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04 agosto, 2006

Ler faz bem pra burro – literalmente!
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

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Quando não está devorando livros, Cecezinho está devorando quengas.

Em entrevista bombástica, no início da semana, para o jornal mais vendido do Amazonas, o advogado Capiroto Mendes foi taxativo: “Eu não creio que o Cadeirudo (Braga) tenha lido um livro na vida a não ser os livros da escola. O Mulah (Aziz) também nunca deve ter lido um livro, não tem nenhum conhecimento humanístico”.

Deve ser por isso que os dois sacripantas vivem fodendo a população, mas não comem ninguém. O negócio deles é roubar. Já o Capiroto não fode ninguém por que está fora do poder. E, também, porque, com a senilidade galopante, está mais pra Pantagruel do que pra Maquiavel. Como ainda não inventaram viagra para diabéticos, tão cedo ele não vai comer alguém. O Irmão Paulo está desenvolvendo uma tese a respeito.

E você, meu jovem, que está bisbilhotando o nosso Club por meio de um PC da repartição, o que é proibido pela Convenção de Genebra? Já reparou como, nos últimos tempos, não abriu nem um livro? E, se o abriu, fechou-o mais do que depressa, assim que as letrinhas começaram a se embaralhar à sua frente, e, no clímax, o detetive durão Mike Hammer passou a falar como um profeta enlouquecido do Velho Testamento?

Aliás, você sabia que o escritor de romances policiais Mickey Spillane, criador do personagem, morreu em sua casa no Estado americano da Carolina do Sul, aos 88 anos de idade, no último dia 17 de julho?

O impacto que um livro pode provocar em quem não é muito chegado a leituras costuma ser tão perigoso quanto servir algodão-doce a um diabético. O fato é que, ultimamente, você anda tão ocupado tentando enriquecer que não teve tempo para ler muito.

E, agora, que continua pobre nesse empreguinho de merda, começa a se sentir meio burro porque, em todas as rodas que freqüenta, há gente falando de escritores absolutamente remotos, como “T. S. Eliot”, “René Crevel” ou “Yukio Mishima”, e usando palavras que você não consegue encontrar em nenhum dicionário, como “estamento”, “diacrônico” ou “epistemológico” – palavras sem as quais, hoje, não se decifra uma simples bula de remédio ou o mais reles rol de roupa.

O que fazer, então, para adquirir cultura e aprender a carcar mulheres – muitas mulheres –, como eu carco diariamente? Começar a ler imediatamente, ora bolas. Quer dizer, primeiro, aprender, se ainda não souber. Mas cadê tempo para relaxar e abrir um livro? E onde? No busão, a caminho do trabalho? Na Ponta Negra? Na Companhia do Forró? De noite na cama? Todas as opções são ótimas, se você puder se cercar do ambiente de paz e sossego que os livros exigem. E como nem um ônibus, nem a praia, nem o puteiro e muito menos a cama são lugares para se ter paz e sossego, aqui vai a sugestão – a única possível: o banheiro.

A idéia não é nova nem original. Todo mundo a pratica, mas de maneira casuística, episódica, intermitente. Lê-se muito jornal, gibi, fotonovela no vaso sanitário – como se ele não fosse digno de nada mais nobre. Pois saiba que a grande literatura, às vezes, sente-se mais à vontade à luz difusa de um modesto banheiro do que sob a iluminação feérica de uma sofisticada biblioteca, com lustres, carpetes e lambris. Perguntem a Dostoievski, Dickens ou Zola, por exemplo, onde eles preferem ser lidos, e eles dirão: num banheiro fim-de-século.

Até mesmo Proust melhora demais quando o leitor se isola dos ambientes requintados que ele descreve e só consegue ver, no máximo, a própria cara no espelho. As idas e vindas dos personagens proustianos pelos escaninhos da memória, em busca do tempo perdido, tornam-se tão relaxantes num banheiro que servem até de laxativo. Você sai do banheiro com o espírito enriquecido e a alma lavada.

Agora, atenção: é preciso escolher com carinho o que se leva para ler no sanitário. Nem toda literatura é propícia a esse santuário de recolhimento íntimo. Eu não aconselharia que se lessem, por exemplo, tratados econômicos ou filosóficos num banheiro. Livros sobre inteligência emocional, lingüística, semiótica e matemática pura também devem ser evitados. Em todos esses casos, a necessidade de concentração é tão grande que pode interferir com o processo. O melhor é você se limitar à ficção. Mas, vá com calma.

Faulkner, por exemplo, só é indicado para quem estiver padecendo de uma incômoda diarréia. Suas frases muito longas, geralmente compostas de um único pensamento que se desdobra interminavelmente e quase sempre sem pontuação, obrigam o leitor a um ritmo praticamente impossível de ser ajustado ao de uma evacuação lenta, gradual e segura. O mesmo se aplica aos livros de Virginia Woolff, ao capítulo final de “Ulisses”, de James Joyce, a todos os escritores do nouveau roman e a Henry James.

O contrário também deve ser evitado. Entre Hemingway e Fitzgerald, prefira Fitzgerald, no banheiro. O estilo de Hemingway é staccato, cheio de frases curtas e cortantes, como se fossem tomadas de cinema. A mesma regra se aplica na escolha entre Dashiell Hammet e Raymond Chandler, John dos Passos e Theodore Dreiser, Norman Mailer e Gore Vidal. Prefira Chandler, Dreiser e Vidal.

Ler os clássicos nunca fez mal a ninguém. Cervantes, Camões, Chaucer, sempre ensinam alguma coisa. Teatro é quase tão bom de se ler quanto de se ver: muna-se de algumas peças de Moliére, Shaw e George S. Kaufman, e divirta-se (deixe para ver Shakespeare, Ibsen ou Tennessee Williams no palco.). A prosa urbana brasileira é muito boa, de Machado de Assis, Lima Barreto, Marques Rebelo, até os romancistas contemporâneos.

Há contistas americanos deslumbrantes, como Damon Runyon, Ring Lardner, Dorothy Parker, tão bons quanto os melhores maupassants e gogols. Entre os latinos, Julio Cortázar, Vicente Huidobro, Alejo Carpentier e Jorge Luis Borges dão conta do recado. Não deixe de ler um ou outro Eça. Enfim, há um mundo à sua espera – e os caminhos para esse mundo passam pela indefectível primeira porta à esquerda.

Evite levar para o banheiro o que os críticos chamam de literatura “digestiva” (Paulo Coelho, Dan Brown, JKRowling, Lair Ribeiro, Umberto Eco, Neimar de Barros, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, JG de Araújo Jorge e similares). Não que você deva dar muita importância aos críticos, mas por motivos óbvios: de digestivo já basta o processo que o induziu a ir ao banheiro.

Uma hora diária de leitura no banheiro é tudo de que você necessita para por a sua cultura em dia, parar de fazer feio nas festas e reencontrar o seu ego, há muito tempo perdido em algum corredor de uma fábrica fuleira ou de qualquer escritório chato. Além, é claro, de manter o seu metabolismo mais em dia do que um relógio digital. Sem contar, obviamente, que, dependendo do grau de excitação provocado pela leitura, você ainda pode bater uma punheta. Mas depois lave as mãos, seu porco!