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09 novembro, 2004

A praia da Tropicália
Por Wally Sailormoon

Alguém aí já ouviu falar no Guilherme Araújo? Ou na Regina Boni? Não?... Pois saibam que Guilherme Araújo foi aquele empresário antenado, brasileiro, que, em vez de ficar como pajem da pessoa que ele trabalhava junto (e o pajem faz o quê? Tudo o que a pessoa ao lado está produzindo o pajem igual a uma vaca de presépio balança a cabeça e aprova, vide Marlene Mattos), introduzia instigações esquisitas, provocações anti-provincianas. Guilherme Araújo foi uma espécie de Brian Epstein nacional.

E em São Paulo, de repente, tinha uma mulher interessante louca crazy, fazendo roupa, que era Regina Boni que abriu a loja “Ao Dromedário Elegante”, na Rua Bela Cintra, e ela bolou aquelas roupas de plástico para os Mutantes, pra Caetano, a roupa de fada pra Gal.

Quer dizer, é a existência num período na sensibilidade de um momento de uma época desses fatores todos que vão se juntando aqui, uma parte ali, outro pedaço acolá, que faz acontecer e explodir um movimento, e não é sempre que acontece, a natureza não é pródiga nisso, é na verdade raro, e por isso que esses movimentos sobressaem como picos, como cordilheiras dentro da planície, que são as etapas normais comuns do decorrer, e ás vezes as pessoas querem artificialmente provocar um REVIVAL, aplicar uma injeção no defunto, o gosto retrô vem disso, você quer fazer a volta dos anos 50, por exemplo, a volta do bambolê, por exemplo, a volta da efervescência tropicalista, por exemplo, mas as coisas não se dão assim, elas resultam de uma conjunção de um bocado de delicados intensos grosseiros e finos e grossos e boçais e sofisticados fatores, que não é sempre que a natureza da história proporciona, se é que a história tem natureza.

Não só as letras e música do período mais o desempenho, o jeito de intervir na televisão naquele programa Divino e Maravilhoso da TV Tupi, era parecidíssimo com a guerrilha urbana o clima da criatividade da hora, aquela urgência agônica de guerrilheiro neste sentido de que não existia um exército convencional de produtores como os outros programas regularmente têm, e então era o seguinte, quase na hora H, o Caetano subia no palco da TV Tupi, São Paulo e poucas horas antes do programa ser gravado, Caetano orientava a cenografia, botava os cara dali pra executar, e falava assim “faça aí uma jaula que ocupe o palco inteiro” e os operários começavam a executar aquele cenário que Caetano tinha bolado praticamente ali ou na véspera, de noite, em sua cama ou em qualquer outro lugar.

Dada Tropical, Cabaret Voltaire na terra da garoa.

O Tropicalismo se aparentava com o espírito brutalista, quer dizer, o brutalismo, as cores intensíssimas, as cores elementares usadas e abusadas e quando começava o programa Caetano, Gal, Tom Zé e Mutantes (Lovely Rita) e convidados, Paulinho da Viola, por exemplo, e outros, estavam todos dentro desta jaula o programa inteiro e no final Caetano cantava “O leão está solto nas ruas” e quebrava a jaula inteira, explodia as grades com a mesma voltagem de intencionalidade que o ex-aluno de Filosofia da Filosofia Caetano Veloso nunca se descartou.

No outro programa acontecia um banquete, numa absorção antropofágica de Art Povera do Chacrinha. Vocês querem bacalhau?

Instantaneidade pós-Rolleyflex e pré-Polaroid.

Era divino maravilhoso porque nunca foi um prato congelado por ilha de edição. Foi um prato quente daqueles de queimar os beiços.