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28 novembro, 2004

Bandido de alma tímida ou vice versa
Por Cezário Camelo, "Cecezinho"

Stella Maris e Hedôzinha não me merecem. Cheguei a essa conclusão depois de uma festinha particular no quarto escuro da A2, semana passada, onde fui cavaleiro macho e cavalo baio ao mesmo tempo (pras detalhistas: eu estava de cueca Box que acabou virando Slip de tanto que a Hedôzinha enrolou no pulso e puxou pra cima, numa tara absolutamente inexplicável. Fio dental usa a puta que pariu!). E, o mais trágico de tudo, mal encostei a espora envernizada em KY-gel, as potrancas chamaram o garçom e acabaram com a muvuca. Puto e desorientado, só consegui, graças a Deus, dar um safanão na Stella que, de peruca loura e salto agulha, me barbarizou de chicotadas por crimes que jamais supus ter cometido. Votar no abelha, por exemplo. Quando desencarnei, aquele mané sequer era nascido, Stella! Eu devia ter ido pra laje da dona Maria, caceta! Um simples burrão transforma um macho em outro...

Caso ardido e trágico em nossa literatura, só me lembro de Lima Barreto, que escreveu em Marginália: "A minha alma é de bandido tímido." É, eu sou um Lima Barreto caboquinho. Talvez não. Eu devia mesmo era ter enchido as duas vacas de porrada e feito barba, cabelo e bigode enquanto elas estivessem grogues. Mas não. O mané aqui preferiu discutir com o garçom pela intromissão desnecessária enquanto as duas sádicas morriam de rir. Como estou com a coluna em petição de miséria e a miséria da alma no meio da canela, só me resta recordar daquele crioulo que esnobei várias vezes na parada de ônibus. Ainda não o vi por aqui, o que me leva a supor que mulatos inzoneiros vão pro inferno. Talvez não. Vou perguntar do Fran Pacheco, que conhece bem essas paradas.

Paradoxo dos paradoxos naquele mulato dos mulatos: sua alma era de bandido tímido, mas seus arroubos comovem e convencem até hoje. E, se ele, em momentos, era quase um carbonário, seu personagem Manoel Joaquim Gonzaga de Sá recomendava a doçura como a maior força do mundo. Também dizia: "A mais estúpida mania dos brasileiros, a mais estulta e lorpa, é a da aristocracia. Abre aí um jornaleco, desses de bonecos, e logo dás com os clichês muitos negros... Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!..."

Lima Barreto pertence a uma família universal de escritores cuja marca é o humanismo que se agita por um permanente espírito de luta: Cervantes, Gogol, Dickens, Gorki... Porque esse mulato nascido em Laranjeiras no finalzinho do Império foi o menos dissimulado dos escritores de seu tempo.

Era bom e de tope e para azucrinar Copacabana chamava a sua casa modesta, em Todos os Santos, de Vila Quilombo. Tinha a chave e não escondia o segredo, atirava franco, limpo e em grande escala universal.

E era simples a chave - entendia, sentia e amava o seu segredo. Nas criaturas mais insignificantes e comuns, nos esquecidos, nos lesados e nos evitados pelo estabelecimento estavam as pessoas mais importantes do seu país, mexendo-se no mutirão de pingentes urbanos, sobreviventes escorraçados lá no "refúgio dos infelizes", o subúrbio - gentes que não deram certo em canto nenhum do Rio de Janeiro. Mas eram o povo carioca.

Em tudo de seu, há o dedo do libertário e do revolucionário e, claro, do universalista: "Parece-me que o nosso dever de escritores sinceros e honestos é deixar de lado todas as velhas regras, toda disciplina exterior dos gêneros e aproveitar o que puder e procurar, conforme a inspiração própria, para tentar reformar certas usanças, sugerir dúvidas, levantar julgamentos adormecidos, difundir as nossas grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens, para soldar, ligar a humanidade em uma maior, em que caibam todas, pela revelação de almas individuais e do que elas têm de comum e dependente entre si."

