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04 fevereiro, 2007

Só não vai quem já morreu
Por Wally Sailormoon


Hoje em dia, soerguer-me desta cama requer um esforço heróico. Admiro os de sangue quente, de fronte altiva, os de alma aventureira, os bravos, como Fran Pacheco e Cecezinho, mas minha natureza está ferreteada por uma sonolência torpe. Cada perna, cada braço, cabeça, tronco, membros; o corpo inteiro na recusa mole de se levantar.

Nem sempre foi assim, mas agora é difícil imaginar um tempo antes da abulia se instalar definitivamente em mim. A começar que somente aceito a expressão – abulia – porque não quero me abalar para inventar outra. Mesmo tratando toda esta história toda de diagnóstico como uma pasta a ser deixada de parte, resta-me uma ressalva: que ando sentindo ultimamente?

Sei que não posso partir de um ponto preciso definido assim como “tudo começou no dia tal... do mês tal... do ano tal”. Mas posso intuir que essa balada baiana tem culpa no cartório. Cair na pândega cerca de sete dias seguidos movido a mandrix não é pra qualquer hendrix... E ainda ter de encarar a petulância sibarita de uns e outros, que não entendem de asas crestadas pelo sol e confundem alhos com bugatti. Cansa. Cansa muito.

"Como é que alguém em sã consciência pode se divertir sendo esmagado por milhões de pessoas sob um sol de 40 graus? Esses baianos são malucos!", explica para sua acompanhante suíça um rufião do sul-maravilha, experimentando um caldinho de sururu na baixa do Sapateiro, enquanto limpa o suor do rosto. Deviam estar em Porto de Galinhas.

"Olha, véi, quem pode gostá de muska que rima calô com Salvadô e iê-iê-iê com iô-iô-iô?", questiona um pascácio com jeito de pernambucano, enquanto barganha o preço da moqueca de aratu com um ambulante desdentado, fantasiado de bob marley. Devia estar no Galo da Madrugada.

"Uai, sô, por que pagá tão caro só pra usá uma camiseta colorida com nome de canjica africana e brincá dentro de um cercado de corda junto com milhares de bêbado, fardados que nem ocê?", pergunta um mequetrefe, com sotaque de goiano – conheço cornos pelo sotaque! – a um vendedor de fitinhas de Nosso Senhor do Bomfim. Devia estar com saudades do Ricardão.

OK. Confesso. É tudo verdade o que dizem esses zé-ruelas. Mas há algo no Carnaval de Salvador que emociona, contagia, faz a vida parecer maravilhosa e, finalmente, vicia como buceta sem pentelho. O grande barato é a esbórnia nua e crua, sem maiores misticismos. Ainda não inventaram uma putaria tão insana como o carnaval soteropolitano.

Ali, uísque, vodka, cachaça e maconha fazem parte do café da manhã, beija-se loucamente qualquer boca feminina em seu raio de visão, come-se tudo que mijar de cócoras e não for sapo, amores eternos de cinco minutos surgem a cada esquina, queima-se o filme sem maiores conseqüências, encoxam-se bundas que não estão no mapa e pulam-se 20 horas diárias sem que o cansaço dê as caras.

Dormir está fora de cogitação. Quando o bloco cumpre seu trajeto, é hora de esticar em algum camarote pra rebocar outra vadia ou tentar sobreviver na pipoca para ver os outros trios. Como dizem os baianos, "se não güenta, por que veio?". Ou em linguagem de caboco amazonense: “Quem não agüenta pica, não se mete a fresco!”

A primeira vez que um trio elétrico cruza o nosso caminho a gente nunca esquece. De repente, ouve-se um ruído grave, algo parecido com um trovão. Em seguida, a maré humana recua e desaparece por alguns minutos para em seguida voltar em êxtase, arrastando tudo o que estiver pela frente. A pipoca pula mais que nunca e espreme os membros do bloco até que três corpos ocupem o mesmo lugar no espaço. Alguns choram, outros gritam. Tem gente que só se desgruda se for molhada com água, que nem cachorro.

Onde está o fracasso se a platéia inteira aplaude e ainda pede bis e só os zé-ruelas vaiam?

Vaia de bêbado não vale, claro. E agora é que a heliogábalo está começando, skindô, skindô!

Luz estrela ficou flat, queremos radiância óvni. Varei!