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13 julho, 2006

No caminho com Maiakovski
Por Torquato Piauí

Não importa que dia da semana seja, porque para nós essas coisas não importam mais. Quantas coisas não importam mais. Dia, mês, ano, sem datas, finalmente hoje, estamos chegando, estamos chegando, chegamos. Era de Aquarius. Aquarius. Hair, isto é papo anos 60. Mas nós estamos no São João Batista, Manaus, Amazonas, Brasil, América Latina, e eis que nos encontramos em Aquarius.

Sobretudo, hoje é um dia de amor. Sem, talvez, algo decisivo, de vez, agora ou nunca, mas com calma, sabendo o que está acontecendo. Dia do amor universal, um sorriso nos lábios, sem saudosismo. A certeza de que tudo aconteceu, porque tinha que acontecer. As coisas acontecem em mil lugares ao mesmo tempo.

No dia do amor universal, que todos saibam exatamente o que precisam fazer, cada qual no seu comando. Não existe muita coisa para se dizer, mas existe muita coisa para ser feita. E, também, estejam certos, não vai acontecer nada se a gente não fizer, pois uma questão de consciência da necessidade de fazer, poucas pessoas adquirem, compreendem, vivem, partem com o amor universal no coração, com a mente clara, aberta, para o que precisa ser feito.

No dia do amor universal, você já deve estar sabendo que a entrevista dada pelo negão abelhudo a uma rádio-cipó de Benjamin Constant, onde dizia categoricamente que “o Judiciário, o Ministério Público e os políticos são comprados”, causou a maior quizumba entre os desembargadores. Tudo indica que o bicho vai pegar. Podes crê, amizade!

O pai do Ari Mortinho, por exemplo, garantiu que vai interpelar judicialmente o governador, em nome do dia do amor universal. O último gaiato a fazer troça dos desembargadores e ser interpelado judicialmente, o tristemente famoso advogado Abdala Assahdo, desde ontem está dormindo no Complexo Penitenciário Anísio Jobim. Deus me livre desse destino.

Você também já deve estar sabendo que durante a sessão de desagravo ao judiciário, no dia do amor universal, o desembargador Neuzimar Pinheiro subiu nas tamancas e deitou falação poética:

– É preciso uma tomada de posição em nome da instituição senão amanhã qualquer um pode chegar com um desembargador e desacatá-lo. Como disse Dostoievski, na primeira noite eles levam uma flor. Na segunda levam o jardim, depois nossas filhas, mulheres...

Devagar com o andor, desembargador. Apesar do dia do amor universal, Dostoievski não tem nada a ver com isso. Muito menos Bertolt Brecht, a quem alguns fariseus atribuem a autoria do poema “No caminho com Maiakovski”, que sua douta sapiência tentou – em vão - emular.

Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, 67, estamos publicando o poema na íntegra, para o senhor decorar e fazer bonito no próximo chá das cinco. Curta.

NO CAMINHO COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakovski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão

É sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

E fique tranqüilo, não tenha medo. O novo tempo já começou. Vá em frente, do real, na faixa do bonito, só resta a gente, que ficou com a tarefa de fazer. Nem que seja repetir sempre a mesma frase: é preciso fazer, o que é maravilhoso continua, o que não é maravilhoso precisa ser transformado.

 

3 Comments:

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