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18 maio, 2005

Boemia, aqui me tens de regresso!
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Olha, Fran Pacheco, me desculpe. É que surfando pela web acabei caindo num universo paralelo (www.uniparalelo.weblogger.terra.com.br) repleto de orgias, surubas, bundalelês e o diabo a quatro de quatro. Tentei sair várias vezes, mas não consegui, simplesmente não encontrava a porta de saída. Parecia até que eu estava no Hotel Califórnia, na companhia pouco recomendável daquele vocalista doidão do Eagles. Bom, mas já que estava no Inferno, resolvi relaxar e gozar. Foi o que fiz durante quase três meses. Semana passada, entretanto, quando me preparava para iniciar o desjejum matinal praticando um frango assado com uma anã albina que era a cara cagada e cuspida (mais cagada do que cuspida, of course!) da senadora Padmé Amidala, o mestre Jedi Mace Windu entrou no recinto e, de repente, acordei num quarto esfumaçado de um dos hotéis de Cannes, na companhia de duas starlets mortas de loucaças. Meu sabre de luz estava muito machucado, escalavrado mesmo. Desconfio que o evento teve algo a ver com a vingança dos Sith. Ou dos bullshits lulistas de sempre, sei lá. De qualquer forma, estou de volta ao pardieiro. Recebi seu questionário (é alguma nova jogada de marketing da Amway, Herbalife, Igreja Universal, essas traquitanas de sempre, querendo conquistar novos adeptos?...) e passo a responder com o rigor mortis de sempre.

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Esta pergunta é sobre que livro gostaríamos de ser? Parece ter sido elaborada por algum português de Trás-o-monte em meio a uma crise existencial das brabas. Interessante, né não? Bom, nesse caso eu desejaria ser desencanado, pero non mucho. Sugeriria tornar-me o “Livro dos Insultos” (“A Mencken Chrestomathy”) de Henry Louis Mencken. Opcionalmente poderia ser o irresistivelmente cômico “Uma Confraria de Tolos” (“A Confederacy of Dundes”) de John Kennedy Toole ou quem sabe - tornando-me mais reflexivo, sutil, elegante, drogado e putanheiro - o esplêndido “Pé na Estrada” (“On the Road”) de Jack Kerouac. Ambos, evidentemente, no original. Em qualquer um dos casos, porém, seria muito solicitado pelos ouvintes. Seria popularíssimo, sem dúvida. Quem não leu “Fahrenheint 451” ou não viu o filme de mesmo nome de François Truffaut, ficará sem entender a última frase do parágrafo anterior... ou talvez tudo. Ah, mas, também, foda-se.

2. Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?

