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15 fevereiro, 2005

Tsunami soteropolitano
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

O carnaval baiano é mesmo a maior onda. Oficialmente, ele terminou domingo, com a folia “Enterro dos Ossos”, dos Comanches do Pelô. Extra-oficialmente, a zorra só vai acabar depois que os dois milhões de almas que dançaram, pularam e gritaram nas ruas de Salvador nos últimos vinte dias voltarem pra casa. Ou seja, daqui a alguns meses. Mas o que eu previa aconteceu: foi um banho de felicidade.

Houve horas em que eu gritei e pulei tanto e tão alto, que parecia que eu queria forçar os deuses da felicidade a me ouvirem. Idiotice, claro: eles são os próprios organizadores da festa. Bastava um pensamento dos mais breves para que eles tivessem a certeza do quanto eu consagrava aquele momento. Abria os braços, pulava como que testando até onde iam as forças dos meus tendões e apatolava a primeira bunda que passasse saracoteando na minha frente. Nunca me diverti tanto.

O momento mais especial foi, sem dúvida, a pipoca de Daniela Mercury, que seguiu em paz da Barra até Ondina na segunda-feira gorda. Que pipoca, que puxadora de trio, que cardume de bundinhas arrebitadas pedindo para serem apatoladas, que cigarrinhos maneiros passando de mão em mão. Garanto que é o melhor da festa. Primeiro porque não se paga, segundo porque é com a Rainha, terceiro porque as pessoas que seguem o trio, sem cordas, só estão de fato dispostas a se divertir, brincar e rir, quarto, porque eu, fantasiado de Homem-Invisível, não ia dar mole praquela abundância de bundas, quinto, porque os cigarrinhos de palha eram do balacobaco.

É fato que passam uns mal-educados de vez em quando, quase todos amazonenses e com aqueles ridículos cocares de boi na cabeça, querendo atrapalhar a sintonia, mas eles só passam. Nós, da paz, ficamos. Ou melhor, vamos atrás do trio. Porque afinal de contas, não estamos mortos. Ou melhor, estamos (esse cigarrinho de palha está me deixando meio confuso. Só pode ser manga-rosa ou cabeça de negro.).

Lá pelas tantas, Daniela confessou que gostaria de tirar aquela roupa cheia de apetrechos e descer do trio, como uma foliã normal, para dançar. Fantasia pura. Ela, coitada, jamais experimentará a sensação de ser animada por ela mesma. Não achem que ela falou isso para “fazer linha” ou “agradar o público”. Via-se que era de coração. Eu torci pra ela descer do altar. O buzanfrã da Rainha ia levar uma apatolada do outro mundo. Papo sério.

Dois homens se agarram num beijo demorado, na pipoca do Camaleão em frente ao camarote do Nana Burana. Uma galera (eu nela) começa a gritar “vai comer ou quer que eu embrulhe?”. Eles, encabulados, olham para os lados, para cima, olham para as pessoas mais caretas do camarote, miram os foliões no chão e ao lado deles e, ato contínuo, tascam outro beijo na boca, bem demorado. Dois pierrots. Platéia em 360 graus. Palmas, mais palmas. O camarote inteiro aplaudindo, até um senhor que, de início, achei que cuspiria nos dois. Uma louraça chegou próximo a eles e, com braços esticados, fez o movimento vertical, que indica reverência. Mereceram pela coragem e ousadia. Eu aproveitei para apatolar a loura. Naquela posição, ela queria o quê?

O camarote de Daniela Mercury literalmente voou de segunda pra terça. A força dos ventos que vieram com a chuva foi tamanha, que o teto subiu aos ares. Meu amigo Batatinha, carburando seu décimo-quinto cigarrinho de palha, deu a explicação mais plausível: “Daniela reverenciou Iemanjá e Oxum no dia dois e esqueceu de reverenciar a Rainha dos Ventos e das Tempestades, Iansã”. Será? Mistérios da Bahia.

Chuva, suor, cerveja e cigarrinho de palha (porque o Batatinha não bebe). Muita chuva na segunda e na terça. Na quarta foi chato, mas na quinta e na sexta foi excelente. No sábado mais chuva. Domingo fez sol e chuva. Nesse meio tempo, apatolei um monte de bundas no Timbalada, Camaleão, Apaches do Tororó, Papa Léguas, Beijo, Pinel e Cheiro de Amor. Isso, durante o dia

A chuva e o carnaval são dois purificadores de alma por natureza. Juntos então, fazem jus à velha expressão que diz: “Lavei a alma”. Eu, mais pragmático em termos de apatolação bundal, lavei a burra à noite, nas searas do Ilê Ayê da Liberdade, Ara Ketu de Periperi, Malê Debalê de Itapuã, Olodum do “Pelô” e Muzenza do Reggae. Batatinha me segredou que a bunda das negras é sempre maior, mais empinada e mais firme do que a das brancas. Será? Vou ter que apatolar a Hedôzinha, para checar.

Sabe fim de festa boa? Todo mundo já deu uma festa em casa e olhou depois para o cenário onde tudo aconteceu com aquela saudade, aquela vontade de viver tudo de novo. Imaginem isso em uma cidade inteira. Cheiro de ressaca, barulho de ferros sendo tirados dos camarotes, gente bêbada na rua, talvez ainda esperando um trio que só vem daqui a um ano, chuva, céu nublado e mar revolto. As cinzas chegaram e, com elas, a vontade de riscar do calendário esse pós-festa, esse regresso lento à normalidade do cemitério São João Batista. Mas com esses cigarrinhos de palha, quem há de? Eu quero é mais, meu rei...