto deslumbrantemente penteada e maquilada.

As pessoas terão o direito de tossir ou sentir dor de cabeça, sem estarem condenadas, 20 capítulos depois, à tuberculose e ao câncer no célebro. Ninguém mais terá coragem, em sã consciência, de entrar num casarão abandonado, em ruínas e às escuras, por ter ouvido um gemido assustador vindo de lá. A ignição dos carros funcionará perfeitamente em momentos de fuga. A trilha sonora não te dirá mais: "fique com pena. Fique feliz. Sinta medo. Repetindo, sinta medo!"

Al Pacino nunca mais fará o papel do "cara experiente ensinando o novato promissor". Robert Redford largará para sempre o métier do "democrata íntegro" e Pierce Brosnam deixará de ser o "britânico cafajeste sofisticado" . A refilmagem de A Gaiola das Loucas contará com a dupla Robert de Niro, como Armand, e Vin Diesel como Zazá.

Se alguém acender um cigarro, ninguém lhe dirá "é melhor parar de se matar aos poucos". Bêbados, mancos, desajustados, mártires e freaks em geral não renderão mais, automaticamente, o Oscar para seus intérpretes. E os protagonistas nunca mais farão discursos pomposos e melodramáticos em público, na sequência final, para serem aplaudidos de pé pela multidão.

Beatriz Segall, no papel de lavadeira, comerá o pão que o diabo amassou na mão de seu rude e alcoólatra marido, o frentista Walmor Chagas. Odilon Wagner será o camelô que, com seus ditos populares, fará o alívio cômico ao drama operário das metalúrgicas do ABC Sílvia Bandeira, Sílvia Pfeiffer e Beth Lago.

Após resistir bravamente no sertão, Tônia Carrero e Sérgio Viotti deixarão o Cariri no último pau-de-arara. Irão morar com as filhas, a funkeira Maitê Proença e a sacoleria Marília Gabriela - em Tribobó, na Baixada. Uma assistente social zen, Renata Sorrah, tentará tirar do vício a desquilibrada Regina Duarte.Françoise Fourton será a criada explorada por sua esnobe patroa, a condessa Regina Casé. No High Society formado por José Dumont (Presidente do Rotary), Maria Gladys (ex Miss-Brasil, casada com o diplomata Roberto Bonfim) e Sebastião Vasconcelos (presidente da FIESP), só se comentará o casamento da herdeira Dira Paes com o mago da publicidade, Chico Dias.

Ana Paula Arósio deixará de ser uma mulher aquém do seu tempo e nunca mais fará papéis de época. Zé do Caixão será um pastor evangélico e Paulo César Pereio um pacato, monogâmico e polido pai de família, bebedor inverterado de grapete. Mila Moreira finalmente arranjará um marido. E Júlia Lemmertz jamais voltará a fazer par romântico com Alexandre Borges. Será admitido no máximo que façam swing com Cláudia Raia e Edson Celulari. Ou com Tarcísio & Glória.

E nenhuma das regras acima deverá ser seguida à risca. Do contrário, não passarão de um amontoado de clichês.

 

12 janeiro, 2005

Abrindo de vez a porteira
Por Fran Pacheco

O Gobierno Federal finalmente estendeu aos pobres despreparados um privilégio que os ricos despreparados já tinham: o de entrar numa faculdade e, por inércia, arranjar um diproma de baxarel, jurnalista, e, horror, horror, operador de broca ou bisturi.

Quem conseguir, a duras penas, uma nota 4,5 no ENEM e comprovar pauperismo (sem malícia), será despejado, como bolsista, numa faculdade-privada. No meu tempo, faz tempo, tirar uma nota dessas - chamada sugestivamente de nota vermelha - reprovava. Só era admissível, pois invevitável, em Química. E o ministro Tarso, o Genro, admitie que esta nota (talvez elevada demais para as vítimas dos grupos escolares) pode baixar.

