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20 outubro, 2004

Nossa Senhora do Peixe Frito
Por Wally Sailormoon

Tudo aperto e nada abarco além desse ramo de capim santo, cheio de razão ardente, descarregado de mim mesmo, ando no mundo dos vivos, dos muito vivos, por entre mesas e cadeiras do mercado Adolpho Lisboa, andando à toa, com um back no bolso. Easy rider em slow-motion. E este ar impregnado de peixe frito, de peixe frito em um azeite queimado desde a era glacial, me faz gestar uma idéia maluca de uma Nossa Senhora do Peixe Frito, uma cunhan-poranga sestrosa como um dia foi Daniela Cicarelli Assayag, a musa dos grandes lábios de mel e de rabo cheio de espinhas. Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air we breathe”, mas não consigo. Compadecei-vos de nós,oh! senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem ossos, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the House of Usher”, indigência maior do que ver criancinhas entoando o hino da ditadura no palanque do Serafim, entoando o hino de Dom e Ravel no sagrado chão de Santa Etelvian, a padroeira da leseira baré, indigência maior do que ver o Negão falando mal de seu ex-afilhado Alfredo Buchada, falando mal do jegue potiguar que até alguns anos atrás era tratado a leite de pato quando descascava tucumã na colméia do tarumã, oh! bocas podres, ulceradas e sifilíticas que só gotejam pus e pestilências, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédios descei a Getúlio Vargas até a Leonardo Malcher e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma pústula cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Peixe Frito, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram os primeiros socorros de culinária no restaurante do Sesc e que são tão peritos e bons em servir peixe frito & farofa de uairini & pimenta malagueta & vinagrete de cheiro verde & cerveja choca & que depois continuam desempregados porque o homem que manda na Manaustur não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” e cheirador de cocaína uma Antônia, um Marcileudo, uma Lucimar, um Severino qualquer, recém despejado do curso de primeiros socorros do restaurante do Sesc pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Peixe Frito, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós. Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que nesta taba de tabaréus se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cincos dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele. Aqui campeia a mentira cínica e deslavada a que os nativos se referem dizendo “mas quando já? nem com nojo!”, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos caboclos simplórios ilhados entre o porto e o aeroporto fazendo do trânsito um fliperama letal. Emputecido estou, oh! doce mãe da broa de trigo e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento, mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta oca, gitano andaluz sou e madastra esta cidade onde reinais ao meu olfato e invisível aos Vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido assando churrasquinhos de queijo. Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas orando na língua dos anjos reverterão a tragédia, que não há salvador que salve este armento da sua amazonina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio-presepeira da planície e das casas de forró. Rogai por nós,oh! senhora do manto amarelo-gema de ovo de galinha caipira. Que tudo abarco e nada aperto além deste capim santo. Eia pois, advogada nossa! Salve Madona imaculada que se adornou do cocô de caganeira da Carmem Doida na Praça do Congresso! Salve Rainha, nossa santificada Nega Charuto do torpor do beco da Bosta no bairro dos Tocos! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo! Valei-me, oh! senhora, antes que a merda dê no boné, e nos mande um ciclone extratropical para avacalhar a bovina festa de aniversário da cidade que ora se avizinha! Deo gratias.