Image hosting by Photobucket

20 janeiro, 2007

Sapoti pra todos nós
Por Torquato Piauí

Photobucket - Video and Image HostingNa Igreja Batista do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, em 1950, Abelim Maria da Cunha era a primeira voz do coro. O reverendo Albertino Coutinho da Cunha, pastor da igreja, gostava da voz da filha. Todos os seus filhos cantavam durante os cultos religiosos. Mas a voz de Abelim era a mais ouvida.

Depois, quase um escândalo na família. Abelim cantando “músicas profanas” em programas de calouros. Ela estava cansada de trabalhar em uma fábrica, inspecionando lâmpadas. Estava cansada do salário baixo – 600 cruzeiros velhos por mês, e ainda ter de ir a escola, à noite, lá mesmo no Estácio. Ela queria ser cantora de rádio, fazer sucesso. Queria ser Dalva de Oliveira.

Ganhava todos os programas de calouros. Mas ninguém queria contratá-la. Era a cópia da Dalva de Oliveira. E isso ela também já não agüentava, estava cansada de ouvir: “Você só ganha prêmios em programas de calouros porque imita Dalva de Oliveira e o público gosta. Sinto muito, prefiro o original”.

Um dia, como nas novelas, Abelim começou a ser Ângela, cantora profissional. Foi ser crooner do Dancing Avenida, largou escola, fábrica, igreja, deixou tudo pra ganhar a “fortuna” de três mil cruzeiros velhos por mês.

E três meses depois, Ângela Maria esqueceu a letra, saiu do ritmo e, quase chorando, cantou “Fuga”, um samba-canção de Renato de Oliveira, no seu primeiro programa como artista exclusiva da Rádio Mairink Veiga.

Teve o prazo de uma semana para criar um repertório próprio e deixar de imitar Dalva de Oliveira. Pensou que ia perder o emprego e todo o dinheiro que ia ganhar: 4 mil cruzeiros velhos por mês.

Daí em diante, o sucesso. Músicas que marcaram época. O apelido “Sapoti”, dado pelo Presidente Getúlio Vargas. Charuto na boca, sentado no jardim de uma mansão de um milionário carioca, Getúlio olhou para Ângela e disse: “Menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti”.

Os tempos passaram, Ângela foi ficando esquecida, embora tenha sempre mantido o seu público. Mesmo não estando nas paradas de sucesso, sempre foi uma das cantoras que mais venderam e vendem discos no Brasil.

Um dia, passei na Rua Major Sertório, em São Paulo, e ouvi uma voz cantando “Babalu”. Era Ângela Maria. Essa música ela é obrigada a cantar porque para alguns é um teste. Querem ver se a voz de Ângela mudou. Entrei na boate. Perguntei a Ângela porque estava cantando ali. E ela: “Por que? Não canto pra bacana. Bacana não compra disco.”

Uma pesquisa mostrou que Ângela é a cantora mais popular do Brasil. Agora os “bacanas” é que procuram ouvi-la. Apesar de ser chamada de cafona. Mas Ângela não liga pra isso. Ela sabe que tem voz. E que não é mais a de Dalva ou de qualquer outra cantora. É de Ângela Maria. E essa voz influenciou muita gente. Uma das vozes mais bonitas do Brasil.

E é em companhia dessa voz que vou passar o carnaval no Rio de Janeiro. Podes crer: vai ser da pesadíssima. Pronto. Acabou.