Simples assim, de forma instantânea, com um decreto, o Gobierno conseguiu solucionar o problema da escola pública, outrora incapaz de preparar as massas para a educação dita supeiror. Como o nome do programa diz, agora há "Universidade para Todos" - sem distinção de melanina, ordenado e, principalmente, nível de instrução.

Os donos das Faculdades Estácio de Sá ("seu canudo em suaves prestações") e mercearias assemelhadas estão rindo a bandeiras despregadas.

 

11 janeiro, 2005

Para Cristina Calderaro et caterva
Por irmão Paulo

“Hoje, você é quem manda. Falou, tá falado e não tem discussão. A minha gente, hoje, anda falando de lado e olhando pro chão, viu!? Você, que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão; você, que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia! Eu pergunto a você: onde vai se esconder da enorme euforia? Como vai proibir quando o galo insistir em cantar? Água nova brotando e a gente se amando sem parar!

Quando chegar o momento, esse meu sofrimento, vou cobrar com juros, juro! Todo esse amor reprimido, esse grito contido, este samba no escuro. Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar! Você vai pagar, e é dobrado!, cada lágrima rolada nesse meu penar.
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia! Inda pago pra ver o jardim florescer, qual você não queria. Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença. E eu vou morrer de rir, que esse dia há de vir antes do que você pensa!

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia! você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como vai se explicar vendo o céu clarear de repente, impunemente? Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente?Apesar de vocês, amanhã há de ser outro dia! E Você vai se dar mal etc. e tal.”
Com os afetuosos e sinceros cumprimentos do irmão Paulo

 

10 janeiro, 2005

Dane-se o Grande Irmão
Por Fran Pacheco

"Seja imbecil, ganhe um milhão."


Não se pode ganhar todas... O fato de eu estar de fora da nova edição do Big Bode só me desperta (de leve) um sentimento sereno de ódio, inveja, desprezo e azia. Que grande autista o Brasil vai deixar de conhecer. E que grande bolada eu vou deixar de levar pra tumba. Treinei durante meses o meu personagem: tosco, bronco, semi-analfabeto, desdentado, atarracado, malandro, mulherengo, malemolente, bom de copo, bamba no gingado, cheio de bossa e marcas de varíola na cara, vivendo de expedientes, connoisseur de mé, priápico, deslumbrado, abusado. Uma barriga indecente de chopp cotada para ser o xodó do verão. Só não daria pra ser mulher, mãe-solteira e favelada. Aí sim, seria batatíssima. O prêmio já estaria garantido por antecipação.

O Brasil iria se deliciar com meu carregadíssimo sotaque (arduamente ensaiado) de cabocão pávulo (caipira ficou demodé). Minhas expressões regionais como "ulha, já!", "Eras, maninha!", "Já me vu", virariam bordões nacionais. Em cada padaria e repartição do país, o povo exclamaria: "tu é leso, é?" (ou na forma sucinta: "télesé?") Nem preciso falar que, ao sair da redoma, depois de posar nu para a The Economist, seria recebido como herói em minha terra e ganharia pensão eterna, como embaixador perpétuo da cultura cabocla.

Típico exemplar do "machão latinoamericano", eu aumentaria em várias polegadas a audiência nacional, abatendo todas, todas as lebres da casa, sem o auxílio de edredons ou cafofos. Como diria mestre Zé Trindade, "comigo é no jiló!". Praticaria com as donzelas, a céu aberto e à flor da pele, aquilo que Shakespeare chamou de "monstro de duas costas" (o que será, que será?).

Mas haveria os riscos. Pedro Bial, intelectual não-praticante e agora puxa-saco post-mortem do Dotô Roberto Marinho, bem que tentaria me desmascarar. Soltaria uns versos do Guinsberg ou do Rimbaud como quem não quer nada, só para me forçar, num ato falho, a um comentário como "Não me conformo por Rimbaud ter parado de compor aos 21 anos, maninha. Je ne compris pas! Mas ulha já, a tradução do Ivo Barroso até que tá ajeitadinha". Seria o meu fim... E se, falando dormindo, eu desatasse a declamar a plenos pulmões a Ode Marítima do Fernando Pessoa? Mico maior não poderia haver! Eu estaria fadado a ser entrevistado pelo Abujamra.

