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20 novembro, 2004

Mais do mesmo (não é disco do Legião Urbana)
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Depois de muitas tentativas infrutíferas, Hedôzinha considerou a remota hipótese de me “conhecer biblicamente”. Só espero que, por trás (no bom sentido) dessa conversa mole (no mau sentido), a coleguinha não me obrigue a recitar versos do rei judeu Salomão, que acho um parnasiano menor, sem nenhuma técnica de metrificação poética. Em termos religiosos, admito sem sombras de pedantismo ou falsa cultura, ainda prefiro os poetas sufis que não estão no Corão: Omar Khayyam, Ibn Arabi, Attar, Saadi, Rumi e Hafiz. As damas da Ufam, as vendedoras de pastéis de queijo, a Gatona Spice, digo, a Ramona Spener, Aquela Que Diz Te Amo Cecezinho, MelissaG e dona Maria, que sabem das coisas, me dariam razão. Eu acho. Sempre fui otimista.

Mas antes de ser subitamente interrompido em meus devaneios metafísicos (sem trocadilho, degenerados!) pelo burrão da Ishtarzinha (Pai, afasta de mim esse “cale-se!”), eu – ou melhor, o Ricardo Rosas – dizia que em seu filão de precursores, Hakim Bey (ainda lembram dele, fariseus?) citará os piratas bucaneiros, que formaram uma república independente, estudará a utopia de Charles Fourier, com sua junção de arte e sexo na criação de um estado amoroso e chegará até mesmo à estranha república de Fiume, fundada pelo escritor italiano Gabrielle D´Annunzio, formada majoritariamente de anarquistas, segregados e párias sociais, putas, artistas e loucos em geral, uma piração do meio do século vinte, praticamente desconhecida em nossos manuais de história. Aí também poderão ser adicionadas as comunidades livres dos anos sessenta e setenta.

Pode parecer que não, mas a Zona Autônoma Temporária tem dado muito o que falar na internet. São numerosíssimos os sites em lingua inglesa com TAZ livre para download e eles vão de sites de estudos de tecnologia e sociedade, sites artísticos, de ativismo, de anarquistas, de contracultura e anos sessenta, de anti-copyright, neo-situacionistas ou de culture jammers. A influência de Hakim Bey é visível em toda uma nova geração de artistas e poetas, que já sentiam falta de alguém que levantasse a poeira como fizeram os beatniks nos anos cinqüenta e sessenta.

A ZAT reatualiza toda uma tradição de contestação nos Estados Unidos, que vem desde Henry D. Thoreau e sua Desobediência Civil, assim como do libertarianismo de Whitman. A nova geração de artistas, músicos e cineastas na linha anticopyright assim como os “congestionadores de mídia”, os provocativos culture jammers, com suas estratégias de guerrilha sabotando propagandas, interferindo em slogans e produtos massificados, alterando discursos dos meios de comunicação seguem nada menos que esse anseio utópico anti-capitalista. Além disso, a crescente popularidade das raves, o aspecto tecno-xamãnico dos DJs nessas reuniões gigantescas de uma coletividade que transcende barreiras com a dança, igualmente revela esse desejo de liberdade e elevação.

Mas há muito mais deste Marco Pólo do mundo underground. Uma infinidade de textos com sua rubrica e indefectível visão crítica estão espalhados pela rede. Alguns se inclinam mais para o ensaio, outros para a poesia. Coisas como CHAOS : the broadsheets of onthological anarchism (CAOS: os panfletos do anarquismo ontológico), pura poesia subversiva e inconformista.

Com idéias perturbadoras, imagens pouco aceitáveis, o libertarianismo de Hakim Bey é um vento fresco numa época de tanto conservadorismo como a nossa. Seu antídoto é poderoso frente ao marasmo pós-moderno e ao controle mental das maiorias silenciosas. Depois dele, muitos já surgiram. Outros surgirão. Como Grant Morrison, Hakim Bey é um desses caras que conseguiu ligar os dados certos, fazendo as conexões mais inesperadas mas nem por isso menos corretas. Sua intuição e capacidade visionária nos põe anos à frente em relação ao que pode acontecer neste planeta. Não só. Sua re-visão do passado igualmente ilumina em relação a coisas às quais ainda não havíamos atentado.

(Agora parem de pensar no burrão de Miss Hedô e procurem os textos de Hakim Bey para ler, seus degenerados! Eu, particularmente, já decidi: se não rolar nada com a Hedô depois do show do Djavan, logo mais à noite, vou “grelhar na laje” seja lá que diabo isso signifique. Dona Maria, minha nêga (sentiu a intimidade?) coloque os corotes no isopor que estou levando a conserva desfiada pra farofa de farinha seca - a farinha d’água, apesar de mais caroçuda, ainda me dá azia! Se der, levo um pouco de piracuí que afanei de um paraense. É, às vezes eles perdem... Os discos do Reginaldo Rossi já estão na malinha imitando couro de onça. Meu estoque de agulha Shure B-32 é que boiou, mas aí na beira a gente encontra, né não? Me aguarde!)