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27 novembro, 2004

Na corda bamba
Por Torquato Piauí

É como se fosse uma história. Começa quando? Ontem: o anjo do bem & do mal, caído estirado escutando pragas. Ele me contou: sabe que está caído e sabe de todo o resto, sabe que morre sozinho conforme plantou, planejou e tenta. Sabe porque.

Ontem à noite, morreu de novo nos braços da mesma dona. O mega-evento-filmíco do Roberinho Brega sequer havia começado.

Descia no caminho de casa e um carro espatifou-se na sua frente, um fusca branco, melado de sangue, arrebentado, depois que tiraram o corpo do sujeito que guiava e já estava morto rasgado no meio do ferro retorcido, negra visão. Ficou olhando muito tempo e se arrancou sem pensar em nada.

Mas queria. Que diabo de fúria é essa, meu Deus? Ela quer que eu morra e eu não posso parar com isso novamente. A moça replicou: superoito, dezesseis, trinta e cinco, supervê, miniagádê, filme iraniano, curta, um minuto, aventuras. Não quero saber de nada disso, não cola.

E o cara não disse mais nada. Caiu de costa na banheira começou a sangrar pela cabeça. O sangue escorria. Meteu a cabeça na água fria e deixou escorrer. Mais tarde levantou-se comeu um negócio que encontrou sobrando no apartamento.

– Vai morrer sozinho.

Ele me disse: eu sei disso.

Repetiu: estou cansado de saber que este cansaço é que me mata, estou sabendo, vou vivendo assim por aí tudo e se você quiser, repare, se não quiser esconda o rosto e não olhe mais, feche a porta e tenha coragem de não me deixar entrar nunca mais.

Depois balançou a cabeça e engoliu (engoliu) um copo de cachaça. Bateu no meu ombro e perguntou se eu queria mais, se eu queria saber de mais detalhes. Eu disse que estava escutando. Contou.

– Eu sei que vou morrer sozinho. Morrer sozinho é morrer na pior, bem odiado. Pode jogar praga que não pega mais. É bobagem. Quem quiser que se livre logo, não interessa. Por enquanto ainda estou vivo. Peço, tomo, pego, boto. Por enquanto está tudo legal. Tenho visto.

Foi ontem. E, como se diz, me despedi do bicho e vim pro rumo do centro da cidade. Pensei muito no cara. Depois, na Praça São Sebastião, encontrei uma amiga assistindo “No Paiz das Amazonas”, de Silvino Santos. O pianista, tal de Pedrinho Sampaio, era uma mala sem alça. Conversamos um pouco, eu e a amiga.

Aí, lá pelas tantas, ficamos observado os 500 bacanas convidados do Roberinho se acotovelarem em táxis e ônibus fretados e irem continuar a boca livre no Tropical Hotel. Nós dois continuamos ali, vendo os babacas irem encher a cara no bar do Armando.

Depois, muito depois de uns dois ou três finórios, saímos batendo pé pela Getúlio Vargas e acabamos dormindo num hotel da Joaquim Nabuco.

É isso aí. Se depender de mim, o Amazonas Film Festival só vai ter 402.999 espectadores. (Gostaria de saber como foi que eles "chutaram" que 403 mil pessoas vão participar da transa. Foi o Vox Populli que consultou o povo e chegou a essa conclusão?...)