Há escritores em que o leitor vê atrás deles uma biblioteca, uma sapientia, uma sofisticação intelectual, uma aflição estética, antes de ver os seus personagens. E há escritores atrás dos quais, e mesmo ao lado deles, logo se vê, de pronto, um povo - com suas caras, roupas, cheiros, as maneiras todas de ser. Assim era e é Lima Barreto.

Foram seus sofrimentos 41 anos de solidão preenchidos pela produção, em vertigem, de 17 livros e mais atribulação, calvário e porres?

Sim e não. Sim-não. Que foi grande, jogou alto e largo, enquanto outros jogaram as regras apenas vigentes e Lima tinha consciência disso.

Era um homem a serviço de seu sonho como o próprio Isaías Caminha ou o Major Policarpo Quaresma. E nessa coisa mesquinharia não podia entrar. Era especial, insisto: não admitia "o silêncio é ouro". Era raro e bem topado, o mulato. Tinha amor ou ódio pelos seus personagens e, para ele, obra superior exigia uma condição: "a mais cega e absoluta sinceridade". Era, assim, homem de gostar ou não.

Apesar de algumas tentativas sérias de redescobrimento de Lima Barreto, principalmente após a publicação de sua única biografia famosa, a de Francisco de Assis Barbosa - a primeira edição é de agosto de 1952 -, há alguns pontos a ressaltar na importância do mulato de Todos os Santos, pois vão sendo esquecidos no momento, logo após esses "redescobrimentos".

Conveniente ressaltar, e mais de uma vez, que a vergonha, o pudor e a memória são curtas neste país de nome com seis letras inteiramente diferentes.

Alguns desses pontos, pois:

a) A sua figura é axial dentro da literatura brasileira; é obra que funciona como um eixo dentro da raquítica produção da literatura da época. É a própria entrada da população urbana no cenário das letras brasileiras. Assim como a população do interior entrou pelas mãos de Euclides da Cunha e de Monteiro Lobato na literatura, a gente das cidades penetra pela primeira vez na cena brasileira pelos livros de Lima Barreto;

b) O seu volume de produção foi um dos mais prolíferos e intensos de que se tem notícia no Brasil. Se considerarmos que após 1918 ele esteve eclipsado pelo alcoolismo e pelas internações em sanatório e que, aos 37 anos, foi considerado inválido para o serviço público por "epilepsia tóxica", é surpreendente - produziu textos para 17 volumes em livro. Não é escusado se lembrar que conviveu, desde cedo, com o pai louco dentro de casa e já se provou, cientificamente, que ninguém bebe a bebida, mas as motivações;

c) Há quem veja o forte de Lima Barreto no traço e na trama caricatural de alguns personagens marcantes da nossa Primeira República; prefiro dizer que Lima fotografou uma caricatura, a própria Primeira República. É exemplo grande disso o Marechal Floriano Peixoto, que Lima Barreto colocou em cena e de quem fez o perfil, em Policarpo Quaresma;

d) Foi o primeiro questionador, entre nós, de todo o chamado quarto poder, a imprensa, principalmente em Recordações do Escrivão Isaías Caminha - leitura que deveria ser obrigatória a todos os que estudam comunicação neste país -, e também aí foi pioneiro;

e) Aos que o atacam argumentando ausência de originalidade, incorreção gramatical ou péssimo acabamento da fatura literária, recomendo a leitura do conto O Moleque e do próprio romance Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá. São exemplos de estruturações inteiramente novas na época e modernas até hoje em nossa literatura; são estruturas instigantes e intrigantes;

f) Lima Barreto continua sendo um dos casos de perseguição e brutalidade da censura e da arbitrariedade na literatura brasileira: teve o seu nome interditado e colocado no índex de nossos principais jornais e no ex-Correio da Manhã, em principal - seu nome foi proibido de ser escrito durante mais de 50 anos após a sua morte. O motivo foi a publicação de Isaías Caminha;

g) Constituiu personagens proféticos da falência da nossa chamada República; os políticos com os de Numa e Ninfa ou o Ministro Financeiro Felixhimino ben Karpatoso, de Bruzundangas, estão aí, vivos e vivaços, mandando e desmandando no Brasil de hoje, patrioteiros, parlapatões e sem se dar conta de que a linguagem - e não só estilo... - pode ser o homem;

