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02 maio, 2006

A Veja que não circulou
Por irmão Paulo

Com 9 anos de atraso, a Veja que não circulou no Amazonas.
04.06.1997
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POROROCA DE ESCÂNDALOS
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Depois da acusação de comprar votos
pela reeleição, Amazonino Mendes é suspeito
de ter empreiteira que trabalha para o Estado
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Sandra Brasil e Leonel Rocha

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O governador
Amazonino (foto ao lado),
o ex-testa-de-ferro
Fernando Bomfim
e o corpo de Rosenski:
reunião para falar de golpes e
de um assassinato
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Quatro meses depois de fazer bonito na reeleição, em que entregou dezenove votos para ajudar o governo a aprovar a emenda que permitirá a Fernando Henrique Cardoso disputar um segundo mandato em 1998, o governador Amazonino Mendes, do Amazonas, transformou-se numa pororoca de escândalos. Há duas semanas, ele apareceu como homem da mala no balcão da reeleição, apontado por dois ex-deputados que venderam seus votos por 200.000 reais. Na semana passada, o governador foi acusado de outro crime -- ser o verdadeiro dono de uma das empreiteiras mais ativas do Amazonas, a Econcel, que, fundada há cinco anos, faturou mais de 50 milhões de reais em duas dezenas de obras públicas no Estado. Caso a denúncia seja comprovada, Amazonino Mendes terá assegurado um lugar inovador na história da corrupção brasileira. Não é o clássico caso do político que promove concorrências fraudadas para beneficiar empreiteiros, recebendo uma comissão em troca -- o governador faz obras públicas em benefício próprio, sem intermediários.

A denúncia foi feita por um empresário de Manaus, Fernando Bomfim. Correndo o risco de se auto-incriminar e ir para a cadeia por falsidade ideológica, com pena prevista de um a cinco anos de prisão, Bomfim confessou ter feito carreira como testa-de-ferro de Amazonino. Ele tem meios de sustentar o que diz. No dia 17 de março, Bomfim gravou uma conversa com Armando, filho do governador. Na reunião, que durou duas horas, fala-se sem rodeios sobre a troca dos laranjas na empresa. Pela conversa, Bomfim entregaria sua parte na empresa, 70% das ações, para ser dividida entre outros três testas-de-ferro: Alexandre Auad Neto e seu filho, André, e Julio Mussa Cury. Na fita, o filho Armando diz, com a naturalidade de quem está acertando a compra de um automóvel numa concessionária, que o pai pediu que a troca fosse feita o mais depressa possível e relata que levou uma bronca pela demora em resolver a questão. Existe uma prova de que a negociação da fita é autêntica. Num dos cartórios de Manaus consta que, oito dias depois da reunião gravada, a Econcel trocou mesmo de "sócios". Pelos documentos, a mudança foi idêntica ao que se acertara na fita.

Homem rico -- Aos 57 anos, Amazonino Mendes é um milionário, com patrimônio estimado em 200 milhões de reais. Mas, sempre que precisa revelar sua fortuna à Justiça Eleitoral, o que vem a público é uma lista de bens de operário da Zona Franca. Daí por que no Amazonas se desconfia que o governador recorra a testas-de-ferro para comandar as suas empresas. A Capa e a Exata, duas empreiteiras do Estado, por exemplo, são de Otávio Raman, um ex-motorista de caminhão e dono da belíssima mansão onde o governador reside em Manaus. Na fita, diz-se que Raman costuma apresentar-se como sócio do governador. A Exata fechou recentemente. "A tática é essa", acusa Bomfim. "Eles criam uma empresa, colocam no nome de alguém e sonegam impostos até pedir a falência. Depois criam outra, com outro testa-de-ferro, e assim vão indo", conta.

O engenheiro Fernando Bomfim, 56 anos, que até janeiro presidia a Ceam, a estatal de energia elétrica do Estado, conhece Amazonino Mendes há mais de trinta anos. "Do tempo em que nem eu nem ele tínhamos onde cair vivos quanto mais mortos", diz Bomfim, que hoje também é um homem rico, com 3 milhões de reais de patrimônio. Em abril de 1995, três meses depois de tomar posse como governador do Estado pela segunda vez, Amazonino chamou Bomfim para uma conversa. Disse que a Econcel, havia três anos, estava crescendo muito e queria pôr no comando da empresa alguém de sua estrita confiança. Com a concordância em emprestar seu nome, Bomfim entrou no lugar de outro testa-de-ferro. Dono de uma consultoria, recebia da Econcel por serviços prestados. Ficou dois anos como testa-de-ferro. "Não ganhava nada dos lucros da empresa", afirma, dando a entender que, para azar de Amazonino, não se tornou testa-de-ferro por amor -- mas por resultados.

