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20 janeiro, 2007

Volta, Irmão Paulo: você está fazendo muita falta!
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

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A grande vantagem de ser amigo do Irmão Paulo é que você aprende e se diverte ao mesmo tempo enquanto desfruta da companhia de um perfeito gentleman, de um homem fino e afetuoso, e testemunha a trajetória de uma das últimas grandes personalidades do jornalismo brasileiro.

Irmão Paulo é como Nelson Rodrigues, Glauber Rocha e outros raros titãs que deram graça, brilho, audácia e inteligência a sua vida e obra, enriquecendo nossa pobre e provinciana vida cultural com a chama da polêmica e da controvérsia - sempre. Até que o tempo acaba por lhes dar razão. Mas aí não tem mais graça, já é História.

Assim como Nelson e Glauber (com quem também tive a graça da convivência e do afeto) Irmão Paulo é sempre surpreendente e contraditório, livre e independente, atrevido e corajoso na riqueza de sua visão da vida e do tempo. E, como eles, naturalmente pouco compreendido.

Porque não respeita modas e ondas, escolas e tendências, palavras de ordem e lideranças do momento. Porque é um original e, como eles, criou e desenvolveu seu próprio personagem, cheio de conflitos e nuances, pleno de luz e sombra, em permanente transformação.

É múltiplo de si mesmo e, como eles, não deixa herdeiros e continuadores: é único e com ele acaba sua linhagem. E basta ler jornais no Brasil para saber disso. Mesmo não gostando dele.

Como Glauber e Nelson, muitas vezes Irmão Paulo é odiado e invejado, principalmente pelo que não é e pelo que não diz e não faz. Por ignorância e ressentimento.

É claro que não concordo com tudo que ele diz: nem ele mesmo concorda. Mas aprendo sempre, nem que seja por contraste. Principalmente porque sou um homem de fé, um sentimental, um otimista alegre que insiste em viver delicadamente - em direta oposição às características básicas de sua personalidade, da agressividade e racionalidade de seu estilo e atuação. O que não nos impede, pelo contrário, estimula, uma convivência amiga, afetuosa e respeitosa.

É assim que ele gosta, que gostaria que fosse, acho eu: que as pessoas pudessem discutir e confrontar suas opiniões sem rancor nem ressentimento, sem ódio e sem medo, com sinceridade e humor. Porque sabe também que nada é tão sério assim, que o mundo de horrores, vulgaridade e baixaria em que vivemos não pode ser levado tão a sério - e assim tornar-se ainda mais insuportável para qualquer pessoa com um pingo de consciência e sensibilidade.

Estranho que tantos não percebam uma de suas maiores qualidades que é o humor. Que não se divirtam com a sua ironia, que o leiam literalmente e o odeiem pelo seu avesso. Waaal. Ele não é tão sério assim, ninguém seria, sabendo o que ele sabe.

Relendo pela milésima vez seu livro "Waaal - Dicionário da Corte", tudo isso fica muito mais claro. Está tudo lá, vinte anos de "boutades" e sacadas, de descobertas e desilusões, de graças e desgraças, de deslumbramento e horror.

Daquele seu jeito ao mesmo tempo áspero e elegante, delicado (com música, pintura, balé, cinema, literatura) e contundente (com política e políticos, líderes e liderados), verbetes que se lê sempre com prazer e clareza, mesmo quando não se concorda com seu ponto de vista.

Além disso, o livro é um precioso guia cultural, riquíssimo em informações e reflexões sobre grandes artistas que podem trazer emoção e alegria aos olhos, ouvidos, coração e mente com suas criações. E Irmão Paulo os explica com paixão e gratidão, com conhecimento e reconhecimento, com inteligência e amor.

Claro, toda seleção é de certo modo arbitrária, e assim lá não estão algumas de suas idéias de que mais gosto, como as crianças - mais que os operários, os negros e as mulheres - como os grandes oprimidos, os proletários do mundo.

Porque mesmo as crianças ricas, em qualquer tempo e lugar, são sempre oprimidas e reprimidas. E como adoro crianças, principalmente as dos outros, simpatizo com essa idéia generosa. De alguém que não tem filhos.

Mas está lá uma de minhas favoritas: "Tudo que é científico termina furado. Podem chamar de Teorema do Irmão Paulo."

E, mais divertida, sobre a morte: "Se houver outra vida e eu tiver alguma mobilidade, prometo levar meu ectoplasma para Brasília e infernizar essa canaille."

Volta, Irmão Paulo! Você não é beque de subúrbio, mas está fazendo muita falta!