Ainda bem que eu nem sequer me inscrevi. Não se pode enganar todo mundo o tempo todo. Principalmente sem distribuir propina. O povo não é besta, só tem eventuais recaídas. E dá licença, que eu vou dar uma espiadinha antes que a novela das oito comece.

 

08 janeiro, 2005

A volta dos que não foram
Por Ishtar dos 7 Véus, a hedonista


Uma enfermeira da Cruz Vermelha ajuda Hedôzinha a se livrar da merda que foi pegar onda no Sri Lanka durante o réveillon.


Volteeeeeeeei, fofitos!!! A Hedôzinha de vocês tava morrendo de saudades... but, entendam que até uma mulher up-to-date-in-tudo-hype-dance-desencarnada precisa de umas vacations básicas para refletir sobre a vida, o ser humano, a cabeçorra uó do Serafim Corrêa... enfim, about the life... Pode deixar que eu não esqueci dos meus fofitos enquanto pulava as três ondinhas tsunamis, comia a minha uvita, jogava umas flowers pra Iemanjá e beijava meu bofito tudo (Tá.. tá.. tá... Nessa horita eu me esqueci de vocês sim! Mas foi só nesse momentito...). Desejo um 2005 tuuuuuuuuuuuudo de bom pra vocês, linditos... Saúde, Paz, Bofitos, Meninitas (pra minhas friends pocheteiras, of course, e pros meninitos straight... Why not?) e tudo do melhor porque meus leitorzitos merecem o melhor!!! Thiago eu amei o seu convite pra conhecer os bofitos de Londrina, but eu sou uma meninita comprometida... Mas tenho certeza que eles são tchuuuuudo! E don't worry Zee e Lorena, porque já está quase pronta a minha comunidade no Orkut, com o singelo título (provisório... mulher de aquário, né...? Indeciiiiiisa): "O Dia em que Descobri que Minha Mãe Amava o KLB " ...Intrigante, né? Serginho, meu fofito, você quer ser a Cameron Diaz? Tuuuudo bem... Eu queria ser a Lynda Carter... Na verdade a Diana Prince, porque achava o Steve Trevor tuuuuudo de bom... Já pensou? Ele em perigo e eu rodopiando ao som de "Wonder Woooooomaaaan...."? Salvando o bofe e ainda descolando uns beijitos (não leia isso Mister K!!!)... Ia ser a Glória... Gaynor, Stefan, Pires e Menezes!!! Quem eu quero ser agora? Huuuum... Huuuum... Julia Roberts? Beyoncé? Gisele? Noooooot!!! Quero ser eu mesma... só que muito, muuuuuito rica!!! Dinheiro não traz felicidade? Tá... Tá... Eu penso nisso esquiando em Aspen ou tomando um solzinho na Riviera Francesa... Beijitos, beijitos... Ah, ah... Fabiana amei seu Fotolog! Dante Graça seu bloguezito é tchuuuudo... Adorei saber sobre a sua life! Nem parece que você puxou ao seu pai, o poeta Almir Graça, ou ao seu tio, o famoso escritor Antonio Paulo Graça... Meninas, me aguardem na laje!!! Axé!

 

07 janeiro, 2005

Serafinismo
Por irmão Paulo



Os últimos atos do Camarada Prefeito desta escrota cidade de muro baixo poderiam gerar, se Manaus existisse para o Brasil e para o mundo, um verbete para o dicionário Houaiss e para os compêndios de história, derivado mesmo do verbete macarthismo contido naquele dicionário, e que sugiro fosse algo mais ou menos assim:

Serafinismo
Datação
séc.XXI
Acepções
substantivo masculino
1 Rubrica: história, política.
prática política levada ao extremo na desaparecida cidade de Manaus, que se caracteriza por sectarismo de inspiração fascista, notadamente contra adversários políticos e seus aliados, inspirada no movimento político-religioso dirigido pelo prefeito Serafim Corrêa durante os anos 2000, no Brasil.

