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24 dezembro, 2004

Pro meu povo ficar Odara
Por Wally Sailormoon

Odara é uma palavra do povo negro, Yorubá, é uma palavra Yorubá, eu é que ensinei ao Caetano. Eu morava em Itapuã, Salvador, depois que cheguei de Nova York levei um tempo por lá sem ir ao Rio de Janeiro... então, em contato com aquela comunidade negra de Itapuã, eu fui aprendendo o sentido verdadeiro da palavra Odara. E transmiti a Caetano numa das idas dele lá em casa, que a palavra Odara tem o significado de tudo que é BOM, de tudo que é POSITIVO, de tudo que é bacana, as pessoas usavam Odara... A mona é Odara... quer dizer: a mulher é bonita, é bacana, é gostosa.

Aí, para o pessoal enragé brasileiro, esse desespero político-cultural esquerdofrênico brasileiro, a palavra Odara ficou sinônimo de quê? Uma música linda de Caetano, linda, maravilhosa, uma música-manifesto, inteiramente livre, que aliás nem era música-manifesto, era uma música livre, dele, de repente virou uma posição programática, diante da vida, como se fosse uma frescura, como se fosse uma viadagem, uma alienação política. Nada disso, é porque esse pessoal tem a mente splitted, a mente esplitada... a mente deles é dividida... são es-quer-do-frê-ni-cos.

Por exemplo: eu fiz uma letra, uma poesia, para Maria Bethânia, chamada “A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa”... Aí, o Caetano musicou. Quando chega no show da Bethânia, o Fauzi Arap entendeu que a música tinha um tom triunfalista, porque ela era a-voz-de-uma-pessoa-vitoriosa... e esse tipo de gente só gosta do quê? Do amor do não... O nome duma peça dele, do Fauzi, “O Amor do Não”, é o que mostra bem esse clima de RE-MOR-DI-MEN-TO, de ressentimento, de ódio dissimulado. As pessoas querem sempre a emergência, mas nunca emergir, nunca vir à luz, nunca aparecer à luz do dia. Então vitoriosa, para ele, para eles, é sinônimo de triunfalismo, de estar ao lado dos poderosos...

Para mim é ininteligível que um homem de teatro, como o Fauzi, não entenda a progressão dramática.... a letra vem assim, a poesia vem assim: “Sua cuca batuca/ Eterno zig-zag/ Entre a escuridão e a claridade/ Coração arrebenta/ Entretanto o canto agüenta”. Eu acho que uma pessoa, aquilo que faz uma pessoa, uma pessoa-pessoa, é uma conquista, é um estágio superior... para se chegar a ser uma pessoa tem de se vencer, de conquistar. Mas entendem logo como se fosse uma opressão, vencer sobre os outros, um esquema de dominação... nada disso, não estava se tratando disso. Eles gostam mesmo é do amor do não... que o emergente nunca emerja, fique sempre lá na periferia, embaixo, retalhado, desestruturado, capado, próximo do suicídio... todo dividido... é isso que eles gostam. Mas eu não, eu gosto do oposto, do que é Odara mesmo, do que é íntegro, do que é pleno e verdadeiro.

Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo. Quer dizer: estou com Carlos Drummond de Andrade e Ernesto Che Guevara, estou com a massa e NUNCA com a palha! Eu tenho uma moral, não digo rígida porque isso é coisa de straight, de careta, mas uma moral bastante marcada: para mim, otário é otário, e malandro é malandro.

Mas e o lugar do poeta no mundo? Fui descobrindo que nem era malandro, bandido, nem tampouco otário. Nem burguês, nem raça fatigada. Construía um espaço intermediário, nos interstícios, era um sítio por entre, a invenção de outra fábula diversa daquela clássica do mar e do rochedo ou da outra mais antiga da república e do exilado. A área do poeta é uma área lúdica tal qual a do que brinca, tal qual a do que joga. É uma área Odara. Portanto, vamos jogar todas as urucas para trás e entrar no ano novo com a mente aberta, a espinha ereta e a respiração quieta.

Feliz Natal para nosotros, tipo qualquer coisa que se sonhara. Axé.

 

2 Comments:

  • At 5:57 PM, Blogger oda said…

    fico feliz de ter mostrado essa expressão ao Caetano porque a música é fabulosa *-*

     
  • At 5:36 PM, Anonymous Anônimo said…

    Nunca se compare ao"romantico" Che. O quê menos Guevara respeitava era o pensamento contrário ao seu. Essa FALSA "imagem romantica" é vendida pela esquerda, pois os que tiveram a oportunidade de discordá-lo tinha um destino certo (caso não conseguisse fugir): A MORTE!

     

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