h) A simplicidade levada ao extremo por Lima Barreto (e que era tida como uma heresia e um desmazelo inconvenientes na época em que escreveu) será capaz de dar dimensões de obra-prima, em qualquer literatura, a uma conversa de confeitaria com que ele construiu o admirável O Homem que Sabia Javanês; isso, em 20 de abril de 1911 na Gazeta da Tarde, profetizando a enxurrada de impostores e picaretas que infestariam o País;

i) Foi o primeiro a denunciar com argumentação concreta e vívida a necessidade de uma reforma agrária no Brasil, e isso em 1911, quando começou a publicar, em folhetins, o seu segundo romance, e um dos primeiros de toda a história da literatura brasileira, Triste Fim de Policarpo Quaresma, no Jornal do Commercio.

j) Terá sido, no Brasil, um dos primeiros escritores brasileiros a escrever mais com idéias do que com palavras; no seu caso, desde sempre, jornalista e escritor se confundiam num todo de cumplicidade e garra - comunicativo, direto, "vergastava os costumes numa linguagem despojada e inconformista".

Lima Barreto lavrou: "O que estraga o Brasil não é a cachaça, não. É a burrice, meu caro."

As manifestações de sua rebeldia intelectual, permanente, atestam um escritor que sabia o que estava fazendo. E, aí, é desconcertante o seu papel em sua época, beletrística, palavrosa. E acrítica.

Seu "desmazelo" é, mais que tudo, um ataque aos puristas. Resolveu não seguir a moda, colocou em ridículo o diletantismo literário, revoltou-se contra os formalismos, mandou ao diabo todo tipo de retórica balofa e, enquanto os seus contemporâneos, senhores literatos, falavam do Olimpo e de plagas gregas que nem conheciam, ele inaugurou no papel o subúrbio carioca.

Recomendava aos iniciantes na difícil arte de escrever: "Menino, aterra esse mar e mata essas gaivotas. O resto demonstra alguma coisa apreciável. Quando você principiar a escrever, tome um trem aqui, viaje até a Central, de segunda classe, e terá assunto, não para um pequeno conto apenas, mas para um livro de muitas

Esse homem discernido e assumido, determinado, orgulhoso de sua condição de negro e pobre ("Nasci sem dinheiro, mulato e livre. A minha esperança está no milhar 47.875. Se ele não der, não sei como salvar esta bodega."), tinha a virtude da modéstia e, sendo um anarquista convicto, várias vezes condenou a violência. Como num dos grandes diálogos de Vida e Morte de M. J. de Sá:

- "Não, a maior força do mundo é a doçura. Deixemo-nos de barulhos..."

Não apenas um escritor. Há de ser difícil e injusto se construir uma história do pensamento no Brasil sem se demorar em Afonso Henriques de Lima Barreto.

Quem hoje conhece literatura brasileira sabe que não se pode falar nela sem ler a obra de Lima e que ele foi o romancista por excelência da Primeira República, provavelmente o maior no gênero, embora não tenha podido entrar na Academia Brasileira de Letras. E Lima se candidatou duas vezes.

No entanto, Agripino Griecco, jovial sempre e diabólico, implacável com os medíocres e fingidos, disparou-lhes simplesmente um "o maior e mais brasileiro dos nossos romancistas". E, apesar do esquecimento em que foi mantida a sua produção, descobriu-se que Clara dos Anjos é talvez o nosso primeiro romance escrito sobre o povo e para o povo ler, e que Gonzaga de Sá deveria fazer parte de qualquer guia decente da cidade do Rio de Janeiro.

Pode e não ser uma questão de ponto de vista. Os modernistas, sobremodo a partir da crítica de Sérgio Milliet, acabaram compreendendo que o homem era um pioneiro de peso e piso, ousado e renovador, rompendo com todos os padrões dos senhores da literatura da época e reformando o conceito do romance moderno.