2 Derivação: por extensão de sentido.
prática de formular acusações, divulgar listas e fazer insinuações sem provas, comparável à que caracterizou o movimento Serafinista.


A patuléia, entenda-se esquerdistas e ralé, vai a euforia vendo a ilegal e infamante divulgação da lista de nomes dos supostos fantasmas, aspones, apaniguados do poderosos antigos, apaniguados de poderosos de outros poderes (que não convém perseguir), gente que trabalha, jornalistas (mas isso a imprensa não divulga), artistas (numa moderna relação de mecenato) e muitos outros.

Como todo filho da puta perseguidor, entretanto, após avacalhar com as pessoas cujos nomes foram divulgados (todos como felizes lactentes das tetas municipais), pondera o camarada Prefeito que as distorções serão reexaminadas e aquelas pessoas cujo trabalho (mas não eram todos aspones fantasmas!?) seja essencial para a prefeitura, serão contratados temporariamente.

Assim procedendo, talvez pela inexperiência – ou num ato falho, o camarada Prefeito acabou soltando dois absurdos de uma só vez: o primeiro é reconhecer que as demissões foram feitas sem critério e, portanto, admitem revisão, o segundo é dizer que contratará temporariamente aquelas pessoas cujo trabalho seja essencial – pela disciplina constitucional a contratação temporária se faz mediante processo seletivo simplificado e não pela essencialidade da pessoa do contratado.

Evidentemente, como não estamos no país das maravilhas, e Alice nunca foi aquela menina loirinha do Disney, as revisões que fará o camarada Prefeito não se darão pela essencialidade do trabalho, mas por critérios políticos e de conveniência. Fico imaginando a reunião da cúpula municipal destinada a corrigir as distorções. Enquanto o camarada Prefeito se dedica a uma de suas intermináveis sessões de massagem com gelol no dedo indicador, o camarada vice prossegue incansável, com aquela voz de quem tá com um testículo (alheio) na boca e um pentelho engatado na garganta: pô, Serafim, essa moça é gente nossa. Tu acabaste de nomeá-la para um cargo de direção. E esse aqui, é filho do desembargador, não podemos brigar com essa gente (vale um pedido formal de desculpas, dizer que as demissões em massa decorreram da disciplina do decreto e não de perseguições). E o Oscarino, vai morrer de fome agora que ninguém mais gosta do Peteleco, manda ele pra Secretaria de Cultura mas não deixa o cara na rua da amargura. E esse cara aqui, ele tava com a gente na campanha. Pfiu!

Lentamente, ou talvez nem tão lentamente assim, novos (e velhos inofensivos) aspones tomarão conta dos espaços livres. A Comuna anda seca por uma sinecura. Desde que a União Soviética quebrou e os subsídios internacionais minguaram essa gente, que deixou de comer caviar iraniano e beber vodka russa, tem passado a cachaça e pão-doce. Como diria alguém, de quem já não me recordo, remédio de comunista é dinheiro. Exemplifico com o caso do PT local, marcha na eleição municipal de um lado oposto ao do governador, mas permanece governo.

Os piores presságios para a Administração que se inicia. Serafim cumprirá o papel de Artur Neto em 1988, ser um fracasso administrativo e político e assegurar, waal, mais vinte de poder para o outro lado.

 

All you need is Love
Por Cartier, Free-Lancer


Máquina fotographica descartável Love, produzida na Zona Franca de Manô na década de 80. Marco do desenvolvimento téquinico do Bananão. Cem anos depois de George Eastman lançar sua primeira Kodak descartável, nós chegamos lá. Que o espírito inventivo, visionário e avant-la-lettre do brasileiro nunca desfaleça!