Assassinato -- Rica nos detalhes, a fita mostra que pai e filho têm uma relação de disputa em família -- tanto que, a certa altura, Armando, 32 anos, conta que conversou com o pai só para desfazer a suspeita de que o estava roubando. Armando também fala de um assunto escabroso, a morte do empresário Samek Rosenski, dono da fábrica de relógio Cosmos, assassinado em São Paulo, com um tiro na cabeça, quando seu carro estava parado num cruzamento. Depois de dizer que foi prejudicado por Rosenski num negócio, Armando revela detalhes sobre sua morte. Conta que soube do assassinato de Rosenski quando estava de viagem por Viena e relata uma novidade sobre o crime -- um segurança seu em São Paulo foi a primeira pessoa a encontrar o corpo. Ao saber da morte, um sócio que o acompanhava na viagem ficou tão contente que comemorou com um champanhe. No meio da conversa, em tom pouco angelical, Bomfim chega a comentar: "Esse f.d.p. mereceu a bala na cabeça".

Tantos detalhes produziram a hipótese de que a família do governador poderia estar envolvida até num assassinato. Mesmo porque o principal condenado até hoje, Samuel Wolfsdorf, um ex-funcionário de Rosenski, foi para a cadeia por ter contratado os três matadores do empresário, mas jamais ficou claro quem foi o mandante do crime. "Nada impede que haja outra pessoa acima dele", admite a promotora Eloísa Damasceno, que trabalhou no caso. Ao tomar conhecimento da fita gravada, no entanto, a família do empresário morto redigiu uma nota repudiando a suspeita sobre o governador. Também não existe um motivo claro para que a família do governador arquitetasse o crime. Pelo contrário. "O Amazonino era um sócio oculto dos negócios de Rosenski . Com a morte dele, os herdeiros não lhe deram a parte devida e o governador teve prejuízo de milhões", suspeita Bomfim.

"Lancetar o tumor" -- "Jamais tive e não tenho testa-de-ferro e vou provar que a Econcel nunca recebeu privilégios para realizar obras no Estado", diz Amazonino Mendes. Já houve passeatas de protesto contra Amazonino em Manaus, mas por enquanto o governador parece tranqüilo. Entre os 24 deputados que integram a Assembléia Legislativa, que poderia criar uma CPI para investigá-lo, dezessete compõem a bancada de apoio ao governo. Outro risco para Amazonino, bem mais sério, seria uma CPI no Congresso Nacional. Nesse caso, é o governo Fernando Henrique que trabalha, noite e dia, para impedir que seu aliado do PFL na campanha pela reeleição sofra constrangimentos. O Planalto botou cabresto no PSDB e no PFL, fazendo com que os recalcitrantes tirassem a assinatura de apoio à CPI. O governo quer que a investigação pare nos dois pobres-diabos que renunciaram. Não tem curiosidade em saber quem deu dinheiro aos ex-deputados Ronivon e João Maia, esperando que o escândalo seja encerrado com a simples cassação dos deputados do Acre suspeitos de vender o voto. Na semana passada, com a denúncia de corrupção nas prefeituras do PT, a bancada do governo, no Congresso e também na imprensa, fez a festa, pois ficou mais fácil esquecer as propinas da reeleição (veja reportagem nesta página).

Nem tudo correu como manda o figurino, porém. Na terça-feira, o veterano Almino Affonso, tucano de São Paulo, relator do processo de cassação de três deputados na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, não quis ser conivente com a operação-abafa. Almino ficou convencido de que queriam fazê-lo de bobo, pois o órgão não tem poderes para chamar suspeitos e testemunhas, para dar voz de prisão em caso de depoimentos falsos nem para pedir a quebra de sigilo bancário. "No máximo, poderia convidar os envolvidos a depor, mas jamais poderia convocá-los com força impositiva", diz o deputado. Depois de ler o regimento e estudar o caso, o deputado concluiu que faria um trabalho pela metade. "Poderia até punir quem vendeu os votos, mas deixaria na impunidade aqueles que compraram os votos."

Depois da renúncia, Almino Affonso distribuiu nota à imprensa em que se manifestava a favor da criação da CPI. "Ouso fazer um apelo às forças que apóiam o presidente Fernando Henrique Cardoso no sentido de que tenham a coragem cívica de lancetar o tumor, que vai crescendo quanto mais se busca ocultá-lo", diz a nota. O Planalto não se comoveu. Tanto que já encontrou um substituto para Almino, o obscuro deputado Nelson Otoch, do PSDB do Ceará. Aos 57 anos, Otoch cumpre o primeiro mandato, mas a falta de experiência não é o traço mais marcante de seu perfil. Ele também é radical adversário da CPI da reeleição. "Uma CPI somente serviria para atender a interesses partidários", diz Otoch.

 

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