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24 junho, 2006

Falconetes: o bagulho é doido!
Por Torquato Piauí

MV Bill continua desafinando o coro dos contentes.


Ligue o rádio, ponha discos, veja a paisagem, sinta o drama: você pode chamar isso tudo como bem quiser. Há muitos nomes à disposição de quem queira dar nomes ao fogo, no meio do redemoinho, entre os becos da tristíssima cidade, nos sons de um apartamento apertado no meio de apartamentos.

Você pode sofrer, mas não pode deixar de prestar atenção. Enquanto eu estiver atento, nada me acontecerá. Enquanto batiza a fogueira – tempo de espera? Pode ser – o mundo de sempre gira e o fogo rende. O pior é esperar apenas. O lado de fora é frio. O lado de fora é fogo, igual ao lado de dentro. Estar bem vivo no meio das coisas é passar por referência, continuar passando. Isso aí eu li uma vez no Pasquim.

O rapper MV Bill é um que não está esperando por nada – ele deve saber, com certeza, que o princípio está sempre no fim, por isso que ele deixa sangrar, do lado de fora, do lado de dentro. Está vivo, novamente passando entre as coisas e sabendo que tudo só é meio no fogo – e cai no fogo sabendo que vai se queimar.

Muitos o consideram uma contradição, um paradoxo entre o morro e asfalto, marcado pelo discurso de português correto e a origem humilde, pelo passe quase livre entre a classe A e a defesa das classes C, D e E.

Se MV Bill já era polêmico quando fazia apenas música, tudo se potencializou depois de “Falcão - Meninos do Tráfico” - documentário e livro assinados com Celso Athayde que agora fazem tripé com o CD “Falcão - O Bagulho É Doido”, lançado no início do mês.

O projeto, por si só uma bomba jogada na sala de estar das famílias que desconhecem a realidade nas periferias brasileiras, ganhou ainda mais notoriedade quando o rapper foi à Daslu. “Vendido” e “ingênuo” foram dois dos adjetivos mais ouvidos entre seus críticos.

– Eu quis ir à Daslu. Ninguém me convidou. É o templo do consumo, onde está o dinheiro. Fui dizer: ou vocês ajudam a mudar essa realidade, ou serão vítimas dela. Não fui fazer show, como outros –, defendeu-se o rapper.

No mês passado, MV Bill veio aqui em Manaus fazer uma palestra e lançar seu livro e ninguém, ao que me conste, parece ter compreendido o sentido profundo dessa viagem dessa palestra. Foi apenas uma viagem e uma palestra, mas foi fantástica demais.

É que, enquanto você curte lá o seu tempo de espera, enquanto você espera um dilúvio que apague o fogo, MV Bill veio reafirmar tranqüilamente, para o Amazonas inteiro, que estar vivo significa estar tentando sempre, estar caminhando entre as dificuldades, estar fazendo as coisas, e sem a menor inocência.

Os inocentes estão esperando enquanto aproveitam para curtir bastante conformismo disfarçado em lamúria, ataques apocalípticos e desespero sem fim. MV Bill deixou claro que não está exatamente esperando nada. Está na batalha. Não está nessa aí de esperar sentado, chorando, curtindo à moda conformista como fazem os inocentes (inocente é sempre útil) do meu país.

MV Bill está mandando ver como sempre. E, por falar nisso, vocês já ouviram direito o novo CD do cara? Curtiram a suingueira sampleada de Sandra de Sá (“Olhos Coloridos”), Caetano Veloso (“Qualquer Coisa”) e Vanusa (“Cinema Mudo”) em versões personalíssimas? Bom, não é? Cordiais saudações, falconetes! Já que o bagulho é doido, eu vou apertar mais um. Fui.


 

2 Comments:

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  • At 1:15 AM, Anonymous Anônimo said…

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