 

05 janeiro, 2005

Todos os links levam a Phi-Phi
Por Fran Pacheco

Em Bushlândia, um nerd de 21 anos mantinha um blogue de opiniões políticas, que recebia 10 visitas por dia (sendo 5 dele próprio, para checar se alguém tinha passado por lá.). Eis que o fedelho colocou uma seleta de links para os vídeos da Tsunami e o saite recebeu, num só dia, 640 mil acessos (mais do que todos os blogues do Amazonas juntos, em toda a Era Moderna). A comoção com a catástrofe foi tamanha que A Crítica estampou, em plena capa de 04/01/05, que Sandra Bullock doaria "US$ 1 bi" (sic) para as vítimas. Nem Tio Gates seria tão filantropo. Nem a "atriz", cujo checaço foi de 1 milhão de dólares (mesmo assim, eu aceito). Coincidentemente, Hélio Bessa, o nefasto ex-sátrapa de Tefé, sacou um milhão de merrecas da conta da prefeitura de seu rico município, na véspera de encerrar o mandato. E sumiu. Acredita-se que o humanitário político seguiu para a região da hecatombe, onde fará o papel de vítima e doará a si próprio a bolada, tomando sol na ilha de Phi-Phi.



 

Homem de Palha
Por irmão Paulo

Segundo os entendidos trata-se de um sujeito que descreve enganosamente ou deturpa as idéias do oponente, para em seguida atacar essas idéias e concluir que foram demolidas. É um falso porque deixa de lidar com os argumentos verdadeiros feitos pelo adversário ou com a realidade dos fatos. Alfredo Nascimento, mesmo que por falta de compreensão e burrice, não por premeditação inteligente – o que pressupõe a existência de um cérebro, é o Homem de Palha da política amazonense.

Enquanto exerceu funções subalternas, compondo a matilha de Amazonino Mendes, sua obtusidade – lato sensu - era um fato folclórico, algo engraçado, mas sobretudo tolerável porque inofensivo. Cabo Pereira, como era chamado por suas origens militares e por sua pouca instrução, só fazia o que o mestre mandasse. Seu primitivismo, assim, ficava encoberto pelo cargo. Ao assumir um posto de comando, vimos desveladas as imensas limitações intelectuais, morais e éticas da figura.

Abandonou a Prefeitura de Manaus à própria sorte, sequer conseguindo articular-se para eleger seus sucessores, tendo criado um vácuo de coordenação que possibilitou a Amazonino Mendes imiscuir-se naquele Poder, com a fome que lhe é peculiar, e exercer a mais nefanda, embora legítima, influência. Formou com Vanessa Grazziotin e não conseguiu, sequer, levar a moça ao segundo turno e terminou nos braços de Serafim – que fez pouco de seu apoio desde sempre até agora.

Alfredo Nascimento e caterva familiar são seguramente dos mais ricos no Amazonas. Hotéis, hospitais e empreendimentos diversos em outros estados da Federação, empresas de recauchutagem e blokrets de concreto, a nova locadora de vídeo da João Valério e por aí vai. Ao falar das planilhas das empresas de ônibus e declarar-se um homem limpo, desviando o assunto, é justamente porque, num movimento de inversão típico da política, o Arigó é mais sujo que pau-de-galinheiro. Descerebrado, declara que vai ao Ministério Público pedir apuração de tudo no mesmo dia em que o Procurador-Geral de Justiça informa à sociedade que irá reabrir procedimentos apuratórios inadequadamente arquivados e encaminhar o que houver, contra o Arigó, ao STF.