"Lima Barreto, que nascera com o Realismo/Naturalismo brasileiro, vive também o Simbolismo, morrendo nove meses depois da realização da Semana de Arte Moderna. Não foi realista, nem naturalista, menos ainda simbolista. Foi, sim, um precursor do Modernismo, fazendo uma autêntica literatura brasileira, isto é, voltada para os problemas existenciais do indivíduo em face da sociedade."

Hoje, o Major Policarpo Quaresma é apontado como o nosso Dom Quixote e, bem ou mal, já freqüentou o nosso teatro e foi traduzido em Londres, enquanto páginas como O Homem que Sabia Javanês ou A Nova Califórnia podem pertencer ao acervo da literatura universal.

Remando contra a maré vigente, a vida pessoal de Lima Barreto é um vaivém de reviravoltas: "a doença, a miséria, os delírios do pai pouco a pouco se encarregaram de esgotar as forças do escritor". O seu sucesso literário é sempre acompanhado de desgraças na vida.

Em 1918 publica com grande sucesso Os Bruzundangas, perfil do grotesco e trágico panorama brasileiro, onde as mazelas nacionais são expostas descarnadamente. Mas nesse ano é aposentado de seu cargo na Secretaria da Guerra, é considerado "inválido para o serviço público". E, portando epilepsia tóxica, é internado para tratamento de saúde.

Há quem veja em Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá sua melhor obra. Data de 1919, quando Lima Barreto é novamente recolhido ao hospício e de lá só sai no ano seguinte, em feverero de 1920. Uma experiência terrível que ele humanizaria nas páginas de Cemitério dos Vivos.

A Academia Brasileira de Letras o rejeita duas vezes: quando se candidatou para a vaga de Emílio de Menezes e, depois, para a de João do Rio.

Por ironia, no mês de maio de 1981, a própria ABL, nas comemorações do centenário de nascimento de Lima, abriu as portas para uma conferência de Francisco de Assis Barbosa, seu biógrafo. A mesma casa que o rejeitou duas vezes e, na última, até o enxotou por bebedeira...

Tudo isso é bem pouco na medida em que Lima é pouco conhecido fora do pequeno círculo de iniciados, essa ridícula espécie de gueto cultural em que vivemos. Cinema, televisão, universidade, teatro, já se abriram para Lima Barreto, mas a sua presença incômoda, ardida, parece estar sujeita a um ir e vir permanente. A glória e o reconhecimento se abrem para Lima. Logo depois, se fecham. Sua obra é forte e volta.

Explica-se, para alguns. Teve seu nome interditado na grande imprensa por longo tempo, produziu uma literatura do contra em alguns sentidos, e escreveu sobre a ralé, essa eterna indesejada das gentes que mandam. O argumento derradeiro é de uma atualidade desconcertante. E, afinal, continuamos a viver numa dita República em que a simples firmeza de um caráter ético já é vista e sentida como soberba. Lima está vivo, assim.

Volta e meia, relança-se um projeto neste país de planos infinitos, da reedição das obras completas de Lima Barreto. E ele prossegue com muitos livros esgotados e fora das livrarias... essas ocasiões, alguém informa que o projeto encalacrou por falta de verba. Tal qual nas Bruzundangas.

Depois dos 37 anos, seu calvário e porres aumentaram e foi consumido pelo álcool, não conseguindo terminar O Cemitério dos Vivos. Morreu a 1º de novembro de 1922, em Todos os Santos, de gripe torácica e colapso cardíaco. Dois dias depois, morria seu pai e foram ambos sepultados na mesma campa.

Lima Barreto tinha só 41 anos. Estava esquecido pelos contemporâneos e sem dinheiro para o enterro, que foi pago no Cemitério São João Batista, em Botafogo, por um amigo, José Mariano Filho.

E eu aqui imaginado uma maneira de entrar (agora eu sei que vale a pena!) naquele metrô incendiário guardado a sete chaves pela Hedôzinha... Mas sem a Stella Maris por perto, claro! Aquele burrão tá com as horas (haras?) contadas, Lima Barreto. Ora pro nobis!