Image hosting by Photobucket

04 fevereiro, 2007

Meu barraco com o Rei da Pilantragem
Por Torquato Piauí


A propósito de Wilson Simonal. Não é preciso conhecer a biografia do moço para se reconhecer um irrecuperável cantor de rock’n’roll. Mas a verdade é que ele começou mesmo pelas mãos de Carlos Imperial e foi lançado cantando aquele obsoleto gênero rebolativo, no programa do provecto senhor Jair de Taumaturgo etc etc. Não tem importância.

Como não teve importância para Simonal o fato de ter sido, depois, aproveitado por Luís Carlos Miéle (que já morreu e não sabe) e Ronaldo Bôscoli (que mesmo morto continua vivíssimo), em shows de boate e teatro, que faturavam bem para os três. Foi mesmo que nada, ou melhor, deu maior tarimba ao rapaz.

Simonal continuou cantando rock-baladas com esforço, a dupla fez o possível para melhorar, pelo menos, o seu repertório. E por dentro da – então – nova onda da bossa-nova, ele encontrou um “estilo”, uma “nova dimensão” que consistia em deixar cair um “champignon” enjoado sobre tantas canções bonitas que gravou, cantou em shows de boates, teatro ou no banheiro.

Há uma coleção deles: “Lobo bobo”, de Lira e Bôscoli, “De manhã”, de Caetano Veloso, “Minha namorada”, de Lira e Vinicius, “das rosas”, de Caymmi, “Roda”, de Gilberto Gil etc. ouçam o compacto de Simonal com “A banda” e “Disparada”. Pode? Não pode. E no entanto Simonal grava e faz sucesso.

Temos um “selo”, um nome para essas bobagens: o famoso “samba-jovem”, tolice publicitária e musical, barulheira desagradável, mistura cafajeste de samba e iê-iê-iê. Mas Wilson Simonal tem humor, dizem os seus amigos. É uma das pessoas mais engraçadas do mundo. Certo. Eu conheço Simonal e sei que é verdade. Engraçadíssimo. Conta piadas ótimas. E digo mais: tem uma voz muito bonita, é musical a beça, afinadíssimo. Mas canta rock, não canta samba nem aqui nem nos Estados Unidos.

Alguém mais afoito argumenta que ninguém tem obrigação de cantar samba, “apenas porque nasceu no Brasil”. Posso até concordar, acho que Roberto Carlos canata muito bem o iê-iê-iê dele. “Namoradinha de um amigo meu” é tão bonitinho! Mas isso não tem nada a ver com o que o Simonal faz, pelo amor de Deus.

Ele grava “Tem dó”, um samba d Baden e Vinicius, e, no entanto, não canta o samba, canta outra coisa. Aí é que está: se Wilson Simonal gravasse “The Shadow of Your Smile”, que é música americana muito boa, talvez o fizesse melhor do que Chris Montez. E talvez eu batesse palmas. Mas o serviço de Simonal é malfeito, é errado e feio. Porque não é coisa nenhuma.

Há muitos e muitos anos, assisti um show dele que estava em cartaz em Copacabana (Teatro Princesa Isabel) que mostrava claramente que Simonal estava irrecuperável porque estava satisfeitíssimo com o que fazia. Miéli e Bôscoli são profissionais, bons profissionais fazem o que pode. Procuram, pelo menos salvar as aparências e livrar a cara. Deram a Simonal para que cantasse um repertório honesto de músicas brasileiras. Que somadas a Wilson Simonal resultaram naquele aguado twist de segunda categoria.

Foi por causa disso que eu cortei o microfone e o impedi de se apresentar no desassombrado show “Zé Kéti Convida”, que rolou na semana passada, no falecido Le Bateau, em Copacabana, com a presença de Nara Leão, Jovelina Pérola Negra, Candeia, Beto sem Braço, Cartola, Nelson Cavaquinho, João do Vale, Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Bussunda, Mussum, Xangô da Mangueira, Fortuna, João da Baiana, Donga, Leon Eliachar, Almirante, Albino Pinheiro, Ferdy Carneiro, Leila Diniz, Adelino Moreira, Ary Barroso, Adoniran Barbosa, João Nogueira, Moreira da Silva e outros partideiros pedra noventa.

Aliás, se não fosse a enérgica intervenção do síndico Tim Maia, o auto-nomeado “Rei da Pilantragem” iria transformar nosso divertido sarau na casa da mãe Joana. Vade retro, Simonal! E enfie seu boneco Mug naquele lugar. É o jeito.