Distorcendo a discussão, deixa de explicar por que ao longo de quase oito anos na Prefeitura nunca realizou licitação para o sistema de transporte, nem explicou (ou deu sua versão) acerca dos alegados excedentes de 22 centavos no preço da passagem. Homem de palha, com cérebro de milho (mas bolso de ouro), enrola ao invés de explicar, argumenta uma hitchcoquiana armação política para esconder que ele sim, ao invés do outro que jactou-se par de anos atrás, talvez seja um dos homens mais ricos do Amazonas. Infeliz do caminhoneiro que viabilizou a saída desse infeliz da região desgraçada onde nasceu. Infeliz dos Amazonenses, que agora haverão de resolver, ao menos simbolicamente no voto, o que a seca, a fome e a praga não fizeram com ele antes do primeiro ano de vida.

 

A última palavra em piada de mau gosto
Por Fran Pacheco

Sabino C.B. já tentou, em vão, ser de tudo na vida: tira, mercador de especiarias, deputado, menina-dos-olhos-do-Negão, vice-prefeito, presidente da Câmara Municipal, tutor do curupira imaginário da Dra. Maníaca Soraya e até ser o vereador mais votado do Brasil (não foi). Agora quer ser presidente da (sentem-se) Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. Seria como Tiririca cuidando do jurídico do Zorra Total.

 

04 janeiro, 2005

Nome aos bois
Por Prof. Azancoth (Cathedrático & Devasso)

"All the things I really like to do are either immoral, illegal or fattening."
Alexander Woollcott, jornalista norte-americano (1887-1943)

"Because it feels eternal while it lasts."
T. S. Eliot, poeta inglês (1888-1965)

"Navigare necesse est. Vivere non necesse."
Pompeu, general romano (106 A.C - 48 A.C)

"O Brasil não é um país sério."
Carlos Alves de Souza, embaixador do Brasil na França, em 1962

"Play it again, Sam!"
Nem Ingrid, nem Bogie, nem ninguém, em Casablanca (1942)


 

03 janeiro, 2005

Enquanto isso, na Prefeitura...
Por Cartier, Free-Lancer


 

02 janeiro, 2005

Previsões recauchutadas para 2005
Por Fran Pacheco

A renda per capita do brasileiro crescerá, mas seu patrão fingirá que não é com você. O salário mínimo, por uma questão de coerência, continuará mínimo. O técnico da Seleção será chamado de burro pela sapiente torcida. Um em cada cinco sujeitos continuará sendo chinês (exceto na China, onde eles serão a maioria esmagadora). Renato Russo ou Cássia Eller lançarão um novo disco. Tetas siliconadas se multiplicarão. Seu computador ficará obsoleto. O tema cultural mais palpitante do brasileiro será a novela das oito. Roberto Carlos gravará um álbum brega e fará um show reciclado na Globo (provavelmente no fim do ano). Famílias carentes, com cinco filhos, terão mais um. No boxe, será travada a luta do século. Parlamentares legislarão pro domo sua (em causa própria). Grandes times cariocas serão ameaçados de rebaixamento no Brasileirão. Fausto Silva continuará de mau humor, ganhando R$ 200 mil por mês. Uma mega-operação da PF prenderá figurões que serão soltos pela Justiça. A NASA fará uma importante descoberta astronômica, que não afetará a vida de ninguém. Um velho artista de cinema morrerá. Paulo Coelho venderá milhares de livros. Uma chuva inundará a cidade de São Paulo (preparem-se). A Portela não será campeã do carnaval carioca. O América não ganhará o Estadual. Nem Dalton Trevisan, nem J. D. Salinger concederão entrevistas. O Brasil não levará o Oscar de Filme Estrangeiro, mas a França arrebatará o César, o Óscar do cinema francês. Um furacão varrerá a Flórida, sem nenhum morto. Saramago, Chico e Niemeyer assinarão manifestos pró-Fidel. Os jornais estamparão erros crassos em suas manchetes. As nulidades reinarão absolutas nas colunas sociais. As nulidades (de todos os níveis sociais) receberão diplomas de curso superior.

A realidade continuará mais criativa que qualquer esforço de nossa vã imaginação.