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23 junho, 2005

E a nossa Humanidade
Por Yeshua

Image hosted by Photobucket.com Estas palavras a negro escritas sobre fundo amarelado são palavras de luto. O luto mais não é aquela expressão de um desgosto profundo, ou ainda a expressão de um voto de amor ou dedicação póstuma.

Mas aí mesmo, o luto afirma e consolida uma perda - o que na melhor das hipóteses se tornará numa ausência-presente, numa transcendência da morte que é um sintoma maior de vida.

Estas palavras estão escritas a luto pelo falecimento da Humanidade - a Humanidade morreu, e ainda não foi determinada uma nova expressão para designar aquilo que sobrou.

Depois do 11 de Setembro de 2001, foi canção e pranto pelo planeta inteiro, que o mundo nunca mais seria o mesmo. E apesar das perspectivas mais pessimistas, acreditava-se, ainda que sob fortes reservas, que o mundo nunca mais seria o mesmo pela positiva - ou seja, que o amadurecimento político, social e religioso, forçado pelo choque profundo, seria uma inevitabilidade incontornável; que a humanidade ainda adolescente desenvolveria aí uma afirmação de entrada na vida adulta.

Mas não...

O mundo não se tornou num lugar melhor - a humanidade não amadureceu.
Mas o mundo também não se tornou num lugar pior - não houve uma queda abrupta na falésia de nenhum inferno, não houve maremotos nem terramotos, não fomos visitados por cavaleiros de nenhum apocalipse, nem o céu nos caiu em cima da cabeça.

Pior, muito pior: ficou tudo na mesma...

E isto ainda ninguém se lembrou de dizer... ficou-tudo-exactamente-na-mesma.
As torres foram implodidas pelos aviões... é um facto; os terroristas foram bem mais longe do que o já gasto estatuto de mártires com explosivos atados à cintura - tornaram-se hollywoodescos e bateram todos os recordes de audiências na história das imagens animadas.

Um ano e meio depois, os Estados Unidos da América invadem o Iraque por causa do petróleo... nada mudou.

Nada mudou excepto uma coisa: George Bush invadiu o Iraque legitimado pela inoperância dos valores da unidade internacional - ou melhor, pela inoperância das instituições que decretaram a humanidade como valor, que legislaram as guerras, os deveres e os direitos dos cidadãos do mundo. A invasão do Iraque não traz nada de novo, a não ser o facto de que a Humanidade foi assassinada (quando já pouco faltava, depois de tudo o que se passou entre 1945 e 1999, subtilmente rematado com o 11 de Setembro de 2001). A Humanidade morreu, é preciso assumi-lo. Alguma coisa ficou, mas que nome lhe daremos, a essa coisa?

Acredito eu que Homo neandertalensis, ou será Haraak Guruuk Mött?

Nasceu muito recentemente aqui tão perto, uma geração de novos bebés: O Tomás, o Gabriel, a Maria, a Elvira, o João, o sem-nome que está quase a nascer, e o Gaspar que está mesmo aí... Era muito bom se vos pudesse mostrar fotografias deles, mas hoje em dia não se publicam imagens de crianças na internet por causa das redes pedófilas - nem mesmo imagens de ecografias, porque a consciência pesaria na mesma, nunca se sabe...

Que nome poderemos dar ao conjunto destas gerações de seres-humanos acabadinhos de estrear? Qualquer coisa que tenha a ver com "humanidade" é uma piada de mau gosto; e mais vale simplesmente questionar se haverá ainda algum nome possível, ou se o verbo-de-todos-os-verbos, "amor", é a única coisa que poderemos evocar, como transcendência da morte da humanidade em combustão, nos poços de petróleo do deserto iraquiano...