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02 novembro, 2004

Tropicalismo para iniciantes
Por Wally Sailormoon

1 – Tropicália é a redução eidética (de eidos, please) contida numa pílula ambiental sintética preparada pelo feiticeiro Hélio Jaguatirica, nosso Kurt Schwitters.
Tropicália: Merzbau brasileiro. Hélio Jaguatirica cunhou a expressão para conceituar o ambiente que ele realizou no MAM do Rio de Janeiro em abril de 1967, meses antes de Caetano fazer a música e colar o mesmo selo.

A Tropicália nasceu num rio de húmus generoso. É o desembocar MEÂNDRICO do atelier Ivan Serpa, do círculo Mário Pedrosa, do suplemento JB, do neo-concreto, da teoria do não-objeto, da idéia de superação do espectador, do bicho de Lygia Clark, da arquitetura das favelas, do buraco quente, das quebradas do morro da Mangueira, do Tuiuti, da Central do Brasil, dos fundos de quintais da Zona Norte, do mangue, do samba, da prontidão, da diamba e outras bossas.

Um em busca do éden nas rodas de malandragem.

2 – A meu ver, depois do doce-estilo-novo que foi a Bossa Nova, o tropicalismo, pra não padecer de macaquice covarde, se torna resolutamente antípoda da diluição abossanovada.

Flos Sanctorum, João Gilberto, a flor dos santos, permanece como sombra modelar, o Virgílio dessa divina maravilhosa comédia.

3 – Outdoors, painéis, anúncios luminosos, cartazes, letras gigantes. A cidade grande é um livro aberto e o dorso do tigre será decifrado enquanto escritura torta de um Deus esfumaçado. Sob as trombetas dos serafins e querubins.

Bahia e SP: um frutuoso caso de amor paradoxal, uma coincidência dos opostos, um casamento barroco pleno de atração e ódio.

Tropicalismo nasce do affair anarcoíris Bahia/Sampa.

Tropicalismo: tropos de conciliação dos contrários, da inconciliação dos mesmos, aquele que um anterior Gil (o Vicente) cantou “Que quando cuido que acerto/ vou mais fora do caminho”.

O vigor das ruas e o trio eletrônico da POESIA CONCRETA.

O embaraço de pernas Bahia/SP ficou tão escancarado na bem posterior apologética “Sampa”, que ofuscou para muita gente a anterioridade do nascimento desta atração.

São Paulo, Canaã dos paus de arara, a Xangrilá dos bóias-frias, bóia de salvação dos retirantes cubo-realistas de Portinari.

São Paulo: o que representaria para aqueles universitários da Boa-Terra, com certo verniz sofisticado, assistemáticos e salpicados de Godard e Sartre? Uma porrada. Foi um soco da vida urbana capitalista e moderna selva selvagem do Brasil.

Tremendo bafo de tigre. O Tropicalismo é causa efeito desse choque. Gil se Hendrix. Tom Zé abriu o bico e cantou de cara “São São Paulo, Mon Amour”.

4 – Os salões auge do café da Dedé Veloso na Avenida São Luiz: Torquato, R. Duarte, Tarzan 3º mundo, Rogério Duprat, Huasca - o Lúcia no céu com diamantes indígena, Lanny, Marshall McLuhan, Jimmy everything is possible Hendrix.

Como é que um movimento forte acontece?

Com a vitória do mamulengo Sarafa ou pela derrota do Abelha-rainha? Com a vitória do vampiresco Serra ou pela derrota da Martaxa do lixo? Com a vitória do protecionista John Kerry ou pela derrota do beligerante George W. Bush?

Acautelai-vos. Nós, desencarnados, já vimos este filme antes. Vocês, reles mortais, saberão a partir de janeiro. Aguardem, pois, com doses generosas de aguardente na moringa e um escapulário sobre o peito.