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27 abril, 2006

Os Bons Companheiros
Por irmão Paulo

Jornal do Brasil
Augusto Nunes
23.04.2006














Se tivessem intimidade com o histórico da vítima, como se comportariam os algozes do senador Gilberto Mestrinho? Dos 15 invasores do casarão em São Conrado, meia dúzia decerto desistiria da operação. Uns por medo do inquilino: o velho morubixaba - menos pelo currículo político e mais pela folha corrida - inspira respeito mesmo entre assaltantes muito competentes. Outros por espírito corpo, pois um colega com tal passado não merece virar alvo sem mais nem menos.

Em 1958, Mestrinho elegeu-se prefeito de Manaus com 30 anos. O jovem tinha pressa. Governador do Amazonas aos 31, deputado federal aos 34, começava a transformar-se em celebridade nacional quando tropeçou em casos de corrupção explícita e caiu na teia dos vitoriosos de 1964. E então aprendeu a esperar. Anistiado em 1979, voltou com 51 anos e a gula dos tempos de moço. Foi governador mais duas vezes e é senador desde 1999. Um currículo notável.

Tão notável quanto o prontuário. Antes da cassação, o pai do PTB colecionou votos e cédulas com idêntica habilidade. Depois do castigo, o feiticeiro cinqüentão continuou, transferido para o PMDB, a lidar com urnas e cifras. Se conhecessem as proezas do inquilino, os assaltantes agiriam com o ar beatífico de quem reivindica 100 anos de perdão.

Quando 15 filhos da Floresta da Tijuca saltaram o muro dos fundos. o Senhor das Selvas e Matas, faceiro aos 78 anos, nem imaginava que o destino o escolhera para ilustrar a cizânia na nação dos gatunos. Quando partiram, quatro horas depois, sofrera perdas relevantes. No plano espiritual. Foi-se a paz. No material, ficou dezenas de milhares de reais menos rico.

Os invasores levaram de São Conrado dois cofres de conteúdo ignorado, uma minigaleria de obras de arte, jóias, dólares, R$ 16 mil em espécie e quinquilharias bem cotadas na bolsa-favela. Descontados cofres e quadros, a tunga soma, nos cálculos mais conservadores, R$ 120 mil. A quantia é amplamente inferior à fortuna de Mestrinho. Mas não é pouca coisa.

Com esse dinheiro é possível, por exemplo, comprar no Feirão do Congresso um josémentor, doís e meio joõespauloscunhas, seis professoresluizinhos. Ou alugar por quatro meses um deputado mensalista. Não é pouca coisa, certo? E não foi tudo.

O país também lucrou com as revelações produzidas pelo episódio. Sabe-se agora que Mestrinho cabula sessões do Senado até no meio da semana. Que passeia na praia em vez de passar o eleitorado amazonense em revista. Que a farra das passagens aéreas facilita a vadiagem no Rio. Que o troco para o supermercado e o cigarro passa de R$ 15 mil. Que a pouca vergonha é muita.

Os assaltantes continuam por aí, submersos no anonimato. Multidões de cariocas aguardam a chance de cumprimentá-los. Injuriado, Mestrinho avisa que vai vender a casa e sumir de São Conrado para sempre.

Bom trabalho, rapazes. Boa viagem, senador. Parabéns, Rio de Janeiro

 

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