Este questionário veio de Portugal. Apanhado é igual a ficar caído, segundo a tradução exata de uma miúda que certa feita comi dentro do mictório de um cassino em Estoril. Uma vez, numa roda de amigos discretamente alcoolizada, uma das mulheres perguntou aos homens presentes quais teriam sido as mulheres de suas vidas. Por azar, coube a mim ser o primeiro a responder. Sou dono de proverbial franqueza, de lendária sinceridade e, depois de olhar para minha insegura cara-metade da época, declarei: a mulher de minha vida é certamente alguém que quis e nunca tive e da qual só imagino delícias, perfeições, volúpia, calma e carinho. É alguém de quem não conheço os defeitos. A mulher de minha vida é a Helena Ramos, cujo traseiro fornido em “As Cangaceiras Eróticas” (1974) rivalizava com o não menos célebre traseiro da Matilde Mastrangi e deveria ser a verdadeira “stairway to heaven” de que nos falava o Led Zeppelin. E pus-me a falar sobre o que faria se caísse naquelas carnes (“espanhola”, “candelabro italiano”, “vaca atolada”, “69”, “saci-pererê”, “cachorro pirento”, “canguru perneta”, “beira de cama”, “torno”, “chicotinho queimado” etc). Claro que meu casamento acabou na mesma noite. Não se deve confiar nas mulheres. Agora, fiquei chocado ao descobrir que as personagens de ficção pelas quais fiquei caído (ou “gamado”, como se dizia no meu tempo) são todas oriundas de gibis. Deste modo, minha primeira paixão ocorreu em 1913, por conta e graça do surgimento de Rosie, filha de Pafúncio e Marocas, criada por George McManus, explodindo de sensualidade em poses sempre bem estudadas - vestida no estilo belle époque, inocência virginal e melindrosa a roubar as cenas nas quais surgia (mesmo quando mera figurante). Na sequência, Betty Boop assumia mais a sensualidade em trocadilhos de duplo sentido malicioso e com a liga da meia surgindo sob a saia, seguida de Jane Pouca-Roupa, que em 1932 fazia um strip-tease "acidental" a cada tira de jornal. Na Segunda Guerra Mundial, Milton Cannif criou Malecall especialmente para os soldados no front, uma pin-up de claros propósitos masturbatórios para os jovens yankees nas trincheiras escuras, distribuída pelo próprio exército. Will Eisner também participa da minha lista com sua Sheena, pulando agarrada nos cipós de pernas abertas, curvando-se e mostrando o decote nas lutas. Mas nenhuma delas se comparou à criação imortal do desenhista italiano Guido Crepax, a musa erótica chamada Valentina. Inspirado na atriz Louise Brooks, Crepax moldou em 1965 a personagem sexy que se tornou mito erótico de várias gerações. Valentina tem traços fortes, é independente, decidida e extremamente sexy. É conhecida pelo corpo perfeito e pelas pernas longilíneas. Suas histórias foram publicadas em quadrinhos na França, na Espanha, no Japão e nos Estados Unidos. No Brasil não saiu em gibi, mas chegou em formato de livro às prateleiras. Pra Valentina, tiro o chapéu (não digo de qual cabeça) até hoje. De qualquer forma, assim que a Helena Ramos abotoar a camisola, estarei a posto, aqui do outro lado do balcão, para – quem sabe? – uma definitiva e decisiva investida. O sonho não acabou.

3. O último livro que compraste?

Nunca comprei livros, sempre fui adepto da expropriação voluntária à escondida, vulgo “furto na mão leve”. Portanto, contabilizo dois furtos de livros na última semana, ambos praticados num sebo: um novo, outro velhinho. O novo foi “A Pérola” de John Steinbeck e o velho foi “Órfão da Tempestade”, de Jason Tércio, que é uma biografia do jornalista Carlinhos de Oliveira.

4. O último livro que leste?

Foram dois. “O Pensamento Selvagem” de Claude Lévi-Strauss e “Pensamento e Linguagem” de L.S. Vigotski, ambos no intervalo das fodelâncias no universo paralelo. É que às vezes acabava o gelo para passar no sabre de luz.

5. Que livros estás a ler?

Estou meio feminista. No momento, leio “Os Mandarins” de Simone de Beauvior e “Susan Sontag: a construção de um ícone”, de Carl Rollyson e Lisa Paddock. Quando sobra tempo, releio “A Mística Feminina”, de Betty Friedan. Preciso aprender direito como funciona o cérebro desses bípedes implumes de bunda saliente, antes de traçar a Hedôzinha – que agora, kids, virou questão de honra.

6. Que livros levarias para uma ilha deserta?

Penso que nunca mais me apaixonarei por livros como na juventude. O que li durante a adolescência e até os vinte e poucos anos marcou-me muito mais do que qualquer coisa lida depois. Todos os meus livros vêm de lá:
“Perto do Coração Selvagem” de Clarice Lispector;
“O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” do Tom Wolfe;
“As Cariocas” de Sergio Porto;
Xerocópias de todas as crônicas de Antonio Maria;
A coleção encadernada da revista Status (144 números)

7. Quatro pessoas a quem repassarás este testemunho e por quê?

Repasso meu testemunho ao Wally Batatinha, porque me ensinou a fumar maconha sem tragar mesmo depois de morto. Ao Torquato Piauí, porque tem um poder de síntese e sugestão que talvez deixasse Pound pensativo. Ao irmão Paulo, pela sua lucidez de soda cáustica e esmeril elétrico. E pra Hedôzinha, para ela provar definitivamente que não é apenas um monte de carne, estrias e celulites em torno de uma xoxota depilada.